Crítica: O Terminal, de Steven Spielberg
Comédia Críticas de filmes Drama

O Terminal

por Priscila Armani

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STEVEN SPIELBERG É UM DIRETOR DE TRAJETÓRIA GRANDIOSA. Estamos acostumados a ver seu nome associado a grandes blockbusters, como a franquia Indiana Jones, Jurassic Park e um clássico da Segunda Guerra Mundial, A Lista de Schindler. Mas ele também se envolveu em projetos de pretensões mais modestas, sendo um deles O Terminal, de 2004. De fato chega a parecer estranho que o diretor tenha se envolvido com um filme cuja premissa promete tão pouco.

O Terminal nada mais é que a história de um cara que fica “preso” no aeroporto por mais de um ano. Apenas duas coisas tornam a história interessante: 1. Tom Hanks no auge de sua forma (algo que está ficando mais raro, infelizmente), 2. A abordagem que Spielberg escolhe dar ao problema do personagem. Há bastante violinos na trilha sonora (não precisava do John Williams), Hanks chora quando descobre que seu país está em guerra, há uma aeromoça pela qual ele se apaixona e que é uma espécie de amor impossível, ele faz amigos no aeroporto e há até mesmo um antagonista, essencial para ajudar Navorski a conseguir a nossa simpatia. Somos conquistados por todos esses mecanismos super manjados e nos colocamos no lugar do personagem: passamos fome com ele, juntamos moedinhas, criamos expectativas, nos apaixonamos junto com ele. É tudo muito clichê, mas aí é que entra o toque de Midas do diretor: a forma como tudo é executado nos faz gostar do filme.

Não tenho dúvidas que se não fosse Spielberg e o roteiro de Andrew Niccol a história seria muito mais sofrível do que é. Há muita dificuldade em vender esse argumento, mesmo que seja a um público de comédia romântica, mais disposto a ser convencido. Aeroportos são lugares muito inóspitos para se ficar meia hora, que dirá quase um ano? E a pessoa tem todas as oportunidades de sair e não sai? Se não fosse Tom Hanks, que já vimos em tantos personagens peculiares, ficaria complicado comprar esta ideia. E a tal “fresta do sistema”, que o personagem de Stanley Tucci (esse ator não cansa de ser escada para os outros? Não faz nada a não ser isso em Hollywood…) argumenta existir poderia ser facilmente suprimida logo no primeiro dia, com um pouco de boa vontade. O argumento da obra é que essa boa vontade não existiria, no caso de Navorski. Mas por que? Guerras acontecem todos os dias, golpes de Estado também. Não há protocolos internacionais para esses casos? E há hotéis em aeroportos. Acho que se fosse hoje, por uma série de motivos, esse filme sequer teria sido feito.

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Mas é um bom longa. E se você ainda não assistiu, chegamos à parte dos spoilers. Pule o resto do texto. A melhor parte, para mim, é que Viktor não fica com Amelia no final. Ainda bem que ninguém caiu na tentação de algo tão ridículo. Fica bem claro, desde o começo do filme, que os dois são diferentes demais para qualquer possibilidade de relacionamento. E não estou falando obviamente de cultura ou língua. Ambos querem coisas bem diferentes da vida. E no caso de Amelia, o que ela diz querer e o que ela, de fato, quer, são coisas bem diferentes. O papel não demanda muita profundidade, mas mesmo assim Catherine dá alguma a ele e fica óbvio que ela é viciada nessa instabilidade estável que vive, pessoal e profissional. Não é culpa dela nem é intencional. O ser humano simplesmente não é tão simples assim. Antes fosse.

E eu sou dessas “espírito de porco” que adora quando os casais não ficam juntos em comédias românticas. Por que? Porque como já dizia Vinícius de Morais: “o amor só é bom se doer”. Comédia romântica com final feliz é uma saída fácil e preguiçosa, algo inverossímil, incompatível com a realidade. Claro que há dias em que as pessoas só querem ver coisas bobas e se divertirem, sem pensar em nada. Mas as melhores comédias românticas são aquelas com um pezinho na realidade. E nada impede que um final “infeliz” seja divertido e leve. Pode, inclusive, tornar o filme mais memorável. Viktor não ficou com Amelia, mas isso foi o melhor para ambos. E o público agradece.

O Terminal consegue ser um festival de clichês e, ainda assim, se reinventar dentro disso e divertir o público, com um bom elenco, bom roteiro, boa execução. A gente nunca deve subestimar a capacidade de um diretor de talento interessado em fazer um bom filme, mesmo nos projetos mais simples.


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Nota:[tres]

O texto acima é de autoria da jornalista e crítica Priscila Armani, do site Mondo BHZ

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