Cinema por quem entende mais de mesa de bar

Polytechnique: uma tragédia, três histórias.

Olá! Primeiramente queria cumprimentar a todos os butequeiros que interagem e fazem desse espaço um ótimo acervo de cinema. Sou Jairo e estou dando os meus primeiros passos por aqui. Como grande admirador de fotografia, escolhi para o meu primeiro texto por aqui a ótima obra do canadense Denis Villeneuve, Polytechnique. Um filme que tinha tudo para cair no clichê “Columbine e Cia”, mas que graças ao ótimo conjunto de evolução, fotografia e trilha sonora o filme ganha suspense, ganha foco e acima de tudo ganha alma.

Polytechnique lançado ano passado, homenageia os 20 anos da morte das vítimas do massacre ocorrido na Escola Politécnica de Montreal, quando Marc Lepine, motivado por questões antifeministas matou 14 mulheres e feriu outras 10. Porém, o filme não é sobre sangue, muito longe disso, é sobre natureza humana, instinto de sobrevivência, sobre de onde cada um de nós retira forças para levantar todas as manhãs e encarar nossas realidades, e quais são as questões que motivam nossos atos.

Considerado melhor filme canadense de 2009 pelo Genie Awards, o filme é baseado em depoimentos dos estudantes da universidade e retrata introspectivamente a realidade de três personagens fictícios. Maxim Gaudette vive Marc Lepine (o assassino); Jean-François é um estudante, interpretado por Sébastien Huberdeau; e Valérie a personagem central, estudante de Engenharia Mecânica, é vivida por Karine Vanasse (que estrelou o drama Ma fille, Mon ange em 2007 ao lado de Michel Côté).

O filme se compromete desde o início em retratar o drama individual de cada um dos três personagens em questão, começando com o cotidiano de cada um. Logo destaca-se a realidade do assassino, onde o elemento voice-over surge como forma explicativa dos motivos que o levaram a tal ato. Apesar de clichê e um tanto quanto didático, o elemento consegue retratar o estado de solidão e insatisfação em que o personagem se encontra, e ajuda também o filme a fugir dos clichês americanos, tais como bullying; intrigas escolares; rejeição por parte do assassino; enfim, coisas que não existem com tanta intensidade fora do universo fudido dos americanos.

A proposta na ênfase à realidade de Valérie é exatamente mostrar tudo que o assassino era avesso, e todos os motivos que o levaram ao extermínio das estudantes. A independência feminina, a conquista de posições iguais no trabalho e a inconformação da personagem perante o tratamento desigual dos sexos. Já Jean-François aparece como um estudante cotidiano, que se viu envolvido por toda a tragédia que aconteceu, pois sendo alvo ou não, naquele dia todos se pegaram fugindo de uma metralhadora em verdadeiro frenesi.

A fotografia aliada aos efeitos sonoros do filme dão o tom de suspense da obra. A fotografia em preto e branco que dá o tom cotidiano no inicio do filme é a mesma que se compromete a deixar o clima desolador com o desencadear dos incidentes. A troca de olhares constantes entre os personagens em momentos decisivos do filme e a falta de troca de palavras deixa toda a situação mais desesperadora e angustiante. As câmeras que seguem de perto o frenesi do assassino e ao mesmo tempo o estado de angústia e impotência do Jean;as situações cotidianas que são interrompidas a cada vez que o assassino adentra determinado recinto; e a troca de cenas de gritaria e desespero pelo silêncio angustiante da alma dos personagens, fazem todo o milagre por trás da obra. Tudo isso aliado ao timing perfeito dos efeitos sonoros, que rasgam o silêncio que predomina na obra, trazem um intenso suspense para a mesma e a imuniza de muitas comparações com Elephant e outros filmes do seguimento.

Após o incidente visto pelos olhos de Jean o enfoque volta novamente para o cotidiano dos personagens, mostrando como cada um lidou com a situação de perda. Quem é o sexo frágil? Será que a justificativa do assassino realmente tinha base? Essas e outras coisas são desenvolvidas pelo filme quando o mesmo se propõe a dar continuidade no acompanhamento da vida dos personagens após o incidente de 6 de fevereiro de 1989.

A não linearidade do filme ao mostrar o ponto de vista dos personagens; as surpreendentes reações que cada um tem como resposta ao trauma; os desencontros entre os personagens gerados pelo medo e pelo desespero; e a impotência do público diante de tudo isso; são dignas de classificar a obra como um drama de suspense. Altamente recomendável Polytechnique fará em menos de 80 minutos seu coração experimentar todas as emoções possíveis, do nervosismo ao desespero, da angústia à decepção… Quando uma bala é disparada afetando o cotidiano de dezenas de pessoas tudo que você não esperava poderá acontecer.

Comentários