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O Palhaço

 O Cinema de Buteco não indica a leitura desse artigo para aqueles que ainda não assistiram ao filme. 

PAULO JOSE E SELTON MELLO O PALHAÇO

ANTES DE IR PARA O CINEMA ASSISTIR O PALHAÇO, NOVO FILME DO AGORA DIRETOR SELTON MELLO, tinha na cabeça a lembrança constante da música “O Palhaço do Circo Sem Futuro”, da finada banda Cordel do Fogo Encantado. Os versos da introdução contam a história de um filho ingrato e que não aceita bem a profissão do pai, até que o velho entra no leito de morte e ele muda de ideia: “Pai, me ensina a ser palhaço. Pai, me ensina a ser palhaço. Pai, me ensina a ser palhaço” e então ouviu a fria e amargurada resposta: “Isso não se ensina, seu bosta”. A música não tem nenhuma relação direta com o novo longa-metragem de Mello, mas certamente faz sentido se for comparada com a trajetória dos personagens da produção.

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Ainda não sei ao certo o que dizer sobre O Palhaço. Afinal, seria mesmo um filme sobre o conformismo, de jeito que ouvi a amiga Priscila Armani comentando? Ou será apenas mais uma história de busca de nosso eu interior e daquilo que nos completa como pessoas? Concordo com as duas afirmações, embora consiga criar ressalvas para ambas.

Escrito, dirigido e estrelado por um dos principais atores do cinema nacional, O Palhaço narra as desventuras de Benjamin (Mello) em busca de um sentido em seu dia a dia como o palhaço Pangaré, filho do líder de um circo itinerante que roda pelo interior de Minas Gerais. Visivelmente infeliz desde o começo da narração, e com uma estranha obsessão por ventiladores, Benjamin é obrigado a conviver com uma rotina que o irrita e entedia, assim como acontece com a maioria do povo brasileiro. Até que ele resolve arriscar seguir um outro caminho e descobrir qual é o seu papel no mundo.

Embora tenha uma história simples e sem muitas guinadas, a comédia empolga por justamente mostrar que existe uma luz no fim do túnel para as produções que buscam o riso do espectador. Com um humor que alia inteligência e besteirol, O Palhaço faz sucesso onde tantos outros filmes fracassaram. As risadas são genuínas, naturais. Mello cria uma atmosfera sóbria e envolvente, onde a referência explícita ao gênio Charles Chaplin conduz todo o caminho para alegrar o público.

O conformismo como moral da história, não é de todo ruim. Engraçado conseguir ver o ponto positivo em se conformar com alguma coisa, quando nós sempre temos o hábito de criticar os acomodados. Após tentar fugir de seu destino, Benjamin tem uma desilusão amorosa hilária e ainda arruma um emprego medíocre, onde acaba percebendo o seu verdadeiro lugar e retoma seu lugar ao lado do pai (Paulo José) em uma cena emocionante. Fica a dúvida: será que Benjamin aceitou que “nasceu para ser palhaço” e que não faria nada melhor da vida ou simplesmente percebeu que nada o faria mais feliz? Que o que faltava de verdade era apenas a companhia de um ventilador de mão? O filme não deixa margem para muitas dúvidas, no final das contas.

Um dos grandes destaques do cinema nacional na temporada, O Palhaço merece toda a atenção que vem recebendo. Pode até não ser impecável, mas o timing perfeito do elenco e a condução afiada do trabalho do diretor e roteirista deixa tudo perfeito para servir como entretenimento que nos faz rir e refletir. Prestem atenção na trilha sonora, com o melhor das canções bregas e para a cena em que o grupo de artistas está reunido num bar tomando cerveja Brahma, numa clara (e óbvia) homenagem ao Cinema de Buteco. Ou será que só a gente percebeu isso dessa maneira? Brincadeiras a parte, O Palhaço cumpre o seu papel de forma eficaz e mostra uma faceta dos artistas circenses que é exatamente  igual (ou pior) a todos os clichês que estamos acostumados a ouvir.

Direção: Selton Mello
Roteiro: Selton Mello
Elenco: Selton Mello, Paulo José

Nota:

 

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