Malévola

 

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A DISNEY PARECE SOFRER DE UMA VONTADE CRÔNICA DE TRANSFORMAR SEUS CLÁSSICOS em verdadeiras franquias de aventura. Ou quem sabe reunir suas princesas numa super equipe feminina para dar uma porrada nos Vingadores. Vai saber. Depois do deselegante Branca de Neve e o Caçador, cujos frutos fora das telas são mais lembrados do que o filme em si, agora é a vez A Bela Adormecida ganhar uma nova roupagem, mas desta vez mostrando o outro lado da história: a versão de Malévola, a vilã no original.

Com Angelina Jolie no papel principal fica fácil convencer o público de que Malévola é nada mais nada menos do que uma vítima das circunstâncias. Traída por um vigarista interesseiro (personagem do excelente Sharlto Copley, de Elysium), a fada se torna amarga. Sedenta por vingança para proteger o seu reino na floresta da ambição e gânancia dos moradores do Castelo. Apresentadas as provas, é difícil não apoiar o lado de Malévola – até na parte vingativa em que ela amaldiçoa a princesa. O que o longa-metragem tenta nos vender é a ideia de que Malévola sofreu muito por ter se apaixonado pela pessoa errada (“e ninguém sabe como estou sofrendo / sempre que vejo ele do seu lado, morro de ciúme, estou enlouquecendo”) e ficou cega por essa frustração. Nós entendemos muito bem o que é sofrer por amor.

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No entanto, Malévola carece de profundidade. É divertido, sem dúvidas, um espetáculo visual. Tanto na ambiência quanto na maquiagem da atriz, mas é uma história tão rasa e previsível que nem mesmo as crianças conseguirão prever todos os detalhes que acontecerão em cena. O trio de bruxas que está lá para ser apenas como um alívio cômico meio retardado (embora a presença de Juno Temple seja interessante em qualquer papel – embora eu a prefira em Killer Joe por motivos de… ser um bom filme) não possui tanta graça assim. O corvo Diaval (Sam Riley, de Control) tenta transmitir serenidade e inteligência, mas é apenas um corvo presunçoso que deveria ter sido interpretado por Orlando Bloom (O Senhor dos Anéis). E ainda que Copley seja sempre um show a parte com seu jeito peculiar de conversar e a jovem Elle Fanning seja um doce como a princesa Aurora, o principal sustento de Malévola é mesmo a atuação de Jolie. Não seria exagero dizer que ela salva a produção. Mérito especial para a relação materna da fada com a pequena Aurora (interpretada pela filha de Jolie com o bonitão Brad Pitt). Ao se referir à princesa como “praga”, Malévola deixa escapar que no seu “ódio” existe muito mais amor do que ela mesmo poderia imaginar.

Um detalhe muito interessante para os espectadores prestarem atenção é na preocupação da equipe de figurino com as transformações presentes na fada Malévola. Em sua infância, o mundo inteiro é uma verdadeira aquarela de cores vivas. A protagonista usa roupas de cores fortes e está sempre sorrindo. Após sofrer a traição do humano, Malévola passa a adotar um visual mais sombrio até finalmente adotar seu tradicional traje negro. No entanto, durante o tempo que passa com a princesa Aurora, Malévola se deixa contaminar pelo amor e lentamente volta a usar roupas menos sombrias.

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Combinando defeitos com qualidades, Malévola consegue escapar de repetir a mesma frustração deixada por Tim Burton com seu Alice no País das Maravilhas. Os erros aqui se revelam inofensivos e incapazes de ofuscar o carisma de Jolie, que diante um roteiro previsível, bobo e em diversos momentos com piadas fracas, simplesmente deita e rola. Fazia tempo em que a atriz não aparecia tão bem num longa-metragem.

Seja pela Angelina Jolie, pelo visual estonteante ou simplesmente pela diversão de assistir a uma versão distorcida de uma história que todo mundo sabe de trás para frente, Malévola funciona como um produto de entretenimento de qualidade. Agradando tanto os mais novos, que certamente ficarão encantados pela beleza visual presente na obra e por ver uma fada mais ou menos do bem em ação; quanto os mais velhos, que ficarão deliciados com uma visão completamente diferente de A Bela Adormecida. Foi o meu caso, pelo menos.

Assista ao trailer:

Poster Malevola

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Tullio Dias

Dizem que sou legal, mas eles estão mentindo só para me agradar. Gosto de Molejo, acho Era Uma Vez no Oeste uma obra-prima, prefiro baixo de quatro cordas do que os de cinco, tenho um MBA de MKT Digital e um curso de Publicidade, não tenho filhos, não tenho um coração, mas me derreto por caipirinhas.