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Simonal – Ninguém sabe o duro que dei

Minha curiosidade musical só não é menor que meu interesse por futebol – e eu mal sei pra que serve a trave. Sendo assim, gosto de umas coisinhas e não me esforço por conhecer mais. O preâmbulo é pra justificar por que razão eu nunca tinha ouvido uma música sequer de um dos maiores sucessos dos anos 60 até começar a assistir a Simonal: ninguém sabe o duro que dei.

Principal representante de um movimento cultural denominado pilantragem (Oi?), Simonal enlouquecia multidões que lotavam o Maracanãzinho para assisti-lo. Apesar de vender horrores e de ser um showman, os críticos consideravam sua música popular demais e seu não-engajamento político imperdoável. A postura de negro bem-sucedido e interessado em usufruir de uma “vida de branco” também não aumentava sua credibilidade entre a classe artística no Brasil politicamente tenso e racista dos anos 60.

Mas tudo isso seria desimportante, não fosse a merda monumental em que ele se envolveu em 1971: APARENTEMENTE, o músico descobriu que estava sendo roubado por seu contador, razão pela qual teria contratado dois policiais do DOPS para que seqüestrassem e torturassem o indvíduo, até obterem a confissão do desvio do dinheiro. No dia seguinte, após assinar a confissão, o contador procura a imprensa e processa Simonal que, desesperado, tem a imbecil idéia de se dizer “contra os subversivos e a favor do regime” para limpar sua barra com a polícia. Daí para ele ser acusado de dedurar integrantes da classe artística para a ditadura é fácil, principalmente pelo precedente do não-engajamento político.

E é então que começa o inferno na vida do músico, sua morte em vida: seu nome passa a ser tabu, as emissoras deixam de convidá-lo para programas de televisão, as gravadoras o rejeitam. E Simonal passa aproximadamente 20 anos inexistente no cenário musical brasileiro, tendo ensaiado um tímido retorno em meados da década de 90, quando sua saúde já estava bastante debilitada em virtude do alcoolismo

Contando com depoimentos esclarecedores que vão dos filhos de Simonal (os também músicos Max de Castro e Wilson Simoninha) ao famoso contabilista, o documentário reconstrói com a mesma clareza a dimensão do sucesso alcançado pelo artista e o ostracismo que abortou sua carreira no auge.

Dirigido por Cláudio Manoel, integrante do elenco do Casseta e Planeta (se é aquilo ainda existe), o documentário não é uma defesa do showman e uma acusação do contador. É para que gente que do Simonal conhecia o nome, como eu, entenda qual foi seu papel na história da música brasileira e a razão de sua decadência. Termino o documentário tão desinteressada por música quanto comecei, mas impressionada com o que um episódio infeliz e uma série de reações inconseqüentes podem fazer com a vida de alguém.

Três caipirinhas em cinco.

Simonal – Ninguém sabe o duro que dei (2009)

Direção: Cláudio Manoel, Micael Langer, Calvito Leal

Roteiro: Cláudio Manoel

Gênero: Documentário

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