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Crítica: O Demônio das Onze Horas (1965)

Godard mudou os rumos da história do cinema. Esta fase inicial pode ser normal e conhecida para alguns leitores se cinéfilos. Para outras, talvez não o seja. E caso você se identifique com está última opção, sugiro que não esqueça mais da primeira frase que leu: “Godard mudou os rumos da história do cinema”.

Godard é um mestre artístico que inovou em diversos aspectos técnicos e possibilitou que o cinema pudesse se renovar. Este gênio é o “filósofo da Sétima Arte”. Quando os filmes caminhavam tradicionalmente por uma estrada específica, Godard, junto com outros diretores, apostaram e empenharam-se em arquitetar uma nova linguagem fílmica que se desvinculasse dos paradigmas que, até então, faziam-se presentes. Resumidamente, foi assim que surgiu a Nouvelle Vague, um dos movimentos artísticos de maior importância para o cinema. Este breve esclarecimento é necessário pelo fato de que o filme ao qual este texto refere-se (O Demônio Das Onze Horas) é um dos retratos clássicos do referido movimento cinematográfico.

Portanto, após ou antes de assisti-lo estas informações tornam-se válidas e podem ajudar a esclarecer possíveis dúvidas, ou até a mesmo a munir intelectualmente o espectador, levando-o a ter uma compreensão mais ampla do filme.

A narrativa é centrada em dois protagonistas, chamados Pierrot (Jean-Paul Belmondo) e Marianne Renoir (Anna Karina), personagens que se conhecem após uma festa da qual Pierrot participava. Ele havia contratado Marianne como babá para cuidar seu filhos. Até conhecê-la, ele era casado. Porém, em poucas horas, após vê-la, decide deixar sua esposa e suas crianças para fugir com a jovem Marianne.

Este é desfecho ousado que formula o restante do filme. Depois deste início, os personagens aventuram-se levando uma vida sem grandes apegos com nada, e na qual envolvem-se em diversos furtos, além de cometer vários crimes. As sequência de cenas é pouco linear e quase repetitiva, sendo este fato uma experimentação proposital do diretor para tentar estabelecer uma nova maneira de se fazer cinema. Ou seja, essa sutil fuga da direção convencional e repetição de cenas não são defeitos, mas sim propostas artísticas. Além disso, outro aspecto que chama a atenção, é a intensidade pela qual o caráter psicológico dos personagens é explorado de maneira profunda, sendo que sentimentos e emoções são constantemente expostos no texto do roteiro e nas expressões dos atores, e suas falas carregam um toque poético que as torna bela, ao mesmo tempo em que afrontam o espectador por possuírem uma tonalidade filosófica.

Um fato curioso e essencial presente em O Demônio Das Onze Horas, é que no começo do filme, há um diálogo entre dois personagens, no qual um pergunta ao outro “o que é o cinema”. A resposta é a seguinte: o cinema consiste em emoção. E essa emoção possui componentes que o personagem identifica como sendo o amor, o ódio, a batalha, a violência e morte… Quanto mais o filme se desenvolve, mais explícito torna-se o fato de que Godard definiu “como cinema”, aquilo que se torna o conteúdo que estrutura o próprio longa. Portanto, cada um dos itens acima citados como elementos essências para desencadear e a emoção (objeto final) que define o cinema, são evidentemente inseridos e percebidos no decorrer da história. Unidos, estes aspectos proporcionam um clima  niihilista ao filme, pois o estado espiritual dos personagens é de notável desinteresse para que a realidade que encontra-se ao redor deles. Há certa descrença e certa indiferença para com a rotina. Possivelmente, é exatamente esse estado de consciência que os moveu a lançarem-se pela estrada de maneira tão vívida é livre. Como consequência dessa liberdade, suas vidas se tornam perigosamente arriscadas, embora ambos pareçam estar conscientes do perigo.
Este longa é um desmanche ao classicismo (enjoativo) do cinema da época. O Demônio Das Onze Horas é um exemplo ousado de liberdade artística, imaginativa e formal, e isso o faz ser uma belíssima mistura de um “drama-policial reflexivo” com um enquadramento de um “Road Movie rebelde e sem regras”.

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