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Morangos Silvestres

Um dia, apenas um dia na vida de um personagem e ele já vê sua existência com outros olhos. Alguns livros famosos mostram essa espécie de redenção, como Ulisses, de James Joyce, e Mrs. Dalloway, de Virginia Wolf. É o que Ingmar Bergman propõe neste belo filme de 1957.

O médico Isak Borg precisa viajar de Estocolmo para Lund para receber uma homenagem da universidade. A primeira cena, em que ele aparece de costas, sentado à escrivaninha em sua biblioteca, já diz muito sobre sua personalidade. Ele narra todo o filme e ressalta suas “qualidades”: um velho recluso, solitário, metódico. Seu filho mora longe, sua mulher morreu, seus irmãos também estão mortos e sua mãe, de 96 anos, está viva, em outra cidade.

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Isak tem um sonho perturbador e, por conta dele, resolve ir a Lund de carro, enfrentando 14 horas de viagem. Sua nora, que estava em Estocolmo, segue com ele. Em certo ponto da estrada, Isak para, com o objetivo de revisitar a casa onde passava os verões e que não via há mais de 20 anos. Enquanto Marianne, a nora, vai ao lago, Isak vê o canteiro de morangos silvestres e começa a relembrar sua juventude. Entre seus sonhos, suas recordações do passado e a presença de alguns caroneiros – a jovem Sara com seus amigos Anders e Viktor e um casal que só briga -, o personagem percorre a estrada que o levará a ser um novo homem.

Isak diz a Marianne que tem tido sonhos estranhos, como se quisessem dizer algo que Isak não diria se estivesse acordado. Freud ficaria orgulhoso! A fotografia é um dos destaques da obra, em especial nos sonhos de Isak, que têm a luz bastante estourada para depois mergulhar numa grande escuridão. A trilha sonora é bem clássica, com o som mais agudo crescendo nos momentos de suspense; mais grave quando a tristeza e o saudosismo de Isak sobressaem.

É um filme de estrada em sua essência: a viagem que transforma o ser humano, que o confronta com o passado e o faz reavaliar suas escolhas. Também é um belo estudo de personagem e uma espécie de lição sobre as consequências das escolhas que fazemos.

Morangos Silvestres está no livro 1001 filmes para ver antes de morrer e na lista do New York Times de 1000 melhores já produzidos. Também é indicado pelo Vaticano (!!!). Foi indicado ao Oscar melhor roteiro original em 1960 e venceu o Globo de Ouro do mesmo ano na categoria Filme Estrangeiro e  Urso de Ouro de melhor filme em 1958.


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