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Melancolia



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MELANCOLIA, SEGUNDO A PSIQUIATRIA, é o termo utilizado para designar o modo particular de elaboração inconsciente de perdas reais ou simbólicas. Segundo Freud, quando o sujeito perde um objeto significativo, seja ele desde uma pessoa próxima até um status ou emprego, ele tende, para não perdê-lo totalmente, a identificar-se narcisicamente com ele e a introjetá-lo ao próprio Eu. Para Lars Von Trier, Melancolia é um filme sobre o fim do mundo. Melancolia em questão é o nome de um planeta que fará uma passagem pela Terra e acabará colidindo com a mesma, fazendo com que o planeta seja destruído, logo, o nosso mundo acabe. 
No drama, Von Trier aborda a questão da terminalidade através da perspectiva de duas irmãs: Justine (Kirsten Dunst) e Claire (Charlotte Gainsburg). A primeira estaria num estado de melancolia; a segunda, num estado de ansiedade. Segundo o diretor, a proposta era mostrar que pessoas em estado depressivo reagem de forma mais calma a situações desse tipo do que pessoas “normais”. O filme é dividido em duas partes, cada uma delas mostrando como cada uma das irmãs lida com suas emoções.
Na primeira parte, Justine acabara de se casar com Michael (Alexander Skarsgard AQUELE LINDO), porém, não se sente feliz com aquilo. Para não encarar sua festa de casamento e as pessoas que nela estavam, Justine foge: dorme, toma banho, transa com um dos convidados… tudo para não encarar o fracasso de seu relacionamento. Durante a festa, ela vai entrando num estado de tristeza profunda e assim permanece. Justine, em seu estado melancólico, se sente triste, desmotivada, incapaz, impotente, imóvel. Kirsten Dunst consegue passar com tanta intensidade as sensações e emoções (ou falta delas) da personagem que em muitos momentos EU me senti imóvel na cadeira do cinema, sem reação, sem sensação do meu corpo.
 
Na segunda parte, Claire recebe a irmã de volta em sua casa (que foi onde acontecera a festa de casamento) e ao mesmo tempo que tenta ajuda-la a sair do estado de melancolia, tem que lidar com o marido John (Kiefer Sutherland) e o filho, que estão muito interessados na chegada no planeta Melancolia à órbita terrestre. Claire vê na internet notícias sobre uma possível colisão do planeta com a Terra e fica muito ansiosa com a possibilidade de morrer, mas John, que é um entendedor de astronomia, tenta sempre acalmá-la dizendo que o planeta não irá colidir com a Terra. Porém, as evidências não são tão favoráveis às ideias de John, e a possibilidade de colisão é cada vez mais real.

Com a proximidade da colisão, Justine sai da inércia e Claire entra num estado de ansiedade que a faz perder a cabeça. O mais legal do filme, pra mim, é justamente essa troca, a “virada da história”. Quando tudo indicava que Justine não se desesperaria com a ideia do fim e Claire seria mais sensata e racional, as duas trocam de papel e Claire se mostra mais humana, mais movida a sentimentos, como a irmã. E, pra corroborar sua teoria, Von Trier mostra que pessoas em estado depressivo conseguem lidar mais calmamente com o luto.
Mas será que é sempre assim? Eu e o Tullio andamos discutindo sobre a questão da tristeza e ele disse que quando se está triste muitas vezes se é muito mais produtivo, a pessoa consegue render muito mais. Mas que rendimento é esse? Quais as “vantagens” de se estar triste? A frieza? Pra Justine essa frieza da tristeza foi positiva na hora de lidar com a terminalidade do mundo. Para Claire, a ansiedade, a angústia, lhe serviu como “start”, foi o pontapé inicial pra que ela tivesse alguma reação. De qualquer forma, acho que não é errado dizer que as duas emoções, aparentemente extremas, andam juntas no filme. Justine não seria nada sem Claire, e vice-versa.
O que se dá no recheio do filme fica à cargo de vocês. Melancolia, o primeiro filme de Lars Von Trier com final triste, pra mim não tem um final triste. Tem um final justo. O filme consegue fazer o que se propõe. Mas o que se destaca mesmo é a intensidade do filme, não só das cenas, como das interpretações, e principalmente do assunto. Von Trier transforma um assunto simples e batido num assunto intenso. Sem propor reflexões, mas propondo aberturas, experimentações. E pra entender a intensidade de Melancolia, só assistindo. É um filme lindo! Mas fiquei tão presa a ele que não consegui me emocionar, me senti um pouco como Claire, um pouco como Justine, mas nem um pouco como Juliana. Preparem-se, estou até hoje elaborando o luto pelo final desse filme.

Melancholia, 2011
Direção: Lars Von Trier
Roteiro: Lars Von Trier
Elenco: Kristen Dunst, Charlotte Gainsbourg, Kifer Sutherland, Alexander S
karsgard.

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