Não morra antes de assistir: O Sétimo Selo

por João

(Det sjunde inseglet). De Ingmar Bergman. Com Max Von Sydow, Gunnar Björnstrand, Bengt Ekerot, Nils Poppe, Bibi Andersson

Sou um grande fã de Bergman. Sempre que assisto a seus filmes, e conheço aqueles personagens, seus problemas e histórias, é como se fosse um contato com o próprio cineasta, e com sua visão de mundo. Tão dura e realista quanto um filho de pastor luterano amante de teatro poderia ter. Isto já deixei claro no meu post sobre Persona, outra obra prima sua. Não há um filme que tenha sido ruim, um filme cujas atuações não sejam profundas a ponto de incomodar o espectador, cujas tomadas (no caso lindamente concebidas em preto e branco) não sejam milimetricamente pensadas para chocar e simular o contato mais próximo com aquelas pessoas: seres humanos que não sabem o que estão fazendo no mundo, ou qual o sentido dele. Bergman é um gênio.

No caso de O Sétimo Selo, filme de 1957, acompanhamos a história de Antonius Block (Max Von Sydow), cavaleiro que retorna das cruzadas e se depara com sua terra natal destruída pela peste negra. Chocado com o que viu, e com tudo aquilo que o ser humano é capaz, quando se defronta com essa realidade, tem a sua própria fé abalada. Durante este retorno para casa, Block depara-se com a morte, que veio buscá-lo. Para adiar um pouco o derradeiro momento, pelo menos até que encontre as respostas que precisa, desafia a entidade para um jogo de Xadrez. A morte, tão prontamente aceita, já que nunca perde. Portanto a única certeza que se tem é o fim. O que fazer então?

São muitas cenas em que é Bergman que fala pela boca de Von Sydow, que confere um peso exato ao seu personagem: o fardo da descrença que aumenta cada vez mais é inevitável, e os poucos momentos de alegria e leveza, são vividos ao lado de uma trupe de artistas circences, e sua típica “falta de solenidade” perante a vida. Quando não se tem respostas, é melhor não se questionar! (Será?). Em uma dessas cenas, onde se confessa, sem saber que o ouvinte é a própria morte, seu algoz que não mede esforços afim de descobrir a estratégia do cavaleiro para o jogo, ele diz, desconsolado:

“É tão inconcebível tentar entender Deus? Por que ele se esconde em promessas e milagres que não vemos? Como podemos ter fé se não temos fé em nós mesmos? O que acontecerá com aqueles que não querem ter fé ou não tem? Por que não posso tira-lo de dentro de mim? Por que Ele vive em mim de uma forma humilhante apesar de amaldiçoá-lo e tentar tirá-lo do meu coração? Por que, apesar de ele ser uma falsa realidade eu não consigo ficar livre?( …) Quero conhecimento. Não fé ou presunção. Quero que Deus estenda as mãos para mim, que mostre Seu rosto, que fale comigo. Mas Ele fica em silêncio. Eu O chamo no escuro, mas parece que ninguém me ouve.” (…) -Agora quer morrer (lhe pergunta a morte)? -Sim. Quero. -E pelo que espera? -Pelo conhecimento. -Quer garantias? -Chame como quiser… A vida é um horror. Ninguém consegue conviver com a morte e na ignorância de tudo. Temos de imaginar como é o medo, e chamar esta imagem de Deus…”

E Bergman, tem toda a razão. Só não se sabe se estamos prontos para ouvir as verdades que ele nos fala.

Bengt Ekerot, e a emblemática cena em que a morte surge para Antonius Block: o tempo está acabando...

João

Filósofo, arte educador, amante de cinema, funk carioca e de uma boa conversa acompanhada de cerveja.