Crítica: O Pianista, de Roman Polanski
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O Pianista

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METHOD ACTOR: O QUE É? Existem vários métodos de atuação. Quando se fala de adeptos ao método hoje em dia, normalmente nos referimos aos ensinamentos pregados no Actors Studio em Nova Iorque. Derivado do sistema desenvolvido por Constantin Stanislavski e consagrado pelo ator e treinador Lee Strasberg (e tendo também como expoente o grandiosíssimo diretor Elia Kazan), consiste em criar a memória sentimental e afetiva do personagem. Atores como Robert DeNiro, Al Pacino, Dustin Hoffman, James Dean, Paul Newman, Eli Wallach, Jack Nicholson, Ellen Burstyn, Marilyn Monroe e o grande Marlon Brando utilizavam do método para construir suas performances, e um dos mais extremistas (em minha muito leiga opinião) é Daniel Day-Lewis, que se isola do convívio social por completo (inclusive da família) durante meses para viver como o personagem. No set ou no palco, ele deixa de ser Daniel e passa a ser, por exemplo, o Açougueiro (de Gangues de Nova Iorque) ou Abraham Lincoln (do ainda não lançado Lincoln). Emagrecer, engordar, raspar a cabeça (para as mulheres) ou os dentes (para os loucos), alugar um apartamento apertado de portas pequenas para dar a sensação de “grandeza”, colocar um piercing no clitóris, se tatuar e outras atitudes extremas são exemplos de práticas executadas por atores consagrados hoje em dia, baseados no sistema de acordo com suas respectivas concepções do mesmo.

Adrien Brody é conhecido por ser um ator extremista – muitas vezes chamado bobamente da comparação “novo Robert DeNiro”. Prova disso são suas escolhas, sempre focadas no personagem. Sua entrega, assim como Day-Lewis, total ao trabalho faz com que produza poucos filmes em um longo espaço de tempo, em sua maioria independentes ou fracassos de bilheteria, mas nem sempre ruins. Na maioria das vezes, são escolhas muito inteligentes e que demonstram seu talento de forma feroz. Na minha listinha de preferidos, o deficiente mental de A Vila fica em primeiro. Logo depois vem a epopeia deprimentemente linda de Wladyslaw Szpilman em O Pianista.

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A metodologia aqui é difícil de enxergar, tamanha sua complexidade. Serenidade pode ser confundida com apatia, e nesse caso é um pecado considerar a primeira como sendo a segunda. Minuciosamente estudado, o personagem é uma mistura de pavor, tristeza, mágoa, revolta, charme e bondade. As emoções em doses homeopáticas são o retrato de um homem polonês, de um judeu europeu, de uma cultura que não prega a proximidade calorosa dos trópicos e também a reação a uma situação distópica, para não chamar de apocalíptica. As aulas de piano que Brody tomou o fazem parecer um piano virtuoso e proporcionam cenas sem corte. Nós vemos o homem tocar, de corpo inteiro, sem edição de closes nas mãos, no rosto ou no jingado do corpo. A magreza-cabide ilustra a fome ferrenha, o psicológico completamente desestruturado e traumatizado, a miséria da guerra e do espírito dos homens. Que cena mais linda, mais melancólica, quando Szpilman chora após ser salvo da morte! O pianista do filme é inspirado no real homônimo que escreveu o livro que inspirou a película… mas será que ele não é Brody?

Wladyslaw Szpilman é um pianista polonês que teve o azar de ser judeu na hora e lugar errados, como os milhões chacinados durante a II Guerra Mundial. Ao ser despejada do gueto, sua família vai com outros tantos para os trens sem saber que serão mortos nos famosos campos de concentração. Szpilman consegue fugir e então viaja a pé, enfrentando inúmeros perigos para escapar dos nazistas. Sendo assim, cai como uma luva a direção de Roman Polanski. Polaco, judeu e sobrevivente do holocausto – além de ser um talentosíssimo diretor -, Polanski saberia como ninguém misturar poesia e desgraça. Direção de arte, figurino, fotografia, trilha sonora: tudo impecável. A Cracóvia destroçada, a Varsóvia revolta de escombros, a Alemanha ora em tons pasteis, ora cinzenta. A Europa dividida por muros de tijolos, muros invisíveis. As longas tomadas… preenchidas de silêncio… Que coisa mais linda! Pintura de um gênio, sem dúvidas. Esqueça os processos, a condenação nos EUA, as loucuras da década de 60 e tudo o mais. Como meu avô dizia: a inteligência é muito próxima da loucura. Polanski não é menos gênio por ser louco. Isso faz dele um louco-gênio.

Zilhões de filmes sobre holocausto, II Guerra, Hitler, refugiados, judeus, poloneses e afins já foram lançados. O Pianista não é só mais um; tem as peculiaridades chamadas Adrien Brody e Roman Polanski. E Hollywood adora fazer destes zilhões de filmes do gênero “histórias de final feliz” – o que é um paradoxo do mais absurdo. Já O Pianista não tem final feliz; ele faz seu instrumento chorar por tudo o que a sua própria personalidade não pôde ou reprimiu, e por todos os anos de memória amargurada que ainda virão.

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Nota:

Fernanda Minucci