O Grande Hotel Budapeste

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O CINEMA É UMA ARTE DE MÚLTIPLAS ARTES. Esta é uma máxima eloquente, confrontante à excessiva comercialização da sétima Arte, e, sobretudo, a lembrança contra-argumentativa à desvalorização desta em meio às outras – talvez, até uma consequência, afinal, as outras artes sentem-se exploradas ao verem-se tão bem englobadas por uma mesma. O Cinema de Wes Anderson, então, explora esta máxima de maneira fascinante e literal. É o traço literário em seus movimentos mais surrealistas, é o exagero teatral, é a ultra-plasticidade visual. Uma reunião, nem sempre equilibrada, e talvez por isso mesmo, sempre encantadora.

Esta mescla é evidenciada neste O Grande Hotel Budapeste, onde infiltra-se em cada ponto de sua trama, caracterizada por uma notável variedade de personagens e peculiaridades em suas atitudes. Desta trama, o centro é Gustave (Ralph Fiennes, de 007 – Operação Skyfall), o perfeccionista gerente (por assim dizer) do luxuoso hotel do título, e que, neste momento, concentra-se, além de na administração do estabelecimento – o que inclui a satisfação mais plena de suas hóspedes mais velhas, ricas e inseguras -, no treinamento do novo mensageiro – e seu consequente cúmplice -, o confiável Zero (o estreante Tony Revolori). O texto de Anderson – baseado na obra literária de Stefan Zweig, diga-se – constrói, em torno do protagonista, uma admirável camada de detalhismo. Em cada uma das frases soltas pelo personagem, há uma burocracia que chega a ser cômica. É um sujeito tomado pela necessidade de sua profissão, a qual deve ser coordenada com nobreza e organização, e assim ele faz, em todas as suas atitudes. Ainda que seja levado a realizar ações reprováveis, Gustave sempre as realiza com uma motivação nobre; quando precisa destratar alguém, o realiza com os adjetivos menos estúpidos possíveis. É a válvula do roteiro para que o espectador não crie uma antipatia pelo protagonista por este realizar algo moralmente reprovável, mas somente admirá-lo mais pela justificativa e maneira como o mesmo age.

Claro, esta trama de corrupção moral não poderia basear-se simplesmente na rotina do personagem no hotel, abrangendo, então, um conflito ocasionado pelo falecimento de uma de suas clientes mais especiais, Madame D. (uma irreconhecível Tilda Swinton, do encantador Moonrise Kingdom), que deixou, em sua herança, um cobiçado quadro para Gustave, o que é imediatamente contestado pelo ganancioso filho da falecida, Dmitri (Adrien Brody, do divertido Viagem a Darjeeling). Em nome do inestimável afeto que sempre sentiu pela senhora, ele decide roubar o quadro, sendo imediatamente perseguido pela polícia comandada pelo oficial Henckels (Edward Norton, de Moonrise Kingdom) – este, um conhecido filho de outra de suas clientes especiais – pelo crime. Gustave passa a ser perseguido não apenas pela polícia – inclusive experimentando uma passagem pela prisão, e posteriormente fugindo da mesma -, como, ainda mais, pela família da falecida, representada pelo perigoso Jopling (Willem Dafoe, de Ninfomaníaca: Volume II). Em tantas necessidades de fuga e mudanças de atitudes vividas pelo personagem, dois de seus princípios jamais são esquecidos: a parceria com Zero e o amor por Madame D., motivação para o crime. (E eu deveria citar, também, o uso de muito perfume.)

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Bem como realizado no fantástico Os Excêntricos Tenenbaums, este projeto também é narrado como um livro, a partir dos relatos de Mr.Moustafa (F.Murray Abraham, da série Louie) – um aparente envelhecido Zero -, para o escritor vivido por Jude Law (de A Recompensa). Esta, no entanto, não é a única característica da produção que remete aos outros títulos da filmografia de Anderson. Como de praxe, o cineasta é um autor, fazendo presente todo o seu estilo narrativo, visual e linguagem característica. Os planos frontais fixos – contra-plongês, quase -, enquadrando suas personagens, cenários e locações de maneira encarativa – com a presença da trilha sonora da Alexandre Desplat (ah, como é bom voltar a elogiá-lo, após três trabalhos fracos) -, engrandecendo-as caricaturalmente, são constantes e sempre interessantes. Toda a ficcionalidade teatral que cerca seu texto de construção de personagens parece ter ainda crescido, para figuras como Jopling e o próprio Gustave.

A granulação e colorações expressivas por trás destes citados planos são outra marca do longa. A direção de fotografia, assinada por Robert D.Yeoman (de Moonrise Kingdom), aliada ao design de produção, comandado por Stephan O.Gessler (em mais um ótimo trabalho, após A Viagem), garantem o deslumbre visual nos panos de fundo. Não que este deslumbre seja gratuito, claro. A grande presença de colorações e detalhes em cena, por exemplo, é hábil para denotar uma situação em que Gustave está no controle – não diretamente ele, como qualquer personagem aliado aos seus planos -, enquanto o sucinto escurecimento da fotografia e diminuição da quantidade de objetos em cena. Quanto ao estilo adotado e plasticidade do longa, não há ressalvas para o trabalho realizado aqui. Temos uma obra visualmente admirável.

Ainda assim, existe algo que não me aproximou de O Grande Hotel Budapeste como fez com Três é Demais, Os Excêntricos Tenenbaums e Moonrise Kingdom, por exemplo. Talvez, neste trabalho, o equilíbrio procurado por Wes entre forma e conteúdo não tenha sido atingido de forma tão efetiva. Em certos momentos da trama, sente-se a queda na inventividade, a busca por soluções rápidas – como o próprio desfecho, surgido de uma solução apressada e problemática, por exemplo -, até mesmo a aparição de personagens que povoam-na exageradamente, e que acabam por desvalorizar um pouco a obra. Não que isto diminua, de maneira alguma, sua capacidade da construção de certas interpretações narrativas.

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A trajetória construída em torno do personagem principal é extremamente encantadora, e opta inteligentemente por revelar aos poucos o modo como a nobreza e bondade oferecidas por Gustave influenciam diretamente na sortuda continuidade de seu causo. Enquanto figuras de mau caráter como Dmitri e Jopling caem em trevas, após um determinado sucesso, nos múltiplos acasos da trama, o protagonista envolve-se numa série de problemas, e acaba posteriormente beneficiado, sobretudo graças à ajuda daqueles de quem conquistou a confiança – em especial Zero, Henckels e a sociedade de Ivan (o sempre sensacional Bill Murray, de Caçadores de Obras-Primas) -, porém. É uma espécie de recompensa posterior por seus bons princípios – mas não se engane, não existe a sugestão de uma moral cristã -, como causa e consequência.

Aos mais aficionados pelo cineasta – e incluo-me fervorosamente neste grupo -, também surge a possibilidade de Gustave refletir a personalidade do próprio. Sua preocupação admirável com cada detalhe, peculiaridade na realização de cada atitude, e envolvimento com figuras tão fascinantes, pode espelhar-se, logo, na postura artística de Anderson, por toda a sua obra. É Arte, e Arte reflete o artista.

Como numa recapitulação, percebe-se como os percalços enfrentados por O Grande Hotel Budapeste localizam-se, justamente, no desenvolvimento de sua trama. De certa forma, eles podem passar, numa experiência, recompensados pela linguagem e fascínio visual provocado pela obra – não que eles devam ser esquecidos, de maneira alguma. Logo, a fita não funcionaria apenas como narração, como trama, por mais interessantes que sejam suas personagens; ela precisa da forma, dos recursos integrais da construção de uma narrativa cinematográfica. Ela é Cinema. Um reforço à grandiosidade e abrangência desta Arte.

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O Grande Hotel Budapeste

caipirinhas: [tresemeia]

Leonardo Lopes

Eu já sabia que ia terminar assim. Estudante de Jornalismo (FAAP-SP). Tenho o Cinema e a comunicação como grandes (únicas?) paixões. Marxista e pessimista. Saudosista e louco.
Colunista do Cinema de Buteco e membro da Sociedade Brasileira de Blogueiros Cinéfilos.