Crítica: Resgate em Alta Velocidade, de Courtney Solomon
Críticas de filmes

Resgate em Alta Velocidade

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GRAÇAS AO WHATSAPP, você consegue trocar mensagens entre aparelhos de celular com serviço de internet sem custos adicionais. Com o Tinder, você pode descolar encontros românticos, sexuais e quiçá conhecer o amor da sua vida; caso sinta atração pelo mesmo sexo, recorra ao Grindr. Procurando uma rede social para fotos, com suporte para vídeos de até 15 segundos e uma variedade de filtros para aplicar em suas imagens? O Instagram é a resposta para sua demanda. Se estiver com excesso de tempo ocioso, o Candy Crush pode resolver seu problema. Interessado em descobrir qual o tamanho ideal de camisinha para o seu pênis? Pois jogue as dimensões do seu membro no Condon Size e obtenha a resposta prontamente. Agora, se você estiver preso em um carro repleto de câmeras instaladas por um criminoso alegadamente astuto, que supostamente te vigia atentamente para impedir que os planos megalomaníacos dele sejam comprometidos por suas ações, você precisa ter o Image Looper X, que grava um pequeno trecho da filmagem sem muita ação e o repete indefinidamente, levando o bandidão a acreditar que você está quietinho no veículo. Tipo no ônibus em Velocidade Máxima, lembra?

Sim, vivemos a era dos aplicativos. Muitos dos pequenos problemas mundanos da humanidade são resolvidos instantaneamente com o auxílio desses programetes. Muitos, mas não todos. Como vocês devem ser capazes de deduzir, um dos aplicativos citados no primeiro parágrafo é absurdo demais para existir – pelo menos no mundo real.

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Resgate em Alta Velocidade, portanto, não pode ser ambientado em um universo real. Escrito pelos estreantes Sean Finegan e Gregg Maxwell Parker, o filme acompanha o motorista de corrida aposentado Brent Magna (Ethan Hawke) enfurnado em um carro possante e repleto de câmeras de vigilância, instaladas por bandidos que sequestraram e ameaçam matar sua mulher (Rebecca Budig) e transmitem periodicamente novas tarefas ao sujeito. A certa altura, junta-se a Brent a atrevida dona anterior do veículo, que, não coincidentemente, é também filha do diretor de um grande banco de investimentos local. Juntos, Brent e a garota (Selena Gomez) precisam correr contra o tempo para assumir o controle da situação e frustrar os planos da boca falante de Jon Voight (que recebe possivelmente o cachê mais fácil de sua carreira).

Seria uma tarefa extremamente desafiadora caso o vilão fosse tão inteligente e perspicaz quanto julga ser – e “imbecil” é a primeira palavra que vem à minha mente quando penso em um sujeito que rouba um carro e modifica seu interior para transformá-lo em um pequeno cárcere sobre rodas, mas esquece de recolher os pertences da dona anterior guardados no porta-luvas – incluindo um tablet com o já citado e providencial Image Looper X instalado. Da mesma forma, qual o propósito de instalar microfones no veículo se estes não são utilizados pelo vilão quando o mocinho e a mocinha estão matutando modos de se salvar? Comportamentos incoerentes e irreais, porém, não são características exclusivas dos algozes de Resgate em Alta Velocidade (e não leia o restante do parágrafo caso se incomode com spoilers que poderiam ser facilmente deduzidos a partir da premissa): a esposa de Brent, Leanne, precisa ser uma mulher extremamente perturbada para, instantes após ser libertada, incentivar que o marido – um cidadão comum – se envolva em novas situações de riscos para salvar uma garota que ela sequer conhece.

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Ou talvez a mulher tenha conhecimento sobre a incompetência da polícia da cidade búlgara de Sofia, que, embora possua uma das maiores frotas de viaturas já vistas (basta contar o número alarmante de carros que são descartados nas incontáveis sequências de perseguição), parece formar menos uma equipe que combate o crime a serviço da população e mais o elenco de um daqueles espetáculos de destruição de carros. Além disso, Courtney Solomon também peca por adotar uma lógica visual confusa: o mesmo estilo de filmagem das câmeras instaladas no carro também é visto frequentemente em imagens captadas por fontes externas ao veículo, embora em pouquíssimas ocasiões trate-se de câmeras de vigilância de fato. Para completar, o diretor jamais consegue justificar a duração da narrativa para um roteiro tão tolo e frouxo: com exceção de um longo e moderadamente interessante plano que acompanha uma perseguição atravessando um extenso trecho da locação (e cujo resultado parece uma conquista muito mais logística da produção do que artística), as sequências de ação pecam pela montagem por vezes confusa e, sobretudo, por se distinguirem pouquíssimo umas das outras – a impressão que fica é que, a cada dez minutos, a narrativa é interrompida para testemunharmos o protagonista tendo que se esquivar novamente de mais meia dúzia de viaturas policiais.

Ou talvez eu seja ingênuo e não tenha percebido que Solomon e o montador Ryan Dufrene também são usuários assíduos do Image Looper X – o que naturalmente me coloca na posição de vítima do crime que cometeram.

Título original: Getaway
Direção: Courtney Solomon
Roteiro: Sean Finegan e Gregg Maxwell Parker
Elenco: Ethan Hawke, Selena Gomez, Rebecca Budig e Jon Voight
Lançamento: 9 de Janeiro de 2014, em DVD e Blu-ray
Nota:[uma]

Eduardo Monteiro

Eu poderia estar matando, poderia estar roubando, mas estou aqui tentando convencê-los que Encantada é um estudo de personagens subestimado, que Ela Dança, Eu Danço 4 não é um desperdício total de tempo ou que o documentário da Katy Perry tem mais camadas que muitas bacias de sedimentação por aí. E plantando outras sementes de discórdia em terrenos férteis nas horas vagas.