Os Famosos e os Duendes da Morte | Cinema de Buteco
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Os Famosos e os Duendes da Morte

por João
De Esmir Filho. Com: Henrique Larré, Ismael Caneppele, Tuane Eggers, Samuel Reginatto, Áurea Baptista.

A imagem de uma borboleta agonizante é associada à realidade de um adolescente que recém saído do “casulo” encontra dificuldades para se adaptar ao meio onde vive. O choque entre o ambiente, retrógrado, tradicionalista, e as aspirações sonhadoras, grandes demais para sobreviverem àquele lugar. Mr. Tambourine Man e uma cidade do interior do Rio Grande do Sul: é este o cenário que é colocado por Os Famosos e os Duendes da Morte, primeiro longa metragem de Esmir Filho (aquele do Tapa na Pantera lembram?).

O tal Mr. Tambourine Man é o pseudônimo usado por um jovem (do qual nunca saberemos o nome vivido por Henrique Larré) quando escreve num blog na internet. Só ali parece encontrar espaço para se expressar, quando se entende por “expressar-se” uma necessidade que só se realiza num lugar onde se encontram pessoas com pensamentos parecidos, convergentes, onde esta expressão pode ser entendida. Vivendo num lugarejo onde as tradições colonas ainda sobrevive, este lugar só poderia ser uma realidade paralela: a internet.

É como se entre as quatro paredes de seu quarto e em frente ao computador, aquele garoto enxergasse o único vínculo com seus sonhos e pretensões, que não se limitam simplesmente ao show de seu ídolo maior Bob Dylan (Mr. Tambourine Man vem de uma letra do compositor), mas que estão ligadas a um desejo de fuga, mudança. Há um choque: dentro do seu quarto ele está mais próximo de algo que acredita ser, do mundo ao qual acredita pertencer. Quando abre a porta vê a mãe com uma rotina visivelmente triste (que envolve conversas com a cachorrinha, e lembranças de um marido que se foi) e a escola onde não há ninguém para compartilhar as ansiedades: é uma quase contradição. Resta-lhe então a opção pelo recolhimento, pela quase negação desta realidade que se coloca (pois com ela não se comunica, não se envolve). É uma auto-afirmação de si mesmo na medida em que se nega o(s) outro(s). Mr. Tambourine Man tem um comportamento depressivo, que só encontra vazão no meio virtual. De outro modo, há apenas o estranhamento, a realidade que não diz respeito àquilo que ele é – ou ao que está se tornando, já que é um adolescente ainda.

Mesmo que de forma indireta há uma comparação entre Os Famosos e os Duendes da Morte e Elephant de Gus Van Sant: ambos tratam da mesma temática, universal (ponto para Esmir Filho e sua opção por uma linguagem que em nada lembra algo caracteristicamente brasileiro) da transição da adolescência para a idade adulta. Mas aqui, há uma poética latente, tanto na escolha das imagens (belas, lentas, necessárias para traduzir a sensação de solidão e desespero em que aquele jovem está imerso), na trilha sonora e nos diálogos. Vale dizer que o filme foi baseado no livro homônimo de Ismael Caneppele que inclusive participa do filme como um misterioso personagem importante no sentido de dar um novo rumo à história: aquelas pessoas (ou seus alter-egos virtuais) com as quais Mr. Tambourine Man se relaciona na internet, podem ter histórias bem mais reais do que imaginamos – um mistério muito bem construído e que se revela de uma forma extremamente natural, dando outro significado à história, numa cena filmada com enorme delicadeza por Esmir Filho: o espectador vai se familiarizando com aquela realidade aos poucos, e se no começo tudo parecia fazer parte do imaginário do garoto, percebemos que esta opressão, esta necessidade de fuga não é particularidade dele.

Outro dado importante sobre o filme é a forma como ficção se mistura à realidade. Como o real inspira e se relaciona com a criação ficcional. É estranho ver a cena onde o garoto escreve seus posts (principalmente se você assistir ao filme no computador); e os vídeos e fotografias vistos no filme realmente existem na internet. Os atores foram selecionados a partir de suas vivências com o lugar onde o filme foi filmado e com a internet: são “pessoas reais”, o que diferencia o processo de criação dos personagens e o torna ainda mais interessante.

Uma história inteligente, forte, que revela-se aos poucos ao espectador e de uma forma nada forçada, e por isso mesmo facilmente assimilada, Os Famosos e os Duendes da Morte prova que existe vida inteligente no cinema brasileiro. Não há preconceito contra filmes deste ou daquele país aqui, mas cinema é bom mesmo quando vai além de cinema europeu, asiático ou brasileiro. Quando é apenas cinema e bem feito. Assistam.


João

Filósofo, arte educador, amante de cinema, funk carioca e de uma boa conversa acompanhada de cerveja.

Comentários

  1. Também me disseram que a estética é linda. O trailer não me atraiu muito não, mas de tanto que meu amigo me perturba pra ver esse filme, sinto que preciso vê-lo…