Nebraska

Your hands upon
A deadman’s gun and you’re
Looking down the sights
Your heart is worn,
And the seams are torn
And they’ve given you reason to fight

And you’re not gonna take what they’ve got to give
And you not gonna let them take your will to live
Because they’ve taken enough and you’ve given them all you can give
And luck won’t save them tonight
They’ve given you reason to fight

And all the storms you’ve been chasing
About to rain down tonight
And all the pain you’ve been facin’
About to comin’ to the light

(Ashtar ComandDead man’s gun)

 NEBRASKA
“Ele tem Alzheimer?”
“Não. Só acredita no que as pessoas dizem pra ele.”

Um velho – assim, sem eufemismo, velho mesmo – caminha por uma estrada movimentada. Cabelos desgrenhados, barba mal feita. Não se trata de desleixo, simplesmente; é pior: é abnegação. Não acredita no presente, mas, resignado, persiste num caminho frio a… aonde mesmo? Não importa: não é um lugar, mas um tempo aquilo que busca. É ao futuro que caminha, um futuro cinzento, sem muitas expectativas. Mas eis o homem ocidental em sua glória: se renunciar a seu próprio futuro, o que lhe resta?

Nebraska é uma aposta na simplicidade: trata-se de história comum sobre um homem já pela bola sete que acha que ganhou uma bela grana num golpe publicitário dessas revistas sem propósito. Quase tudo na narrativa é construído em redor desse contexto meio blasé, meio enfadonho, enquanto as expectativas dos personagens que surgem em torrente afluem a um ponto comum: um milhão de dólares – tão importantes quanto qualquer rosebud ou falcão maltês para o filme.

É a partir desse contexto que, ao mesmo tempo em que desenvolve certo tom doloroso (porque reminiscente) com o tema, o diretor Alexander Payne, já craque em pequenos dramas familiares, dá a seu cinema fortes ares de road movie. Afinal, trabalha com descoberta e interiorização (ora, quanto mais ‘para dentro do país’ é o movimento externo, mais ele representa o interno) e traz consigo todos os clichês dos filmes do gênero (a redenção, a jornada, os vilões rednecks etc.).

Por isso mesmo, sua composição em branco e preto reforça certo saudosismo ou saudade (e há algo na fotografia de Phedon Papamichael que recorda A Última Sessão de Cinema, de Peter Bogdanovich, talvez pelo romantismo explícito com que observa o interior sulista norte-americano) e, ao mesmo tempo, desfia tonalidades realistas, amargas sobre a situação e seus personagens; envelhecer, afinal, é trabalho árduo, mas vá!, até bonito.

Nebraska-Bruce-Dern

“Eu posso lhe dar um brinde. O senhor prefere um boné ou uma almofada?”

Então é fácil perceber por que Payne apostou em Bruce Dern para tão difícil tarefa: a de dosar fragilidade e carga dramática de seu protagonista Woody (nome que lembra ‘madeira’, e remete à sua resignação) para construir história tão densa. Não por menos, o ator garante ao personagem uma personalidade obstinada, que nunca soa estranha ou despropositada nas duas horas de projeção. Substancialmente, ao lado de Will Forte, seu filho mais novo, o ator cresce e compõe belo retrato dialético entre velhice e juventude, sanidade e emoção; já ao lado de June Squibb, sua esposa, garante algumas das melhores cenas da narrativa, tanto do ponto de vista dramático quanto do cômico. E, confesso, é impossível que a memória (a reminiscência novamente) não percorra o passado em busca de pessoas queridas que se assemelhem ao casal: plena catarse.

Ou seja: há mais em Nebraska do que veem os olhos.

Tudo no filme converge a uma delicadeza sensitiva, estudando a velhice com certa, digamos, crueza terna – como na construção da sequência final, em que uma pequena ação (pai e filho trocando de lugar no carro) cresce em símbolos e significância pelo subtexto. Nesse sentido, Nebraska é, sem dúvida, um estudo carinhoso sobre o que fazemos com nosso tempo; principalmente, sobre a busca (de sentido, de sensações, de um milhão de dólares, de um boné de vencedor – qualquer que seja nosso ‘MacGuffin’) que nos move. Mais uma vez, não importam as respostas; só os caminhos que buscamos como homens.

18 - Nebraska

Título original: Nebraska
Direção: Alexander Payne
Gênero: Aventura/Drama/’Road Movie’
Roteiro: Bob Nelson
Elenco: Bruce Dern, Will Forte, June Squibb
Lançamento: 2013
Nota:[quatro]

Raphael Katyara

Raphael Katyara é professor de Português, Literatura e Redação no Ridjanêro. Não surfa, mas vai à praia para ler. É nerd desde o tempo em que ser nerd significava aprender a extrair metafisicamente uma cusparada da alma.