Filme: Procura-se Amy

PROCUREI O DVD DE PROCURA-SE AMY DURANTE MUITO TEMPO ATÉ O DIA EM QUE FUI SURPREENDIDO POR UMA EX-NAMORADA EM UM DIA DOS NAMORADOS BEM DISTANTE. Foi um bom presente, especialmente por ter sido inesperado e se tratar de uma produção que eu tinha um carinho enorme. Hoje, anos depois do fim do relacionamento e com uma mente para o cinema completamente diferente, assistir ao filme escrito e dirigido por Kevin Smith é uma experiência quase estranha. Quase.

O filme, que já apareceu na minha lista de favoritos de todos os tempos e também na lista de melhores comédias românticas, conta a história de um desenhista chamado Holden (Ben Affleck) que se apaixona por uma artista lésbica vivida pela bela Joey Lauren Adams. Claro que a beleza e o charme de Alyssa ficam seriamente afetados a partir do momento em que ela começa a falar com sua insuportável voz de taquara rachada. Falando assim, bem na lata, o leitor do Cinema de Buteco que nunca assistiu ao filme pode até ficar curioso em saber como é que Smith desenvolve a história desse romance fadado ao fracasso, assim como a grande parte das histórias românticas que assistimos em nossas próprias vidas, mas aí que entra a coisa que me fez refletir um pouco mais sobre Procura-se Amy.

A crítica especializada costuma descer garrafadas de cerveja quente na capacidade de Smith como diretor. Parte desses comentários podem (e devem) ser ignorados, já que algumas opiniões acabam sendo apenas para chatear os fãs ou dar chute em cachorro morto. De fato, a direção não é o forte do diretor, que não parece saber usar a câmera com eficiência, como, por exemplo, na patética tentativa final de Holden acertar o seu romance. A situação do personagem pedia um trato mais refinado da cena, até mesmo para aumentar (ou criar) o drama. A impressão que fica é que Procura-se Amy não se preocupa com o cinema em si, focando tudo no desenvolvimento da trama daqueles personagens. Ou seja, Smith não se preocupou em fazer cinema, e sim em transmitir sua história para o público. Mesmo os hatters precisam admitir que Procura-se Amy tem um dos melhores roteiros da carreira de Smith.

Com boas sacadas e um humor ácido, Smith apresenta para o público um triângulo amoroso improvável e bastante peculiar, além de fazer auto-referências para O Balconista e Barrados no Shopping, seus filmes anteriores. Affleck consegue dar um tom legal para o chato conservador do Holden, mesmo nas cenas em que ele parece desinteressado. Você fica na dúvida se é o personagem que é deslocado ou realmente foi a interpretação do ator. Dá para engolir Adams (não do jeito que eu queria, infelizmente) mesmo com a voz irritante e as cenas de histeria dela, que não causam a mínima comoção. O ponto interessante está em Banky (Jason Lee), parceiro punheteiro de Holden e que tem uma visão bem adolescente do mundo e das pessoas. Quando Alyssa se encontra em Holden e se apaixona, Banky começa a demonstrar um ciúme excessivo que poderia representar bem mais do que apenas amizade.

Matt Damon e Casey Affleck fazem uma pequena ponta durante o filme, que também tem participação do próprio diretor justamente na cena que “batiza” a produção. Os iniciantes na filmografia do diretor provavelmente não entenderão (e eu recomendo que os interessados assistam os filmes na ordem em que foram produzidos) quem são Jay (Jason Mewes) e Silent Bob, mas se trata de uma dupla de malacos que vivem chapados e se envolvendo em confusões. Bob silencioso não costuma conversar muito, mas é ele que “abre” a cabeça de Holden em um belo discurso sobre o quanto ser machista e se preocupar com o passado é algo imbecil. Há quem diga que Smith subestimou a inteligência do espectador com um diálogo que explique o filme inteiro. Uma injustiça, pois Holden é um babaca que está cego pelo medo e a insegurança de saber que a mulher amada teve experiências “radicais” no passado. Ele precisava ouvir algo para ter um insight e decidir o seu futuro, evitando cometer um grande erro e correndo o risco de perder sua namorada.

Procura-se Amy não é um filme excelente, mas ele ganha muita força em cima do roteiro inspirado. Você sabe o que vai acontecer, você pode vir a ter uma ou duas surpresas, contudo nada irá diminuir a diversão, especialmente para quem já sentiu na pele o desespero de ser comparado com amantes do passado e se achar “inadequado”. Os mais românticos, os que tem amor às causas perdidas, irão se deliciar com o clima entre Holden e Alyssa. Se tivesse parado nas mãos de um diretor, o resultado provavelmente seria superior e digno de entrar em qualquer lista de filmes românticos, mas nas mãos de Kevin Smith, a busca pela mulher perfeita fica limitada e sem vida. Uma pena. Confira sem a pretensão de ver um exemplar de cinema e sabendo que é apenas uma história que é encenada por atores de verdade e você pode pausar para ir pegar uma cerveja geladinha na geladeira.

Nota:   

Tullio Dias

Dizem que sou legal, mas eles estão mentindo só para me agradar. Gosto de Molejo, acho Era Uma Vez no Oeste uma obra-prima, prefiro baixo de quatro cordas do que os de cinco, tenho um MBA de MKT Digital e um curso de Publicidade, não tenho filhos, não tenho um coração, mas me derreto por caipirinhas.