Crítica: O Gângster, de Ridley Scott
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Filme: O Gângster

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O GÂNGSTER (American Gangster) É UMA VERDADEIRA AULA DE NEGÓCIOS. Assim como O Lobo de Wall Street, de Martin Scorsese, esse longa-metragem de 2007 abre bem os nossos olhos para observar fraquezas e oportunidades do mercado. No caso, no mundo das drogas na Nova York da década de 1970.

Ridley Scott, um cineasta tão versátil e acostumado a trabalhar com estilos e propostas sempre tão distintas, já havia surpreendido com sua recriação da estratégia de uma batalha em Cruzada. Sem precisar seguir o caminho comum de mostrar toda sequência de batalha anunciada na narrativa, o cineasta preferiu destacar as táticas de guerra dos dois exércitos e mostrar posteriormente um pouco disso em prática. Em O Gângster acontece praticamente a mesma coisa e o roteiro de Steve Zaillian (A Lista de Schindler) nos convida a entrar nesse mundo dos negócios (criminoso) e descobrir como foi que Frank Lucas (Denzel Washington) revolucionou o tráfico de drogas nas ruas da cidade.

Óbvio que a obra não é focada especialmente nessas técnicas, infelizmente para os marketeiros e estudiosos de plantão. O que impede comparações mais diretas com o clássico O Poderoso Chefão, de Francis Ford Coppola, é que a trama não gira apenas em torno dos negócios e da família de Lucas. Contracenando com Denzel Washington temos o xodó do cineasta Russell Crowe, que dá vida para o policial íntegro que inicia todo o processo para investigar e acabar com o império de Lucas.

É interessante observar a dinâmica proposta por Ridley Scott. O espectador acompanha as vidas dos dois protagonistas e percebe as diferenças gritantes entre cada um em momentos parecidos, como por exemplo na cena em que Lucas compra um apartamento luxuoso à vista, e Richie Roberts (Crowe) visita um pulgueiro para transformar no QG de operações da sua força de inteligência. Aliás, outro momento parecido é na maneira como cada um “recruta” seus homens de confiança. São detalhes curiosos que a narrativa apresenta para preparar o desenvolvimento da história.

Ridley Scott costuma ser bastante elogiado pelos atores que trabalham com ele. Isso acontece por causa da liberdade que o diretor dá para que cada ator dê a sua sugestão para melhorar o seu personagem. Em O Gângster temos algumas das melhores atuações da carreira tanto de Denzel Washington quanto de Russell Crowe: ambos nos fazem entender muito bem seus personagens sem precisar de esforço ou exposição do roteiro. Richie é um homem que passa por uma crise conjugal e demonstra uma certa insegurança para se expor diante outras pessoas. Tudo por conta da sua honestidade. Já Lucas é aquele tradicional tipo que estamos acostumados a ver Washington vivendo nas telas: a seriedade é a palavra de ordem. Por trás de toda aquela calma e fala mansa, existe uma bomba que pode explodir a qualquer momento.

O elenco de apoio também se destaca. Josh Brolin vive um agente corrupto, que acaba sendo o verdadeiro vilão da trama. John Hawkes é um dos agentes da força policial montada por Richie. E do lado do crime, temos Idris Elba, Chiwetel Ejiofor e Carla Gugino fazendo um belo trabalho.

Apesar de ser um filme sobre mafiosos, O Gângster me faz lembrar bastante de Fogo Contra Fogo, de Michael Mann. Acredito que seja pelo duelo de opostos formado por dois homens do bem que seguiram caminhos opostos em que um confronto se torna inevitável. Preciso esclarecer apenas que a dinâmica proposta por Ridley Scott na obra apenas me faz lembra do clássico estrelado por Robert De Niro e Al Pacino. Longe de mim querer dizer que O Gângster consegue ser melhor. Acaba faltando um pouco mais de dose ação. Existe um clima documental e investigativo demais, um distanciamento que impede o espectador de realmente se envolver com a trama e torcer de verdade pelo vilão – ao contrário do que acontece em praticamente todos os thrilers policiais de Michael Mann. Em O Gângster nós não desejamos o mal para Frank Lucas, mas o roteiro acaba nos fazendo vibrar com cada investida de sucesso dos policiais. Ou seja, para Ridley Scott o crime definitivamente não compensa.

Tullio Dias

Dizem que sou legal, mas eles estão mentindo só para me agradar. Gosto de Molejo, acho Era Uma Vez no Oeste uma obra-prima, prefiro baixo de quatro cordas do que os de cinco, tenho um MBA de MKT Digital e um curso de Publicidade, não tenho filhos, não tenho um coração, mas me derreto por caipirinhas.