Crítica: Trash – A Esperança Vem do Lixo

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Em entrevistas para o lançamento no Festival do Rio, Stephen Daldry afirmou ter reunido esforços com os brasileiros escalados (elenco e equipe) para que seu filme “parecesse brasileiro”. Wagner Moura, por sua vez, lembrou que esta é uma questão mais ampla: “o cinema brasileiro avança para vários tipos de linguagem.” Disse que Daldry eliminou um “hiperrealismo” de costume, sendo este substituído pelo imaginário das fábulas. É uma predileção do diretor teatral e cineasta de Billy Elliot e Tão Forte e Tão Perto (dramas verossímeis apoiados em cenários políticos que empregam arcos dramáticos da jornada do herói anglo-saxão, através de perspectivas juvenis). Há uma contradição objetiva, por entre Moura e Daldry, que pode gerar boas discussões sobre o legado da empreitada, fruto de um intercâmbio cultural mediado pela O2 Filmes.

Durante os primeiros momentos de Trash – A Esperança Vem do Lixo, há um plano que presta notável reverência a Cidade de Deus, representante de maior projeção internacional das últimas décadas. As marcas do filme de 2002 se reproduziram em diversos projetos subsequentes da O2, mas a metodologia da produtora serviu para Trash não apenas na realização, como também na promoção e exportação, aderindo a códigos de mercado que colocaram a imagem do Brazil à frente do Brasil. Olhando as entrelinhas, é a mesma corrente que passou por Carmen Miranda e pela abertura belga da “Copa das Copas”, com modelos de merchandising mais incisivos, tão sutis quanto os das novelas da Rede Globo. Na medida em que pretendem parecer Brazil, Daldry e a O2 perdem possibilidades de ser mais Brasil, representativamente livre. Com o perdão do hiperrealismo.

Não é a toa que o fôlego e a alma do filme sejam seus protagonistas mirins, Raphael (Rickson Tevez), Gardo (Eduardo Luís) e Rato (Gabriel Weinstein). Uma sábia escolha da produção foi iniciar a adaptação do livro de Andy Mulligan na busca pelos meninos que viveriam estes personagens. É deles o Brasil com “s” que Trash oferece – e que transcende as estratégias mainstream. A espontaneidade no jeito brasuca de brincar, da rua, é de uma universalidade encantadora, por ser expansivo e, ao mesmo tempo, conter em si artimanhas, dinâmicas e gestos particulares. O reforço de alguns coadjuvantes, como Moura e Nelson Xavier, é louvável, mas legal mesmo é ver a astucia dos meninos duelando com os métodos dramáticos dos adultos, à semelhança de Pixote – A Lei do Mais Fraco.critica trash raphael gardo ratoAliás, esta é outra obra que ecoa em Trash, pela ênfase que ambos dão à temática dos abusos policiais, na sua real escala: institucional. É possível fazer um link histórico entre as ficções de 1981 e 2014, para comprovar via cinema o que muitos parecem não assimilar na vida real: as regras e as exceções da polícia militar de hoje são iguais às da polícia ditatorial de ontem. Pixote e Raphael testemunham uma verdade ainda mais dolorosa: para os periféricos, a polícia sempre foi ditatorial.

Rooney Mara e Martin Sheen formam o núcleo Lost In Translation do elenco. Sheen se entrega ao papel (Father Juilliard) com menos ressalvas. Mara usa em sua Olivia uma fragilidade plausível, mas também um abatimento para o jogo cênico. Ambos têm texto fraco e poucas falas em português, com as quais já se enrolam em excesso – interpretando nada menos do que imigrantes que trabalham numa espécie de missão jesuíta do século XXI. Mara solta vários portunhóis acidentais. Segue a corrente: percebemos os mesmos embargos e ruídos de sempre, nas relações das nações ditas desenvolvidas com as subdesenvolvidas.

Outro meio de inserção de Brazil com “z” em Trash fica por conta de alguns temas não originais utilizados na trilha sonora, ofuscando até a composição inspirada de Antonio Pinto. A opção pelo exotismo musical em detrimento de uma possível abertura para os expoentes contemporâneos da música na favela revela certo conservadorismo na avaliação do tempo presente. Para se ter uma ideia: dentre todos os momentos de felicidade e interação entre Raphael, Gardo e Rato, os meninos aparecem dançando o passinho do funk em míseros 3 segundos totais de filme, ao som de Barbatuques. Aliás, o único funk que ouvimos nas quase duas horas é o emblemático “Rap da Felicidade”, de Cidinho e Doca, um clássico de 20 anos de idade.critica trash raphael gardo

No marketing do filme, mais entrelinhas que ofendem, por trás do entretenimento com moral da história: se usam a imagem dos protagonistas mirins para a concepção de todos os cartazes do filme, por que raios não incluem neles os seus respectivos nomes, sendo que os atores estrangeiros, ao contrário, não têm seus rostos em sequer um cartaz? O introducing ou “apresentando” deveria ser mais do que um crédito disponível somente a atores com assessoria empresarial.

A fotografia de Adriano Goldman, de encher os olhos, redefine a paleta do gênero policial a partir da superfície enlameada dos lixões e palafitas, com seus fragmentos multicoloridos, e os desenhos de luz e contrastes arquitetônicos da urbe carioca. Grandes planos que remetem aos feitos de Walter Carvalho para Walter Salles e Rodolfo Sánchez para Hector Babenco. Como se pode perceber, Trash, um trabalho de coprodução e coautoria entre países, que contrapõe gêneros, é um filme de esforços que se sustentam melhor onde são mais cuidadosos.

Crítica: Trash - A Esperança Vem do Lixo

Confira também a crítica de Leonardo Lopes para o filme.

Leonardo Francini

Conheceu o cinema antes das salas multiplex. Aos onze, já escolhia suas próprias narrativas. Mas só viu o mundo além dos arrasa-cérebros perto dos dezoito. Durante a ascensão dos blogs, rascunhou sobre filmes. Já sonhou em ser ator. Foi fazer teatro, estudar Rádio e TV, aprender a viver um pouco. Já teve outro “nome artístico”. Experimentou, misturou e confundiu diversos formatos. Formou-se em 2012 e, então, começou a fotografar. Percebeu que estava fazendo tudo errado! Não por saber “o certo”, mas porque, com o tempo, a gente descobre como quer. Em 2013, se atreveu a escrever novamente. Foi quando encontrou um buteco descontraído.