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Sinais


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EM 2002, M. NIGHT SHYAMALAN LANÇOU O FANTÁSTICO SINAIS. Eu, na ocasião, estava com meus 12 anos e me lembro bem do acontecimento que foi o lançamento do filme. Assisti com meus primos e fiquei extasiada. Apesar dos efeitos especiais toscos até para a época, e da cena em que o menininho brasileiro na festa de aniversário avista um E.T. e começa falando em português e de repente solta um “IT’S BEHIND!”, a genialidade de Sinais é indiscutível. É o meu filme preferido de M. Night Shyamalan: muito bem executado, com atuações memoráveis e suspense genuíno.

O roteiro é simples: misteriosas marcas no milharal da fazenda de uma família começam a aparecer. Graham Hess (Mel Gibson), o patriarca, tem dois filhos: Morgan (Rory Culkin) e Bo (Abgail Breslin). O irmão Merrill (Joaquin Phoenix) vive num anexo na fazenda e ajuda Graham, recém-viúvo tentando seguir a vida após a tragédia que matou sua esposa. Graham, desiludido com a vida depois da perda da mulher, volta a confrontar a existência de uma força maior com o surgimento dessas marcas e da ameaça alienígena que se instala no planeta. Nota: Shyamalan baseou o enredo nas farsas que aconteceram nos anos 80.

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Ao longo do filme, vamos descobrindo um pouco do passado dos personagens – fatos a princípio desimportantes, mas que ao decorrer da obra se mostram essenciais para o entendimento da história. A dicotomia trabalhada vai muito além da dúvida sobre a existência de Deus: os vários acontecimentos da vida passada da família que provam ser vitais para a sobrevivência da mesma durante a invasão extraterrestre deixam perguntas na cabeça do espectador: tudo foi coincidência bem-vinda ou intervenção divina? Shyamalan não esconde qual das duas teorias abraça desde o início. O que queremos ver é Graham finalmente descobrir o que já sabemos.

A construção dos personagens é concisa e bem feita. Não há uma pessoa pela qual não nos importemos ou desacreditemos. Graham, o bom pai, íntegro, exemplar, quadradão. Morgan, o filho mais velho, asmático, irmão protetor, maduro demais para sua idade. Bo, a filha mais nova que nunca termina um copo d’água (“está contaminada” ou “tem gosto de velha”) e os por toda parte, fã do irmão, que coloca vestido com calça jeans mostrando que é a única representante do sexo feminino na casa. E Merril, o irmão sem noção que resolveu morar com Graham após a morte da cunhada, tio coruja, ex-atleta de beisebol, a tal da “cola” que mantém a família unida. Oficial Diane Paski (Cherry Jones), policial amiga da família, que se preocupa com os Hess. O núcleo é pequeno, simples e ainda assim interessantíssimo.

O humor é fino e sutil – marca registrada do diretor -, e fica a cargo dos excelentes Mel Gibson e Joaquin Phoenix na maior parte do tempo. A cena em que eles correm ao redor da casa tentando assustar Lionel Prichard e os Irmãos Wolfington (quem eles pensam ser os culpados pelas marcas no milharal) é hi-lá-ri-a. Mel Gibson pode ser nazista, alcoólatra e ter a língua maior do que a boca, mas em se tratando de talento ninguém pode discutir: o cara é muito, muito, muito bom e faz falta. Joaquin Phoenix, outro louco igualmente talentoso que se supera a cada ano que passa. Abgail Breslin, quase uma Fofolete de tão pequena e bonitinha, já roubava cenas bem antes de ser a famigerada Pequena Miss Sunshine. E Rory Culkin (sim, do clã dos Culkin ou “irmão do Macaulay”), mostrando que a coisa estava realmente no sangue da família. Elenco incrível, memorável – tirando a participação do próprio diretor como Ray Reddy. Vai entender porque Shyamalan gosta de pensar que sabe atuar…

O roteiro simples e efetivo não pediu muito: apesar de contar com efeitos especiais (ruins, mas isso não importou tanto) e ser uma ficção científica, o filme contou com um orçamento de US$70 milhões, quantia considerada de produções independentes de grande porte. A maior parte da trama se passa na casa estilo plantation construída no estado da Pensylvannia (estado natal do diretor), e as proporções épicas atingidas pela trama ficaram a cargo dos recursos linguísticos usados: sabemos do acontecimento distópico em todo o mundo pela TV, pelo comentário das pessoas, pelo rádio mas nunca por multidões caóticas ou locações que pedissem computação gráfica mais elaborada. Esse mesmo roteiro simplista que usou de basicamente um casarão como set de filmagem proporcionou a Shyamalan que explorasse mais as relações familiares e a habilidade dos atores para trazer mais empatia e carisma para a história. Jogada de sucesso que tornou Sinais um dos maiores blockbusters de 2002, num ano de lançamentos como O Senhor dos Aneis – As Duas Torres, Harry Potter e A Câmara Secreta, Homem-Aranha, Guerra nas Estrelas: Episódio II – Ataque dos Clones, 007 – Um Novo Dia Para Morrer, Minority Report – A Nova Lei, Prenda-me Se For Capaz, O Chamado e tantos outros gigantes.

Menção honrosa para a equipe de som (edição, sonoplastia, mixagem etc.), que mandou muito bem dando maior atmosfera à narrativa. Também para James Newton Howard, parceiro do diretor desde O Sexto Sentido, que criou uma trilha sonora de tirar o chapéu e que nos envolve completamente desde os créditos iniciais (que, aliás, foram criados para contemplar a música de abertura). Howard se inspirou em Psicose, Contatos Imediatos do Terceiro Grau e na série de sucesso Além da Imaginação para construir o trabalho. E, claro, para o diretor de fotografia Tak Fujimoto, que usou bem as câmeras para trazer um ar verdadeiramente e tradicionalmente americano ao filme.

Com influências como Spielberg, Hitchcock e Kubrick, Sinais é um conto-de-fadas que usa o melhor do suspense para tratar assuntos importantes como religião e ciência, tornando-se uma experiência cinematográfica única. A jornada um tanto quanto bíblica da família Hess vai te deixar sem dormir, olhando para os lados toda vez que um barulho de inseto zunir perto da sua orelha.

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Título original: Signs
Direção: M. Night Shyamalan
Produção: M. Night Shyamalan, Frank Marshall e Sam Mercer
Roteiro: M. Night Shyamalan
Elenco: Mel Gibson, Joaquin Phoenix, Rory Culkin, Abgail Breslin, Cherry Jones e M. Night Shyamalan
Lançamento: 2002
Nota:[cinco]

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