Crítica: O Lobo de Wall Street, de Martin Scorsese
Comédia Críticas de filmes

O Lobo de Wall Street

O Cinema de Buteco avisa: aprecie a crítica com moderação. Contem spoilers de Os Bons Companheiros.

o-lobo-de-wall-street-anao-600x248 O Lobo de Wall Street

PODEMOS DIZER QUE O LOBO DE WALL STREET É UM DOS PONTOS MAIS CURIOSOS DA CARREIRA DE MARTIN SCORSESE, um tiozinho monocelha que já passou dos 70 anos de idade, mas demonstra uma jovialidade inesperada para direcionar Leonardo DiCaprio e o restante do elenco do filme mais politicamente incorreto que já dirigiu ao longo de sua vitoriosa carreira.

O roteiro de Terence Winter (das séries The Sopranos e Boardwalk Empire) é inspirado na autobiografia do próprio Jordan Belfort, um homem ambicioso que enriqueceu fazendo negócios ilegais no mercado financeiro norte-americano e ficou conhecido como o Lobo de Wall Street. A trama aborda exatamente como Jordan ficou rico e todos os seus excessos, como o vício em cocaína, vaginas, e acima de tudo, dinheiro. A religião, tema recorrente de Scorsese, pode ser enxergada na importância que o lobista adquire diante seus seguidores. Jordan vira um verdadeiro pastor, mas substitui a fé pelas notas verdinhas da alegria. O Pastor de Wall Street. Oh, fuck.

o-lobo-de-wall-street-anao-600x248 O Lobo de Wall Street

Em sua quinta colaboração com o nosso monocelha favorito, Leonardo DiCaprio mostra todo o seu talento e nos surpreende com um inesperado senso de humor físico, como fica explícito na hilária sequência em que ele fica dopado dentro de um hotel e precisa voltar para casa. No entanto, fora essa surpresa, ele não faz nada que já não houvesse feito anteriormente – e até com mais qualidade. Se DiCaprio mantém o seu alto nível sem apresentar nada inédito, quem rouba a cena de verdade é o ex-gordinho Jonah Hill. Depois de ser ignorado pelo seu melhor filme (Superbad, óbvio), ele passou a ser queridinho da Academia, que tenta recompensar a mancada em todas as oportunidades possíveis. No entanto, a verdade é que Hill arrebenta como o sócio maluco e preso dentro do armário. O ator é mais familiarizado com o tipo de humor físico que O Lobo de Wall Street pede, mas ainda assim é muito surpreendente (e engraçado) relembrar o momento em que ele decide se masturbar publicamente.

Dentre as inúmeras participações especiais no elenco, Matthew McConaughey se destaca. Por coincidência, o ator é um dos adversários de DiCaprio na disputa pelo Oscar de Melhor Ator em 2014. Ainda que seu personagem apareça por poucos minutos, ele desempenha um papel fundamental como o Mestre Yoda de Jordan. Depois de um diálogo bizarro durante um almoço (que envolveu perguntas sobre masturbação, cocaína e até um cantigo tribal de chamar a chuva), McConaughey moldou a cabeça ambiciosa de Jordan para sempre. Não seria uma surpresa se o ator tivesse recebido uma indicação para algum prêmio por seus breves (mas preciosos) minutos em cena.

o-lobo-de-wall-street-anao-600x248 O Lobo de Wall Street

Um detalhe que não pode ser ignorado é que O Lobo de Wall Street, além de ser parte mais engraçada da filmografia de Scorsese (que já havia feito uma comédia na década de 1980, com Depois de Horas), possui a cena mais provocante que o diretor já filmou. A estonteante Margot Robbie (Questão de Tempo) interpreta a esposa de DiCaprio, e depois de uma briga, faz questão de iniciar uma greve de sexo e deixar o marido maluco. Enquanto o espectador masculino, e acho que feminino também, se sente vítima de uma manipulação bem arquitetada, o roteiro nos surpreende com uma inversão que arrebenta a cena. Sensacional.

O Lobo de Wall Street ficou famoso por diversas polêmicas, que praticamente roubaram o foco do trabalho de Scorsese. Fizeram questão de dar importância para o uso indiscriminado da palavra “fuck”, e depois começaram a alegar que Scorsese fazia apologia às drogas e glorificava o comportamento ilegal de seus protagonistas. Certamente, o diretor transforma os estelionatários em “heróis”, mas se trata de um filme que não toma partido de lado nenhum. Na época de lançamento de Os Bons Companheiros, ele provavelmente enfrentou as mesmas críticas. Aliás, é curioso observar semelhanças entre as duas produções. Ambas são baseadas em histórias verídicas, com o protagonista agindo como informante do FBI, e como disse o crítico Pablo Villaça (Cinema em Cena), O Lobo de Wall Street é 180 minutos daquela piração paranóica do personagem de Ray Liotta no finalzinho de Os Bons Companheiros.

o-lobo-de-wall-street-anao-600x248 O Lobo de Wall Street

Polêmicas a parte, não é segredo que Scorsese tem história com o consumo de pó. E um dos méritos de O Lobo de Wall Street é acertar em cheio na maneira de retratar a euforia louca que domina os usuários da droga. O que assistimos são viciados funcionais, que vez ou outra exageram e acabam estragando tudo, mas na maior parte das cenas, o consumo da droga é estimulado como o combustível necessário para eles conseguirem dar conta da pressão do trabalho. Scorsese torna o excesso em motivo para arrancar gargalhadas dos espectadores. Existe uma atmosfera sedutora nesse universo regado a sexo, drogas e dinheiro, e muitos negam isso apenas por pura hipocrisia. O que assistimos na tela, por baixo de toda a loucura imoral, é a vida de um homem que soube curtir a sua vida adoidado, e ainda por cima era um verdadeiro gênio na arte de trabalhar com dinheiro e vender.

O Lobo de Wall Street é uma comédia hilária (com Foo Fighters na trilha sonora!!!) e cujos 180 minutos passam rapidamente, especialmente durante a etapa inicial, quando as coisas ainda estão acontecendo e o FBI não começou a entrar em ação de verdade. Scorsese acerta mais uma vez, ainda que o filme esteja bem abaixo de seus trabalhos mais recentes, mas é como dizem: Um Scorsese médio é melhor que a maioria das produções em cartaz. Divirta-se sem moderação ou vergonha de rir das piadas grosseiras e das loucuras acontecidas na empresa que todo mundo gostaria de trabalhar um dia.

o-lobo-de-wall-street-anao-600x248 O Lobo de Wall Street

Título original: The Wolf of Wall Street
Direção: Martin Scorsese
Gênero: Comédia
Roteiro: Terence Winter
Elenco: Leonardo DiCaprio, Jonah Hill, Margot Robbie , Kyle Chandler, Jean Dujardin
Lançamento: 24/01/2014
Nota:[tresemeia]

Tullio Dias

Dizem que sou legal, mas eles estão mentindo só para me agradar. Gosto de Molejo, acho Era Uma Vez no Oeste uma obra-prima, prefiro baixo de quatro cordas do que os de cinco, tenho um MBA de MKT Digital e um curso de Publicidade, não tenho filhos, não tenho um coração, mas me derreto por caipirinhas.