Os Infratores

 

SE O CINEMA DE BUTECO EXISTISSE NA ÉPOCA EM QUE SE PASSA OS INFRATORES, viver seria um grande e doloroso problema. A Lei Seca, aquela mesma que deveria proibir as bebidas alcóolicas, é um dos temas de fundo da bela trama estrelada por Tom Hardy e Shia LaBeouf. O tema já foi apresentado em diversos filmes, como Os Intocáveis, de Brian De Palma, por exemplo, e o que diferencia o longa-metragem escrito pelo musico Nick Cave e dirigido por John Hillcoat é justamente o charme e carisma de seus personagens.

Uma gangue de três irmãos começa a enfrentar problemas depois que um novo agente da Lei chega na cidade e resolve suborná-los. Forrest (Hardy), Howard (Jason Clarke) e Jack Bondurant (LaBeouf) são os únicos que não aceitam pagar a propina pelo comércio ilegal de bebidas, causando a ira do policial Charlie Rakes (Guy Pearce). Paralelamente aos “negócios da família”, Forrest se envolve com uma mulher fugitiva (Jessica Chastain) e Jack se apaixona pela filha rebelde do Pastor.

O roteiro pode apresentar algumas situações complicadas de se levar a sério (como diabos a força policial da cidade presta tantas satisfações para um trio de pilantras que matam sem dó?), mas a direção é eficiente e faz a história correr. Mesmo os romances se tornam agradáveis de acompanhar, inclusive as cenas em que LaBeouf tenta cortejar Mia Wasikowska. O curioso mesmo é acompanhar um novo trabalho de Hillcoat, cujo filme mais famoso foi A Estrada, de 2009. O tom das duas produções é bem diferente e, sinceramente, não consigo enxergar um ponto em comum entre as duas tramas/personagens, o que de maneira alguma diminui o brilho de seu trabalho.

Hardy, que em 2012 estrelou Guerreiro, Guerra é Guerra e O Cavaleiro das Trevas Ressurge, está incrível. Talvez seja uma das melhores atuações do ator, que está se destacando cada vez mais e figurando como um dos grandes nomes do cinema atual. Ainda que a frieza de seu personagem evoque o lutador destruidor de Guerreiro, o trabalho de voz é notável. Hardy fala manso, com calma, sem se alterar. Tudo isso deixa claro para os outros personagens que aquele homem é um perigo.

LaBeouf interpreta o irmão mais novo, Jack, e é bem mais imaturo. Fazendo uma comparação bem grosseira, ele é como uma versão de Michael Corleone, de O Poderoso Chefão. Ainda que demonstre ter vontade de entrar no jogo, ele parece ficar em cima do muro e prefere aproveitar as vantagens obtidas pelo dinheiro ao invés de sujar as suas mãos. Porém, assim como acontece na saga da família Corleone, as coisas mudam de figura quando alguém é ferido, deixando a responsabilidade nos ombros do jovem.

Clarke tem a difícil missão de se destacar interpretando o irmão do meio, mas acaba virando apenas um (essencial) coadjuvante de luxo. O mesmo pode ser dito da participação de Gary Oldman, que fica pouco tempo em cena, mas o suficiente para mostrar que é um verdadeiro mafioso, em uma sequência que lembra bastante o clima de Os Intocáveis. Pearce, o vilão da trama, está ótimo na pele de um policial histérico e com tendências sexuais duvidosas. Vale prestar atenção no belo trabalho de maquiagem: além de ter o rosto envelhecido, Pearce ainda inventou um tipo de penteado que poderia muito bem ser aderido pelo jogador de futebol Neymar. Mas quem chama a atenção no elenco é a ruiva Jessica Chastain, de A Árvore da Vida. Como se não bastasse ter um rosto angelical, ser ruiva e uma puta atriz, a sua personagem ainda demonstra iniciativa e tira a roupa toda para se entregar ao grandalhão Forrest, que observa boquiaberto, meio que duvidando da própria sorte.

Fico feliz de escrever a crítica de mais um dos filmes que acompanhei desde a etapa de produção (quando o longa-metragem ainda tinha outro nome – o título original, Lawless, foi cedido pelo cineasta Terrence Malick, que em breve lançará um projeto com o mesmo nome), escrevendo notas quase que diárias para o Cinema em Cena. Os Infratores é uma bela produção, que ganha muita força graças ao carisma e talento (e atributos) de seu elenco, além de contar uma história que agradará em cheio aos fãs de filmes policiais.


Nota:[quatro]

Tullio Dias

Dizem que sou legal, mas eles estão mentindo só para me agradar. Gosto de Molejo, acho Era Uma Vez no Oeste uma obra-prima, prefiro baixo de quatro cordas do que os de cinco, tenho um MBA de MKT Digital e um curso de Publicidade, não tenho filhos, não tenho um coração, mas me derreto por caipirinhas.