Não Estou Lá

O QUE CATE BLANCHETT, HEATH LEDGER, Richard Gere, Christian Bale, Ben Whishaw e Marcus Carl Franklin têm em comum? Todos interpretaram Bob Dylan. Levando em consideração o grupo bastante heterogêneo – que inclui aí um menino negro e uma mulher -, é ainda mais surpreendente o fato de o terem feito em um mesmo filme.

Em Não Estou Lá, Ledger é Robbie Clark, ator de cinema; Bale é Jack Rollings, cantor de folk; Gere é Billy the Kid; Blanchett é Jude Quinn, cantor controverso de rock; Whishaw é Arthur Rimbaud, o poeta, e Franklin é Woody Guthrie. Nenhum deles é Bob Dylan, e, ao mesmo tempo, todos são personas que o trovador incorporou – consciente ou inconscientemente.

Essas facetas se encontram para dar forma ao quinto filme do diretor Todd Haynes (Velvet Goldmine, Longe do Paraíso). Haynes busca um feito no mínimo ousado: dissecar, em seis personagens diferentes, quem é Bob Dylan.

Ele não foi o primeiro a tentar. Livros e documentários foram feitos sobre o garoto que era um cantor de folk e queria ser Guthrie, mas se tornou um dos homens que mudaram o rock. Ao longo dessa trajetória, Dylan foi tantos – propositalmente ou forçadamente – que é difícil compreender quem é o homem que representou a voz de uma geração negando todos os rótulos que lhe eram impostos.

Inevitavelmente, esse mistério dá o tom do longa de Todd Haynes. Todos os personagens incorporam características distintas da personalidade de Dylan: o ator (ele participou de Pat Garret e Billy The Kid ao lado de Kris Kristofferson, narrador de Não Estou Lá – do filme de Sam Peckinpah, também fez a trilha sonora), o cristão convertido, o marido, o astro, o menino inocente que sai de casa guiado apenas por seus versos, o ativista, o escritor.

Esse universo é completo pelos personagens secundários – Albert Grossman, o polêmico ex-empresário do cantor; Pete Seeger, cantor de folk; sua ex-namorada Suze Rotolo e a ex-esposa Sara, mescladas na personagem de Charlotte Gainsbourg; a antiga parceira Joan Baez (Julianne Moore) e até o poeta Allen Ginsberg e os Beatles.

Todas essas confusas histórias e malhas de personagens são costuradas por um diálogo certeiro – fruto de boa pesquisa por entrevistas do personagem principal e construídas com a ajuda da competência do time de atores que o interpretam (destaque aí para a sempre ótima Blanchett). O roteiro de Haynes e Oren Moverman inclui, aqui e ali, versos famosos das canções de Dylan – entre eles, “how does it feel?” (de Like a Rolling Stone), “Just like a woman” e “a pawn in their game”.

A trilha sonora é um espetáculo à parte. A música e a poesia impecáveis do cantor ganham novas interpretações. Stephen Malkmus está em Ballad of a Thin Man e Maggie’s Farm, Eddie Vedder canta All Along the Watchtower e a canção do título até ganhou um cover do Sonic Youth. Entretanto, a voz de Dylan é marcante, talvez por ser a única parte real dele presente no filme.

Episódios importantes de sua vida permeiam toda a trama – muitos deles são reconstruídos com base em imagens já bastante conhecidas do cantor. Certamente quem assistiu ao documentário de Martin Scorsese, No Direction Home, reconhecerá algumas delas (outro documentário, Don’t Look Back, um registro de uma turnê feito por D. A. Pennebaker, claramente foi objeto de estudo do realizador). A primeira apresentação no Festival de Folk de Newport, o retorno com a banda e sua Fender Stratocaster, o show no Manchester Free Trade Hall durante sua excursão pela Inglaterra em 1966 em que foi chamado de Judas por ter trocado o violão pela guitarra, o acidente de moto… está tudo lá.

São estes eventos mais conhecidos que garantem a conexão do público com a história contada. Vez ou outra, ela divaga para seguir as desventuras do garoto negro que atravessa o sul dos Estados Unidos em trens de carga ou reflexões do jovem Rimbaud, poeta com o qual Dylan sempre foi identificado.

Por isso, quem não está ao menos familiarizado com a história do cantor pode ter a impressão de que Não Estou Lá se resume a uma colagem de histórias que pouco têm em comum. No entanto, é bem possível que essa fosse a única maneira de retratar uma personalidade tão rica e versátil. Vale reconhecer o esforço de Haynes em tentar (mesmo que nem sempre da melhor forma) mudar a estrutura já batida das cinebiografias.

E, embora todos os personagens sejam um só, pode ser que nenhum deles seja Bob Dylan. Aliás, o único que sabe quem de fato é Bob Dylan é Robert Zimmerman, que o criou exatamente assim, contraditório. Esse caos fica evidente em Não Estou Lá. O lado bom dessa história é que cada um pode criar para si a versão que quiser de um dos personagens mais interessantes que a vida real deu ao cinema. A resposta, meu amigo, está soprando no vento.

Título original: I’m Not There
Direção: Todd Haynes
Produção: Steven Soderbergh, John Goldwyn
Roteiro: Todd Haynes, Oren Moverman
Elenco: Heath Ledger, Christian Bale, Cate Blanchett, Ben Whishaw, Richard Gere, Marcus Carl Franklin, Michelle Williams, Charlotte Gainsbourg
Lançamento: 2007
Nota:

Nathália Pandeló

Jornalista, diretora de conteúdo na Build Up Media e amante de música, cinema, literatura e TV.