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Os Miseráveis

OS MISERÁVEIS É UM BELO FILME, QUE TRAZ DE VOLTA AQUELA EMPOLGAÇÃO DOS ANTIGOS MUSICAIS: grandes elencos, cenários, histórias grandiosas, músicas que emocionam e movimentos muito bem coreografados. No entanto, os méritos são distribuídos por vários membros da equipe, destacando-se elenco e direção de arte, sobrando assim muito mais erros do que acertos para Tom Hooper, o diretor.

Baseado na peça musical que por sua vez é inspirada no livro homônimo de Victor Hugo, o filme se passa na primeira metade do século XIX, em uma França pós Revolução e governo Bonaparte, marcada pela pobreza e pela iminência de novas revoluções.

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Nesse cenário, acompanhamos Jean Valjean (Hugh Jackman), um homem que passou 19 anos preso por roubar um pedaço de pão. Oito anos após conseguir sua liberdade, violar sua condicional e receber a ajuda de um bispo, ele se tornou um importante prefeito, sendo perseguido incessantemente pelo guarda Javert (Russell Crowe). Também acompanhamos Fantine (Anne Hathaway), uma funcionária sofrida que, após ser demitida da fábrica de Valjean, é obrigada a vender seu cabelo (momento Carolina Dieckmann) e se prostituir para sustentar a filha Cosette (Isabelle Allen), que vive sob os cuidados do malvado casal de estalajadeiros Thénardiers (Helena Bonham Carter e Sacha Baron Cohen). Sentindo remorsos pelo adoecimento de Fantine, Valjean decide tomar conta da menina. Nove anos se passam e Cosette cresceu (Amanda Seyfried), despertando a paixão do jovem revolucionário Marius (Eddie Redmayne), que, para conquistá-la, pede ajuda a Éponine (Samantha Barks), que o ama. E tudo isso ocorre no meio de pobreza, sofrimento e revolução. Confuso?

hugh jackman

Problema número um: ninguém pode acusar Hooper de não ser fiel à história original, mas talvez esse não fosse um bom negócio aqui, já que o livro de Hugo tem mais de mil páginas e cinco volumes, e a estrutura teatral é completamente diferente da cinematográfica. São nada menos do que oito personagens importantes e três momentos diferentes da história da França, o que faz com que não nos apeguemos a nenhuma das figuras na tela (com exceção de Fantine, exclusivamente por culpa de Hathaway), por convivermos tão pouco com suas frágeis histórias.

Além disso, as várias subtramas tornam alguns momentos do filme absurdos para quem não conhece a história original, como a invasão da casa de Valjean pelo sr. Thénardier. Talvez isso não ocorresse se houvesse boas transições entre estas várias histórias, mas Hooper faz tanta questão de cada detalhe (como Valjean procurando lugares para se hospedar até ser aceito), que a montagem do filme torna-se uma bagunça, com uma decupagem que parece ter sido preguiçosa e preocupada apenas em contar a história e cantar as músicas, e nada com a coesão.

Apesar destas falhas de transição deixarem muitas cenas desconexas, as partes musicais são marcantes e não decepcionam. Mesmo que o crédito disto vá para Claude-Michel Schönber, criador da peça e responsável pelas belíssimas canções, a produção também realizou um ótimo trabalho com as coreografias, que nos remetem aos momentos da trama de maneira impactante. Para causar este impacto e dar rosto aos “miseráveis” da França, muitascanções possuem o coro “do povo” de fundo, responsáveis por algumas das melhores sequências musicais, como “At the End of the Day”, “Lovely Ladies” e “Do You Hear the People Sing?”. Já “Suddenly”, a canção original do filme indicada ao Oscar, é tediosa e se assemelha a “Come What May”, de Moulin Rouge, de Baz Luhrmann.

Mas um bom musical precisa de pessoas que cantam bem, e nisto Hooper acerta. Com exceção de Crowe, que canta tão mal que constrange a si mesmo, as vozes são muito bem empregadas, com destaque para Jackman, Hathaway e Barks. E não é apenas isso que o elenco faz bem.

russell crowe canta mal bagarai

Hooper repete aqui o feito de O Discurso do Rei, quando ganhou o Oscar de melhor diretor por um filme apenas simpático, que perderia metade do seu mérito se não fosse o brilhante elenco. Os Miseráveis deve muito, muito mesmo, a seus atores. Com uma história bastante melodramática, os oito personagens corriam o risco de parecer cafonas ou desnecessários, se não fossem as boas atuações.

Entre as estreantes, a pequena Allen ainda é bastante limitada e não consegue nem ao menos parecer triste pela falta da mãe. No entanto, Barks demonstra que merece atenção especial, não apenas pela bela voz, mas por oferecer uma complexa dor ao dilema de Éponine.

Carter repete seu papel de Sweeney Todd, e com Cohen representa o alívio cômico que, na maioria das vezes, parece deslocado. Pelo menos o número musical da dupla é divertido. Redmayne, mesmo prejudicado por um romance breguinha e pela insossa Seyfried, sustenta Marius muito bem.

Hooper parece saber que transformar gente bonita em feia funciona para indicações ao Oscar, mas neste caso nem era necessário. Jackman oferece uma expressão cansada muito convincente ao personagem mais ambíguo da trama. Hathaway merece não apenas a indicação ao Oscar como a estatueta (que provavelmente levará), mesmo tendo somente 20 minutos de tela. Na verdade, se aparecesse apenas para cantar “I Dreamed a Dream”, com toda aquela dor que faz o espectador não querer piscar, a atriz já mereceria o prêmio. E a decisão de mostrar a primeira cena na qual ela se prostitui em silêncio (em um filme tão sonoro) é ótima.

Mas não se engane. Para cada acerto, Hooper faz algo incompetente, como tremer a câmera desnecessariamente ou manter a sua mania irritante (de O Discurso do Rei) de filmar os protagonistas em algum canto inferior e lateral da tela. Em um número musical particular, no qual Jackman anda de um lado para outro em uma capela, o diretor demonstra não ter a menor ideia do que fazer com a câmera.

No entanto, não apenas o elenco e as canções salvam o dia; a bela direção de arte e a fotografia também o fazem, com um impressionante uso de cores. Além da utilização de tons pastéis e de fundos desfocados, que se assemelham às pinturas da época em que se passa o filme e ressaltam a pobreza e sofrimento do povo, muitas cenas mesclam naturalmente o vermelho, azul e branco, as cores da bandeira da França, causando no público associações entre as cenas de batalha e o quadro “A Liberdade Guiando o Povo”, de Delacroix, por exemplo.

Ao final do longa, é provável que, além das letras das belas músicas, também fique na sua cabeça a ideia de que este tal de Tom Hooper tem mais sorte (e orçamento) do que deveria.

Nota:[tresemeia]

Leia também: Os Miseráveis, por Theo Collin

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