O Mundo Perdido – Jurassic Park

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UMA ILHA MISTERIOSA QUE ABRIGA ESPÉCIES PRÉ-HISTÓRICAS. Um grupo de aventureiros passando ali o maior perrengue de suas vidas. Um inescrupuloso empreendedor que leva de lá uma criatura enorme para exibi-la em uma grande cidade americana. O caos inevitável que se segue. O Mundo Perdido pode ser a sequência do mega-sucesso Jurassic Park e tomar emprestado o nome de um clássico da literatura de fantasia (escrito por Sir Arthur Conan Doyle em 1912), mas sua essência está muito mais para King Kong.

Se Jurassic Park demorou 65 milhões de anos para ser feito, como dizia o slogan engraçadinho do cartaz, O Mundo Perdido veio ao mundo em 1997, quatro anos após o lançamento extremamente bem-sucedido do filme original. Steven Spielberg, que não é bobo nem nada, assumiu novamente a direção, descansado da pausa sabática que deu a si mesmo depois de dirigir no mesmo ano (1993) não apenas a maior bilheteria de todos os tempos até então, mas também A Lista de Schindler, que fez a rapa no Oscar e saiu com Melhor Filme, Melhor Diretor e outras cinco estatuetas.

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A trama de O Mundo Perdido se passa quatro anos depois do fracasso do parque criado pelo zilionário John Hammond (Richard Attenborough, que só aparece rapidinho pra marcar presença), quando descobrimos que os dinossauros eram gerados numa outra ilha – o chamado Sítio B – antes de serem transportados para a ilha do parque. Quando seu sobrinho megalomaníaco (Arliss Howard, o Soldado Cowboy de Nascido Para Matar) resolve ganhar uns trocados com a exótica fauna local, Hammond chama um dos cientistas do primeiro filme para impedir os planos maléficos do cara e salvar a pátria.

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Entre as novas adições do elenco, temos a sardenta Julianne Moore como uma paleontóloga sem medo do perigo; Vince Vaughn assumindo a vaga de coadjuvante piadista; Vanessa Lee Chester substituindo a dupla Lex & Tim na função de criança-que-só-serve-pra-se-meter-em-encrenca-mas-salva-o-dia-com-uma-habilidade-vagamente-mencionada-no-início-do-filme (a computação no primeiro filme, a ginástica olímpica neste aqui); Pete Postlethwaite como o caçador que já caçou de tudo e agora quer uma cabeça de T-Rex na parede da sala; e um bando de aventureiros insolentes que estão ali para morrerem de maneiras variadas e cruéis.

Mas o cientista que retorna nessa sequência ao ser chamado pelo velho Hammond não é nem Alan Grant (Sam Neill) nem Ellie Sattler (Laura Dern), cujos nomes sequer são citados em O Mundo Perdido. Quem está de volta é Jeff Goldblum como o sarcástico Ian Malcolm, que de alívio cômico foi alçado à condição de protagonista. Goldblum segura bem as pontas, interpretando um Malcolm mais amadurecido depois dos acontecimentos do primeiro filme. Só me incomoda um pouco que o matemático pouco toque na questão do caos ou de outras teorias que marcavam o personagem. Não só isso, mas toda aquela discussão sobre os limites éticos da ciência, tão recorrente e importante no primeiro filme, é praticamente deixada de lado aqui. O que Mundo Perdido tem em comum com King Kong não são apenas os vários pontos da trama citados no primeiro parágrafo, mas seu espírito, mais aventura e menos sci-fi.

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Pelo menos de aventura e suspense não dá pra reclamar. O Mundo Perdido traz cenas que rivalizam com os melhores momentos do primeiro, como a longa sequência que envolve um trailer em queda e o ataque dos velociraptors na mata, abrindo trilhas no gramado e jantando os humanos que ousaram invadir seu habitat. Como de praxe numa sequência spielberguiana, tudo é maior em número e escala. Em vez de apenas um T-Rex, temos a Família Dinossauro inteira, com direito a um tiranossauro-bebê do tamanho de um dogue alemão. Se antes o tricerátops só era visto doente e esmorecido, agora o bicho corre e dá chifradas. E várias novas espécies fazem sua estreia, incluindo o estegossauro (aquele com Doritos gigantes nas costas), os bonitinhos-mas-ordinários procompsognatos e os cabeceadores paquicefalossauros. Os efeitos digitais, quatro anos mais maduros, fazem o dever de casa e ainda funcionam muito bem, especialmente nas cenas noturnas.

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O Mundo Perdido não transcorre sem defeitos. Como fã do primeiro desde pequeno, sinto falta daquela aura de deslumbramento que permeava a obra, e o único momento em que experimentamos isso é na primeira aparição dos estegossauros – sensação que Ian Malcolm logo se encarrega de dissipar (“Oooh, aaah, começa sempre assim. Depois é só correria e gritaria”). Também não vejo muito sentido na mudança de John Hammond, que de capitalista inveterado virou quase ativista do Greenpeace. Mas o final – que coloca o T-Rex na cidade e é geralmente criticado por estender o filme além da conta – não me desagrada. Acho uma guinada interessante, que sim, meio que “desperdiça” uma ideia que poderia ser melhor explorada na terceira parte, mas não prejudica o ritmo do filme como tantos consideram. É curioso notar que, um ano depois, tivemos outro filme de criatura gigante à solta na cidade – o execrado Godzilla com o Matthew Broderick – e só a cena do T-Rex com a casinha de cachorro na boca em O Mundo Perdido já é melhor que Godzilla inteiro. É a diferença de um Steven Spielberg para um Roland Emmerich.

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Jurassic Park tornou-se uma trilogia em 2001, quando o Jurassic Park III de Joe Johnston chegou aos cinemas, e finalmente ganhará uma tão adiada quarta parte em 2015, com o lançamento de Jurassic World. Para se preparar para mais uma dose de ooohs, aaahs, correrias e gritarias, vale a pena rever este subestimado O Mundo Perdido.

Título original: The Lost World: Jurassic Park
Direção: Steven Spielberg
Roteiro: David Koepp, baseado em romance de Michael Crichton
Elenco: Jeff Goldblum, Julianne Moore, Pete Postlethwaite, Arliss Howard, Richard Attenborough, Vince Vaughn, Vanessa Lee Chester, Tyrannosaurus rex, Velociraptor mongoliensis, Compsognathus longipes, Parasaurolophus walkeri, Pachycephalosaurus wyomingensis, Stegosaurus armatus e Triceratops horridus.
Lançamento: 1997
Nota:[tresemeia]

Lucas Paio

Lucas Paio é mineiro de Belo Horizonte, passou quatro anos na China e desde 2013 vive em Berlim, onde passa o tempo livre no cinema (os poucos que exibem filmes sem dublagem em alemão) e conhecendo a cerveja, digo, a cultura local.