Cinema por quem entende mais de mesa de bar

Não morra antes de assistir: Jogo de Cena

De Eduardo Coutinho. Com Marília Pêra, Fernanda Torres, Andréa Beltrão, Mary Sheyla.

“CONVITE:

- Advertisement -

Se você é mulher com mais de 18 anos, moradora do Rio de Janeiro, tem histórias pra contar e quer participar de um teste para um filme documentário, procure-nos.”

Que tipo de mulher responderia a este anúncio? Todos temos histórias a contar, mas Eduardo Coutinho escolheu apenas sete para integrar o documentário Jogo de Cena. Mais que um documentário, pode-se dizer que o filme é um estudo sobre a arte de atuar. Pois cada uma dessas histórias seria encenada por uma atriz diferente. Entre elas Andréa Beltrão, Marília Pêra e Fernanda Torres. Coutinho leva o registro do real (função do documentário por excelência) a um outro nível: aquele que questiona os mecanismos da atuação,específicos de cada ator ou atriz e sua finalidade. Uma atuação crível é uma atuação mimética? O que mais emociona/comove/toca o espectador? A história real, contada por quem a viveu, ou a visão do ator, que lança mão de técnicas específicas para encená-la?

Há sempre uma dúvida sobre o que se está assistindo: atuação, depoimento, ou depoimentos pessoais das atrizes. Tão diferentes quanto quem as conta, as histórias têm em comum seu caráter marcante, forte. Experiências que, sabe-se lá por que, tem que ser contadas. Uma jovem mãe engravida de seu segundo filho: Victor. Uma gravidez tranqüila, planos para o futuro da criança e a expectativa para receber uma nova vida. Um pequeno detalhe, com grandes conseqüências, faz com que o bebê nasça com sérias complicações e que não sobreviva. Se a mãe conta isso com a tranqüilidade de quem já se conformou com o fato pensando na possibilidade de uma vida difícil para uma criança com deficiências (ajudada por sua crença no espiritismo), isso não é transmitido pela atriz que encena o depoimento. Andréa Beltrão (uma das atrizes mais sensacionais do Brasil) se emociona, contra a sua vontade. “Sempre que ia ensaiar o texto era inevitável: o choro aparecia”, ela diz. A história é triste, trágica, mas a leitura feita por Beltrão é que realmente comove. O objetivo foi alcançado? Até quando representar uma história real significa traduzi-la fielmente?

A angústia de Fernanda Torres incomoda também o espectador, já que ela não consegue dar prosseguimento à fala. “Parece que estou mentindo (…) é como se minha fala não acompanhasse a memória da história”. Trabalhar com a falta de linearidade das lembranças que aparecem, na medida em que a história real era contada não foi tarefa fácil para a atriz. Suas dificuldades aparecem, e a fragilidade de uma atriz consagrada, também. É como se encenar (de uma forma genuína, verdadeira, vale dizer) estivesse além de recitar um texto, combinando-o com certas expressões. Construir um personagem leva o ator/atriz a criar narrativas que sustentem aquilo que é dito. Parece ser impossível não agregar experiências pessoais à interpretação, mesmo que de forma arbitrária. Como Marília Pêra encenando a história da mãe que chora quando vê Procurando Nemo já que o conflito entre pai e filho daquele filme, lembra a ruptura com sua própria filha. A emoção aparece porque para a atriz é impossível não lembrar de sua filha, da força desta ligação entre elas, e da dor que deve sentir uma mãe rejeitada. Afinal de contas cada um recebe uma história de um jeito diferente e emocionar-se ou não com ela requer um trabalho demorado.

Assim, Jogo de Cena nos faz pensar não só sobre representação, mas também na forma como as pessoas lidam com suas experiências pessoais, e sobre como o processo de criar um personagem pode ser muito mais complexo que se imagina. Será algo que se aprende? Existirão técnicas para se alcançar este caminho ou cada ator reage de uma forma diferente? E mais: o que mais comove o espectador: ficção ou realidade?

E se é apenas com o uso de um teatro vazio, frente a frente com as entrevistadas que Eduardo Coutinho nos faz pensar em tudo isto, sua direção é o ponto forte do filme, já que ele sabe lidar com o imprevisto, com as impossibilidades e emoções de uma forma muito sensível, abrindo espaço para o inesperado. E transformando-o em um filme genial, emocionante e incitante. Coisa rara no cinema brasileiro, pelo menos da forma como é feito em Jogo de Cena: sem apelar para alternativas fáceis, tendo como base apenas a idéia inicial, que a princípio pode parecer simples, mas que funciona. É um dos filmes mais fantásticos que vi nos últimos tempos. Assistam.

Comentários