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O Homem Que Virou Suco

O CINEMA SEMPRE SERVIU como instrumento de política, para todos os atores presentes nessa esfera social. E O Homem Que Virou Suco é um eloquente discurso conta a industrialização esmagadora, que relega o homem a simples figurante, e também contra os preconceitos arraigados no Brasil. Neste último ponto, o filme que é de 1981 parece ser tão atual quanto qualquer produção de 2012. Ou até mais, já que vemos tanta bobagem por aí.

 Deraldo José da Silva (José Dumont, sempre competente) é um migrante da Paraíba, perdido em São Paulo. Ele tenta sobreviver vendendo literatura de cordel, mas é sempre acusado de ser vagabundo pelos vizinhos e ainda precisa enfrentar a fiscalização de posturas, que cobra seus documentos (ele não os tem) e apreende todos os seus livretos. Enquanto luta para ter respeito dos companheiros e conseguir dinheiro para sobreviver, ele descobre que está sendo procurado pela polícia. O também paraibano José Severino da Silva mata o patrão a facadas ao receber o prêmio de Operário do Ano. Severino é a cara de Deraldo e, com uma denúncia anônima, o poeta é confundido e passa a fugir. Na busca por sobrevivência, é humilhado por patrões que não respeitam sua origem nordestina, é constantemente chamado de vagabundo e forçado a ter uma postura subserviente. É nesse meio que Deraldo tenta sobreviver na selva que é São Paulo.

O filme junta a indignação do brasileiro com o regime de repressão (faltavam ainda três anos para a retomada da democracia), com a opressão do trabalho, os direitos humanos não assegurados, a política coronelista (muito bem apresentada também na “cidade grande”) e os movimentos sindicais que cresciam no país naquela época.

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Um dos destaques é a trilha sonora e os poemas do paraibano Vital Farias (que faz uma ponta no filme, como ele mesmo, acompanhado de Dominguinhos). São músicas com um toque de repente, temperadas com uma ponta de tristeza pela situação do nordestino migrante. É a trilha que engrandece a abertura do filme, com tijolos formando prédios e uma cidade. Outro momento em que a trilha é quase um personagem: quando a polícia, à noite e com uma lanterna, procura Deraldo e encontra rostos sofridos de moradores marginalizados da cidade: adultos, idosos e crianças oprimidos pela vida, pela repressão, pela miséria. É tocante.

Um dos momentos mais bonitos é quando Deraldo está trabalhando na construção civil, morando na obra. Seus companheiros perguntam se ele sabe ler e, então, ele passa a ser o leitor e o escriba das cartas dos trabalhadores do local. “Vire a página, mas não vire o coração”, escreve a noiva de Pedrão, que pede notícias. É quase possível afirmar que essa passagem foi inspiração para Central do Brasil.

O diretor e roteirista João Batista de Andrade mostra com leveza (mas jamais superficialmente) a questão do preconceito contra os nordestinos. Do fiscal da prefeitura (“Isso aqui é São Paulo, não é nordeste”) ao encarregado da construção civil (“O trabalho aqui é pesado, não é essa moleza que você tinha lá no norte, na vaquejada”) e, no ápice, no áudio-visual dos construtores do metrô.

 

Alguns prêmios:

– Medalha de Ouro (Melhor Filme) no Festival Internacional de Moscou 1981

– Festival de Gramado 1981: Melhor Roteiro, Melhor Ator, Melhor Ator Codjuvante

– Festival de Brasília 1980: Melhor Ator

– Festival Internacional de Huelva (Espanha) 1981: Melhor Ator

– Prêmio Mérito Humanitário (Juventude Soviética – Moscou) 1981

– Festival de Nevers (França) 1983: Melhor Filme, Prêmio da Crítica

– Prêmio Qualidade Concine 1983 (Brasil)

– Prêmio São Saruê, concedido pela Federação dos Cineclubes do Rio de Janeiro 1983

 

O homem que virou suco (1981)

Direção: João Batista de Andrade

Roteiro: João Batista de Andrade

Montagem: Alain Fresnot

Trilha sonora e poemas: Vital Farias

Elenco: José Dumont, Aldo Bueno, Rafael de Carvalho, Ruthinéa de Moraes

Lançamento: 1981

 Nota: 

 

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