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Crítica: Silêncio (2016)

CONFESSO QUE SILÊNCIO (Silence, 2016) NÃO É O FILME DO MARTIN SCORSESE QUE EU GOSTARIA DE ASSISTIR. Mesmo lembrando que o projeto é um sonho antigo do cineasta, minha vontade era ver o cara retomando às origens e trabalhando com temas de crime, máfia e violência.

Adaptação do romance escrito por Shūsaku Endō em 1966, Silêncio é curiosamente um dos projetos mais pessoais de Scorsese desde Caminhos Perigosos. A obra fala sobre religião, desde a busca pela fé até o seu questionamento. São mais de 2h30 em que acompanhamos a jornada de dois padres jesuítas portugueses (Andrew Garfield e Adam Driver) tentando encontrar um outro padre desaparecido no Japão, justamente num período em que os católicos eram perseguidos.

Em produção há mais de 20 anos, chegando até a ter Daniel Day-Lewis escalado no elenco, o longa pode ser considerado como o projeto da vida de Scorsese, mas que infelizmente não consegue cativar o público. Sem assinar um roteiro desde 1995, com Cassino, Scorsese parece ter deixado seu lado pessoal pesar o ritmo de Silêncio. São praticamente três filmes (a jornada dos padres até o Japão; a prisão; a renúncia da fé) que demoram um tempo excessivo para se desenvolverem.

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Difícil não ver a relação estabelecida entre Rodrigues (Garfield) e o próprio Jesus Cristo. Tentando fazer o bem e ajudar as pessoas mais próximas, o padre acaba se tornando uma figura de referência. Não demora para que ele ganhe o seu próprio Judas de presente: Kichijiro é um dos detalhes mais curiosos presentes na obra – e talvez o personagem mais importante. Para sobreviver, o cara não mede esforços e não demonstra lealdade a nada ou ninguém.

OUÇA: O cinema de Martin Scorsese

Um dos grandes trunfos da produção está no seu elenco. Garfield vive a melhor fase de sua carreira. Somente em 2016, o ex-Homem-Aranha estrelou Silêncio e Até o Último Homem, de Mel Gibson, oferecendo duas atuações surpreendentes. Mesmo com a sua cara de menino mimado, Garfield mostra força na interpretação do protagonista e nos seus conflitos pessoais. Driver é outro destaque, embora receba menos atenção de Scorsese. Também temos Liam Neeson repetindo a parceria de Gangues de Nova York, com um ar de seriedade e respeito.

Silêncio é muito sobre nossa obstinação em sustentar crenças e valores diante situações extremas. Se levarmos isso além da questão religiosa de questionar a fé, podemos perceber que a lição se aplica para tudo na vida. Rodrigues assiste cenas de violência extrema (decapitações, gente pegando fogo e morrendo amarrada na cruz em alto mar) e precisa apostatar para conseguir sobreviver. Nesse ponto é válido comparar as opções de vida do Padre com Kichijiro, que não demonstrou o menor peso na consciência para renunciar Jesus em sua vida. São necessários anos de sofrimento para Rodrigues entender que a fé está dentro de nós mesmos, e não através das atitudes que somos obrigados a ter para garantir nossa sobrevivência.

Tecnicamente impecável, com destaque para a fotografia de Rodrigo Prieto, Silêncio deixa o espectador numa desconfortável posição de precisar se esforçar para manter a atenção na tela diante um filme de Martin Scorsese. Às vezes nossos desejos mais pessoais acabam fazendo sentido apenas para nós mesmos, ou quem se interesse pelo tema trabalhado – e forma como isso é colocado em cena. Saudades do Scorsese mafioso, afinal…

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