O Retrato de Dorian Gray

O dramaturgo Oscar Wilde criou polêmica em 1890 quando publicou um importante livro, a euforia foi tanta que ele precisou escrever cartas a jornais para seus detratores. Considerada como um texto pervertido sobre a imoralidade e sexualidade homoerótica, o livro evidenciou o falso puritanismo vitoriano da Inglaterra na fase de seu lançamento. O Retrato de Dorian Gray já foi adaptado diversas vezes, tendo uma versão mais conhecida de 1945. Contudo, esta nova adaptação — além de ter em sua essência toda a ousadia do texto quente e questionador de Wilde — consegue ser um trabalho ainda mais contundente. Este filme tem o material literário de Wilde adaptado por Toby Finlay, a direção de Oliver Parker.

Dorian Gray (Ben Barnes) é um jovem da alta sociedade que, em função de sua beleza, capta a atenção de todos. É quando se torna foco de inspiração do pintor Basil Hallward (Ben Chaplin) e tem um quadro seu pintado por ele — resultado de um esforço criativo, o retrato de Dorian surpreende ao término pela beleza, expressão e talento. O quadro intriga a todos. É possível captar toda a beleza física e expor numa pintura? Dorian fascina-se pelo trabalho, confronta-se com a beleza de seu retrato e, diante da impossibilidade de se manter jovem eternamente, promete sua alma em troca da possibilidade de juventude. Quando conhece o Lord Henry Wotton (Colin Firth), seu destino sofre a catarse — Dorian passa por um aprendizado malicioso, entrega-se a uma vida libertina e aos prazeres carnais da sexualidade desenfreada. É possível ser belo eternamente? Como viver só de sexo e do ardor da juventude que prioriza o orgasmo? À medida que as aventuras sexuais são constantes, influenciado pelo Lord, Dorian nota que seu quadro revela-se como algo perturbador – o retrato passa a receber suas marcas de envelhecimento, cicatrizes e reflexos de seus atos. Mas, ele próprio não envelhece, mantendo-se com os mesmos traços angelicais de seus 18 anos. Eis o apelo macabro proposto por Oscar Wilde, pois questiona o senso da juventude eterna, dos valores morais e da imaturidade humana.


O filme evidencia mais a perversão sexual, o senso de erotismo é evidente ao demonstrar Dorian em suas buscas sexuais — o garoto permite-se às influências de Lord Henry, transformando-se num boêmio libertino. Percorre os bordéis do submundo da sociedade para seu coito casual. Envaidecido pelo seu poder de sedução, consegue conquistar e fascinar mulheres casadas, prostitutas — há nele um prazer maior em, inclusive, transar com virginais. O seu universo é reduzido às transas sexuais que inflama seu ego fútil, na condição de um homem que alia-se da imortalidade para vivenciar todos os anseios da carne. Ao lado do cínico, dúbio e misterioso Lord Henry Wotton — a realidade de jogos de sedução, de orgias sexuais e de malícia ganha contornos na vida de Dorian. Embriagado num mundo de luxúria, ele representa o tormento de uma juventude que se firma no caos do sexo imoderado — é possível estabelecer uma vida no sexo casual? E como não envelhece, sua beleza garante os rituais orgiásticos que o satisfaz. Seu único interesse sentimental é expresso a Sibyl Vane (Rachel Hurd-Wood), uma atriz de teatro que contesta a promiscuidade de Dorian por querer firmar laços de compromisso com ele. Contudo, Dorian predestina-se à luxúria que corrói seus sensos de fidelidade, moralidade, integridade. Como o sexo pode alucinar as percepções humanas? A vaidade é uma cegueira que corrompe os seres?

O tom homoerótico é evidenciado ao colocar Dorian como foco de desejo de homens ao seu redor — inclusive, é objeto de tesão do pintor Basil que nutre por ele uma admiração, um interesse sexual evidente em diálogos sensuais. A condição de Dorian, um homem altamente sexualizado, evidencia-se também pelo gosto de relacionamentos com o mesmo sexo — além do desejo hetero, acrescenta-se a homossexualidade. O filme expõe as sutilezas que o livro de Oscar Wilde incutiu, tornando-o mais sensual em cenas de sexo ou flertes estabelecidos pelos personagens masculinos. Dorian parece intrigar sexualmente até o Lord Henry. O contexto homoerótico é nítido quando expõe o gradual interesse, excitação e envolvimento de Dorian por garotos que são inseridos em suas orgias privadas — é cruel como o personagem não se prende emocionalmente com ninguém, apenas transmuta seu apego a manipulações de suas investidas sexuais constantes. A perversão adquire contornos maiores quando Dorian busca sexo sadomasoquista, com experiências provocadas pelos seus fetiches, numa condição insana de sentir e receber prazer através do sofrimento físico – o sexo é comprometido com orgias intensas, sangue e dor.


As marcas do pecado de Dorian Gray refletidas em sua pintura corroem suas veias, é o estopim de sua loucura. Seu caráter é simbolizado no quadro horrendo distorcido — todas as feridas da alma torturada dele aparecem ali. Cicatrizes, envelhecimento, todos seus atos refletidos no retrato que se torna um assombro a sua vida. O que parecia um prazer eterno, reflete uma maldição? A pintura concebe aflição no homem que vê que a beleza não é tudo, nem mesmo o sexo desnorteado — Dorian aflige-se com seus traços perfeitos, numa vida firmada na mais banal superficialidade da existência vazia. E seu retrato exprime todas as marcas do tempo, do seu comportamento negro ao longo dos anos.

A película mantém toda a excitante essência do livro original, há cenas onde certos diálogos são bastante semelhantes à concepção de Wilde. A carga dramática adquire traços sinistros ao evidenciar o mundo degradante de Dorian, na sua crescente paranóia. Há uma impressionante fotografia gótica de Roger Pratt que emoldura o submundo da Londres da Inglaterra do século XIX, com tons cinzentos, azulados. A trilha sonora de Charlie Mole é elegante, sombria, de extremo bom gosto. O filme mostra como um indivíduo é capaz de se influenciar por outrem — a relação de Dorian com Lord Henry foi fundamentada no sendo de influenciado e influenciador, respectivamente. A inocência inicial de Dorian é desfeita quando ele absorve a malícia do mundo orgasmático social do Lord. O autor Oscar Wilde desmascara sua sociedade imersa em hipocrisia e perversões de intrigas sexuais? Um estudo sobre a dualidade da prática do mal e da autoconsciência; da sexualidade irracional de uma ilusão de beleza que nunca é eterna.

  • João

    o filme definitivamente não está à altura da obra que originou. claro que adaptação é adaptação, mas falta um pouco da sensibilidade, da naturalidade das situações. Dorian Gray, o filme força um pouco a barra e coloca o protagonista de uma forma equivocada: é claro que é uma figura sem escrúpulos, mas os questionamentos filosóficos por trás disso são fundamentados no livro. no filme não. o personagem de Colin Firth também perde boa parte da sua essência. Não é simples catalizador, é um quase condutor da história no livro original.

  • 2T

    é.

    eu quero ler o livro (comprei tem anos, mas não rolou ainda) e depois ver o filme. não sabia que o colin firth fazia parte do elenco do longa (haha, aposto que isso fez o filme ser ainda melhor para você) e aumentei a curiosidade. o problema é que trata-se de um clássico e por mais que eu saiba da trama, acho mais interessante ler o original e depois criar opiniões sobre o filme.

    existe um filme chamado PSICOPATA AMERICANO, inclusive já foi postado aqui no CdB, que é uma modernização da trama de Oscar Wilde. Não propriamente dita, claro, mas que se assemelha muito ao contexto narcisista de Dorian Gray.

    abc

Redação do Buteco

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