Crítica: Lua de Fel, de Roman Polanski
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Lua de Fel

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NA CRÍTICA DE REPULSA AO SEXO (1965), eu já havia dado algumas dicas para ajudar a compreender melhor o cinema de Roman Polanski. O cineasta costuma incluir em cada uma de suas obras os seus próprios conflitos pessoais, sejam eles mais dramáticos (O Pianista) ou mais pervertidos (90% de sua filmografia), como é o caso de Lua de Fel. Lançado em 1992, o drama pode muito bem ser considerado como o mais próximo do soft porn que Polanski chegou em sua carreira. Ou seja, além de ser um filme com a assinatura de um dos melhores cineastas vivos, ainda envolve safadeza. Como resistir?

Nigel (Hugh Grant) está curtindo o aniversário de sete anos de casamento com a esposa, Fionna (Kristin Scott-Thomas), à bordo de um cruzeiro para a Índia. Durante a viagem, o casal acaba conhecendo uma francesa sedutora (Emmanuelle Seigner) e o seu marido paraplégico (Peter Coyote), que percebe a cobiça de Nigel e o “adota” para contar toda a história do seu caótico romance antes de permitir uma possível transa entre os dois.

Seigner é o principal motivo para se querer gastar mais de duas horas na frente da televisão. E quando digo isso, não pense que é por conta das diversas cenas picantes que a esposa de Polanski protagoniza (incluindo uma sequência de striptease arrepiante com a câmera sendo mais sedutora que a própria dançarina). Ela é um vulcão de emoções e, mesmo com sua expressão apática e indiferente, consegue transformar sua personagem ao longo da trama. Grant se destaca por interpretar um típico inglês bundão e todo cheio de frescuras, quando na verdade é um monstro pervertido reprimido. E Scott-Thomas se dá bem na difícil missão de “duelar” com Seigner. Sua omissão, classe e delicadeza contrastam bem com a “objetividade” da sua companheira de cena.

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O roteiro de Lua de Fel não gira apenas em torno da nudez e das cenas bregas. O filme costuma ser lembrado sempre que se falam em obras que abordam o BDSM, e é curioso perceber como os papéis de Dominante e Dominado (Submisso) se fundem na própria trama e guiam os personagens de Oscar e Mimi. Mais interessante que as cenas gráficas em que o casal se diverte, é reconhecer a inversão cruel de personalidades e como isso é absolutamente destrutivo para os envolvidos.

A trilha sonora chama a atenção em diversos momentos. Durante o café da manhã mais surreal da história do cinema (aposto que você nunca mais tomará leite sem se lembrar das peripécias de Seigner), escutamos “Faith”, de George Michael. Não é uma música sensual, mas ela funciona na cena justamente por conseguir adicionar uma boa dose de humor para o momento íntimo de Mimi e Oscar, que goza no momento em que os pães pulam da frigideira. Polanski deve ter se divertido horrores ao se esforçar para ser brega. Em outra cena, mais para a conclusão do longa-metragem, Seigner dança sensualmente ao som de “Slave to Love”, de Bryan Ferry. Depois disso, não há como dizer que Lua de Fel não é kitsch. Ainda há a sequência em que Oscar, durante seu momento libertino, vai dançar numa boate ao som de “Kátia Flávia”, de Fausto Fawcett.

Muita gente deve ter ouvido falar de Lua de Fel como se fosse uma obra pecaminosa imperdível, com as melhores cenas de sexo e nudez da história do cinema. A verdade é que existem boas cenas provocantes, mas o longa-metragem de Roman Polanski é grande demais para agradar apenas os jovens com mãos e dedos nervosos. Usando a nudez de maneira natural, nunca gratuita, o cineasta oferece um drama psicológico capaz de mexer com os nervos dos espectadores mais sensíveis e que entendem bem as dificuldades de se relacionar com pessoas dependentes e com baixa-estima.

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Tullio Dias

Dizem que sou legal, mas eles estão mentindo só para me agradar. Gosto de Molejo, acho Era Uma Vez no Oeste uma obra-prima, prefiro baixo de quatro cordas do que os de cinco, tenho um MBA de MKT Digital e um curso de Publicidade, não tenho filhos, não tenho um coração, mas me derreto por caipirinhas.