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Martha Marcy May Marlene

A COMPLEXIDADE DA MENTE HUMANA É ALGO QUE FOGE DA COMPREENSÃO DA PRÓPRIA MENTE HUMANA. Em um exemplo não relacionado ao filme em questão, um pastor evangélico considerado racista e homofóbico foi eleito, há algumas semanas, presidente da Comissão de Direitos Humanos e Minorias da Câmara – um contrassenso que, mesmo aparentemente tão explícito, se concretizou, é defendido vigorosamente por milhares de cidadãos brasileiros e persiste até a data da publicação deste texto. Não raramente, jogos de interesses pessoais ou coletivos dos mais diversos são colocados acima de direitos básicos do indivíduo, contribuindo para uma desgostosa descrença na humanidade.

Não é fácil entender o que se passa na fazenda que ocupa a tela nos primeiros minutos de Martha Marcy May Marlene – e o cineasta estreante Sean Durkin tampouco se esforça para facilitar a compreensão do público. À medida que a narrativa avança, porém, alguns detalhes fundamentais são esclarecidos: influenciada por uma amiga, Martha (Elizabeth Olsen, irmã das gêmeas Mary-Kate e Ashley, em sua estreia no Cinema) se envolve em uma espécie de seita inspirada no caso real da família Manson – e uma das primeiras medidas tomadas por seu carismático líder, Patrick (John Hawkes), é arrancar-lhe sutilmente parte de sua personalidade: Martha vira Marcy May, nome que o sujeito diz considerar mais apropriado. Em questão de tempo, Martha/Marcy May (e quando necessário, também Marlene) se habitua à rotina e aos princípios nefastos do grupo – até que um evento extremo a traz de volta à realidade, motivando-a a fugir da propriedade.

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Em um misto desbalanceado de medo e desespero, Martha solicita de forma hesitante a ajuda da irmã, Lucy (Sarah Paulson), que a acolhe em sua luxuosa casa do lago e lhe oferece suporte emocional para superar os traumas recentes. Estes dias em que a protagonista tenta espantar seus demônios na companhia da irmã e do cunhado Ted (Hugh Dancy) constituem a linha central da narrativa, que constantemente é descontinuada por flashbacks que apresentam trechos da passagem de Marcy May por aquele estranho grupo hermético. Através de atitudes cada vez mais impróprias e instáveis da protagonista, Durkin constrói um drama denso e angustiante centrado em uma personagem psicologicamente desestruturada pela influência nociva de pessoas das mais desprezíveis.

E a fragmentação psicológica de Martha é ilustrada com excelência por Sean Durkin e Elizabeth Olsen: os esforços de boa convivência e integração social pacífica de Martha aos poucos dão lugar a crises nervosas e ataques de fúria imprevisíveis – e a atriz oscila entre os extremos com a fluidez esperada de uma jovem fatalmente desequilibrada. Além disso, Durkin e o montador Zac Stuart-Pontier (Catfish) saltam entre as linhas narrativas com bastante competência: além de raccords extremamente significativos (em um deles, um copo com um líquido viscoso e mal intencionado é substituído por um outro preenchido com água cristalina), há também saltos temporais desavisados, que misturam a realidade vigente com alucinações do passado e expressam maravilhosamente bem o avanço da demência da protagonista.

Por fim, apesar de viver o líder do grupo, o excelente John Hawkes aparece pouco em cena, mas tamanha é a força do personagem que sua presença é sentida até mesmo nas ausências. E embora nosso conhecimento sobre o grupo continue limitado até o desfecho, sabemos o suficiente para absorver o plano final com um arrepio na espinha.


Título original: Martha Marcy May Marlene
Direção: Sean Durkin
Roteiro: Sean Durkin
Elenco: Elizabeth Olsen, Sarah Paulson, John Hawkes, Hugh Dancy, Louisa Krause, Brady Corbet, Julia Garner, Christopher Abbott, Maria Dizzia.
Lançamento: 20 de Março de 2013
Nota:[quatro]

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