Crítica: Scarface, de Brian De Palma
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Filme: Scarface

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SE TODAS AS REFILMAGENS TIVESSEM A QUALIDADE DE SCARFACE, o mundo do cinema seria um lugar melhor. Dirigido por Brian De Palma, em 1983, a produção utiliza o original Scarface – A Vergonha de Uma Nação, de Howard Hawks, apenas como um ponto de partida e se transforma totalmente em um produto completamente diferente, e muito superior, diga-se de passagem. Méritos para o trabalho do roteirista Oliver Stone, na época iniciando a sua trajetória em Hollywood.

Ao lado de Os Bons Companheiros, Os Intocáveis e, óbvio, a trilogia O Poderoso Chefão, o drama épico estrelado por Al Pacino é uma das obras obrigatórias do sub-gênero “filme de máfia”. Existe uma verdadeira história de ascensão e queda de um homem obcecado com o dinheiro e o sucesso. Tony Montana é um guerreiro. Um herói ao avesso. Ele inicia seus trabalhos de maneira discreta, mas sua ambição é grande demais para que ele se satisfaça em ser apenas o capanga. Não demora muito para começar a dar passos maiores que a perna para se tornar um perigoso e temido rei do crime. No entanto, como acontece com qualquer pessoa incapaz de apreciar o auge, Montana perde o controle e começa a se deixar levar pela emoção, se tornando instável por conta do seu comportamento possessivo e uma afronta para seus antigos aliados.

Podemos dizer que Pacino “revisitaria” Tony Montana em O Pagamento Final, também dirigido por De Palma. Dadas as devidas proporções, claro. Longe de ser um clássico épico como Scarface, o longa-metragem lançado 10 anos depois me cativa mais por motivos pessoais, e que escrevi aqui nessa crítica. Ver Pacino em cena é sempre um deleite. Como esquecer os momentos em que, completamente alucinado, Montana pega todo o seu arsenal e começa a atirar para se defender da invasão dos inimigos durante o terceiro ato? O mais interessante, porém, é analisar o comportamento controlador e possessivo de Montana, e como a caracterização de Pacino é eficiente, com todos aqueles olhares perdidos tomados de ódio e ciúme. A sua maior vítima acaba sendo sua própria irmã, que se apaixona pelo braço direito de Montana. Insano e incapaz de aceitar que a irmã tem direito a uma vida, ele praticamente enlouquece ao tomar uma decisão sem volta em relação ao namoro da irmã mais nova.

Michelle Pfeiffer, especialmente em Scarface, é a deusa do cinema de Brian De Palma, Tony Montana, minha e de todos os espectadores (independente do sexo). É impossível se manter indiferente diante a sensualidade da atriz/personagem, ainda mais se tratando de um diretor com PHD na arte do voyeurismo. Basta refletir sobre o primeiro momento em que a atriz surge em cena com um vestido verde extremamente sensual. Ao lado de Montana, o espectador (baba) acompanha os movimentos graciosos da loira fatal. Com uma tacada só, De Palma apresenta uma personagem importante, coloca em prática o seu lado safado controlado, e ainda mostra que Montana a deseja e não ficará satisfeito até conseguir roubá-la do chefe.

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Só para não dizer que o lado brega do cineasta passou batido em Scarface, lembre-se do momento único em que Pacino e Pfeiffer dialogam sobre o romance proibido dos dois. Pacino chega a afirmar que ela será a mãe de seus filhos, o que entra fácil na lista de migués mais toscos da história do cinema (dá uma disputa legal com O Exterminador do Futuro, de James Cameron). O mais surpreendente é que essas cantadas funcionam. Tudo bem que Pfeiffer nem teria muita chance de rejeitar o “convite”, mas o fato é que ela se sentiu balançada pelo charme cubano de Tony Montana. Os excessos também são retratados de maneira eficaz, como a decadência completa do nosso herói ao afundar a cara numa pilha de cocaína.

Scarface é um clássico obrigatório para qualquer um que se diga “entendido” dos filmes de máfia. Pode até não ser o melhor filme da carreira de Al Pacino ou Brian De Palma, mas é importante o suficiente para ser essencial para o currículo/acervo de qualquer cinéfilo. E mais uma demonstração da perfeição como Pacino costumava tratar cada um de seus personagens. Tony Montana é um retrato impecável de como até os mais poderosos encontram o seu fim. Nada muito inédito para o homem que interpretou Michael Corleone, mas tudo bem. A gente releva.

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Nota do editor:
É uma responsabilidade imensa analisar obras de cineastas do nível de Brian De Palma, especialmente se tratando de um filme importante e tão elogiado como Scarface. Porém, é necessário um pouco de coragem para dar um passo adiante e se arriscar ao falar de clássicos da sétima arte. Agradeço a atenção e a leitura.

Nota:[quatroemeia]

Tullio Dias

Dizem que sou legal, mas eles estão mentindo só para me agradar. Gosto de Molejo, acho Era Uma Vez no Oeste uma obra-prima, prefiro baixo de quatro cordas do que os de cinco, tenho um MBA de MKT Digital e um curso de Publicidade, não tenho filhos, não tenho um coração, mas me derreto por caipirinhas.