Review: Roadies s01e01 – “Life is a Carnival”

Cameron Crowe, eu nunca duvidei de você.

O cineasta responsável por Quase Famosos, um dos meus filmes favoritos de todos os tempos, trocou o cinema pela televisão para contar uma história sobre um grupo de roadies em turnê com uma banda. Assim como Quase Famosos, fica evidente que Crowe decidiu voltar a falar daquilo que entende mais e que o consagrou: a música.

Em “Life is a Carnival”, piloto da série, Crowe atua como roteirista e diretor. O resultado é mágico. Com personagens carismáticos, senso de humor afiado, referências às grandes bandas do mundo do rock e uma trilha sonora inspirada, Roadies se garantiu como uma das minhas séries favoritas de 2016. Aliás, vou mais longe, se minha lista de melhores do primeiro semestre tivesse que sair agora, faria uma menção honrosa ao capítulo introdutório de Roadies.

O motivo?

Bem simples: a sensibilidade com que Cameron Crowe constrói os seus personagens e coloca a música como base principal do desenvolvimento da trama é única. Para cinéfilos que colocam a música como parte das coisas mais importantes da vida (ao lado de rir, comer pizza, trepar e tomar banho), a combinação dessas duas artes é sempre fatal. Ainda mais quando é realizada por quem entende do assunto e aprendeu a arte de contar uma boa história com Billy Wilder e John Hughes.

A série apresenta três personagens principais: Bill (Luke Wilson), que é um dos chefes do grupo e nos diverte já na introdução enquanto transa com uma adolescente; Shelli (Carla Gugino), outra das responsáveis pela turnê e aparentemente a pessoa mais ponderada do grupo; Kelly Ann (Imogen Poots) está no seu último dia de trabalho e parece uma versão não-groupie de Penny Lanne (Kate Hudson, em Quase Famosos), já que ela é a pessoa que declara o seu amor pela música e insatisfação com a apatia da banda em sequer cogitar modificar seus setlists (alô, Foo Fighters, essa é para vocês! Alô, Muse, ouviram essa?). Ainda existe o produtor Reg (Rafe Spall), que também evoca um personagem de Quase Famosos e deverá ser o interesse romântico de Kelly Ann.

Kelly Ann está prestes a deixar a turma para se dedicar ao curso de cinema. Ela explica que produziu um filme que mostra o quanto é falsa a emoção dos personagens de obras clássicas correndo. A obra dela é mencionada três vezes até Crowe mostrar para o telespectador. Quando isso acontece, ao som de “Given to Fly”, do Pearl Jam, a própria Kelly Ann toma uma decisão importante em sua vida e começa a correr para encontrar o seu destino. Essa sequência é a grande culpada por eu ter me apaixonado assim. Afinal, que cinéfilo não se derreteria com uma homenagem dessas para vários clássicos do cinema (a compilação de cenas com gente correndo em momentos envolve Curtindo a Vida Adoidado, Quanto Mais Quente Melhor, Trainspotting, Superbad, Férias Frustadas, A Primeira Noite de Um Homem, dentre vários outros). Crowe não é sutil ao dizer que própria Kelly Ann estava errada, mas quem se importa diante a beleza dessa sequência?

Roadies é uma série promissora sobre os bastidores de um grande show. Independente do restante da temporada não justificar a minha empolgação inicial, esse episódio piloto continuará especial. Esses dias ri de um post do escritor e professor Bruno Scartozzoni em que ele comentava sobre ter pegado um taxi com um motorista que trabalhou anos com uma dupla sertaneja. Revelou que até ele se dava bem nas festas que rolavam nos ônibus. Pelo que Cameron Crowe nos mostra nesse piloto, certamente teremos muitas recriações de todo o folclore escondido nas sombras de quem fica atrás do palco tornando tudo possível.

Tullio Dias

Dizem que sou legal, mas eles estão mentindo só para me agradar. Gosto de Molejo, acho Era Uma Vez no Oeste uma obra-prima, prefiro baixo de quatro cordas do que os de cinco, tenho um MBA de MKT Digital e um curso de Publicidade, não tenho filhos, não tenho um coração, mas me derreto por caipirinhas.