Tudo Sobre Minha Mãe (Ou quero ser Pedro Almodóvar)

por João

(Todo sobre mi madre) De Pedro Almodóvar. Com Cecília Roth, Marisa Paredes, Penélope Cruz.

Trecho de um post meu sobre Fale com Ela:

Fale com Ela é um filme que se revela aos poucos. Novamente o tema do amor está em questão (e também o da falta de comunicação e da obsessão, como é visto normalmente em textos sobre o filme), mas parece que é a forma como a vida une e separa, esvazia e preenche, e a forma como mesmo contra nossa vontade temos que lidar com isso o tema central, e só concluímos isso segundos antes dos créditos finais. É quando o filme nos deixa a sensação de que todos aqueles acontecimentos (fortes e extremos cada um à sua maneira) só serviram para que aqueles personagens ficassem juntos! É como se o andamento da vida fosse (e de fato é) totalmente independente das nossas vontades, passionais ou mais racionais, e que mesmo sem nos dar conta, nos adaptamos e aprendemos com isso.”
A cada contato com o universo de Almodóvar, confesso ficar mais fascinado, mais admirado, mais impressionado. Alguns diretores têm certa fama que não condiz com sua real importância para o cinema. Quando falamos de Almodóvar, tudo o que se fala sobre ele ainda é insuficiente.
No caso de Tudo sobre minha mãe, filme de 1999, ao final da história quando percebemos aquelas idiossincrasias próprias do diretor (ou seriam apenas características de sua poética?) novamente foram colocadas de forma tão sutil e conveniente à história, a única vontade que se tem é a de ver de novo e de novo e de novo…
Filme de Almodóvar não cansa. Têm várias camadas, detalhes, pistas (todos os filmes têm indicativos do que virá pela frente, ou auto-referências a si mesmo, que passam despercebidas – ou não)… Tudo a espera da descoberta do espectador.
É tudo tão circular, complexo e ao mesmo tempo simples, que fica difícil dizer algo numa resenha ou crítica. Principalmente sob o efeito “pós filme almodovariano”. O que se consegue fazer no máximo é mandar assistir. Ressaltar a obrigatoriedade de viver o cinema desse espanhol.
Como alguém poderia imaginar a história (hora de falar do filme finalmente não é mesmo?) de uma mulher que acaba de perder seu filho em situações trágicas, e que tenta superar a dor da perda ajudando o outro, se envolvendo na história de outras mulheres, tantas outras com problemas também, graves cada um a sua maneira. A busca pelas origens de seu filho (ela sai em busca do pai biológico do garoto) a leva a um novo começo. Isso é belo e ao mesmo tempo pesado demais.
Quando menos se espera, essa mãe, um travesti, uma atriz famosa, e uma freira grávida e soropositiva estão interligadas. Formam uma família, um pacto. Sem maiores finalidades a não ser uma: para que cuidem de si mesmas. A morte do filho vira mote para que as ligações se estabeleçam e se tornem mais fortes, não importando as decisões, distâncias…
Almodóvar não deixa de mostrar suas paixões em nenhum de seus filmes: o cinema, o teatro, a literatura. Quando vemos algo em cena temos certeza de que é algo que Almodóvar leu, viu ou viveu alguma vez na vida. Não há como não colocar em suas histórias (volto a dizer, não como mero exercício de estilo, como comumente vemos em certos diretores, mas porque uma coisa e outra são inseparáveis no momento da criação) as suas experiências. Seu amor pela capacidade (sobretudo a feminina) de atuar. É sobretudo isto que fica ao fim de Tudo sobre minha Mãe. E se há dúvidas disso no decorrer da trama (que a todo o momento remete à essa necessidade, facilidade e brilhantismo com que as mulheres o fazem), o recado final não deixa dúvidas: todas as mulheres que vivem mulheres, ou homens que vivem mulheres, na vida ou no cinema, são reverenciados por Almodóvar.
Por que o limite entre vida e obra de arte para ele é tênue. E o limite entre cinema e obra de arte quando se trata de Pedro Almodóvar também. Genial.

  • Cristiano Contreiras

    Parabéns pela resenha, captou bem o contexto do filme!

    ah, adoro Almodovar! abs

João

Filósofo, arte educador, amante de cinema, funk carioca e de uma boa conversa acompanhada de cerveja.