Crítica: Tudo Vai Ficar Bem (2015)

Alguém já te disse “tudo vai ficar bem?”. Você já proferiu isso para si próprio, ainda que em silêncio? Uma hora ou outra, mesmo durante um período ferrenho de problemas e turbulências, as coisas costumam melhorar. Mas os nossos tormentos sempre retornam. A dor é, inevitavelmente, parte da existência humana e você jamais vai poder fugir de tal fato, a não ser que você se iluda e crie mentiras para si próprio, numa tentativa de distanciar-se da angústia. Mas enfim, uma hora ou outra (ainda que mediante oscilações), tudo fica bem.

Os últimos trabalhos de Wenders foram documentários (bem sucedidos). Mas desta vez, para a felicidade dos fãs, o alemão voltou a trabalhar com aquilo que melhor o destaca em sua carreira, que é a ficção. E também, além do retorno ao gênero, temos neste filme um roteiro denso, uma fotografia caprichada com lindas paisagens naturais, e uma belíssima trilha sonora. Ou seja, ele voltou com tudo! E há uma novidade: o filme foi gravado em 3D, embora infelizmente, no Brasil, ele não vá circulará nesse formato por decisão da distribuidora “Mares Filmes”. De qualquer forma, o formato não é tão importante, pois Wenders sempre possui um carinho especial com o manuseio da câmera e capta muito bem o sentimentalismo dos seus personagens. Antes de destrinchar a obra, já antecipo e esclareço: quem é fã/admirador das obras de Wim Wenders, muito provavelmente vai ter uma recepção agradável com esse longa que possui as marcas típicas do alemão! Mas se você não é acostumado com o diretor, talvez sinta certa monotonia no ritmo e na montagem das cenas.

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Com um roteiro dramático escrito pelo norueguês Bjorn Olaf Johanne, “Tudo Vai Ficar Bem” conta a história de um escritor (interpretado por James Franco) cuja vida passa por uma transformação após ele, acidentalmente ter atropelado e matado uma criança. A partir desse acontecimento, que é o aspecto central do roteiro, a vida do protagonista vai tornando-se cada vez mais pesada pelas cicatrizes que sua consciência carrega por ter tirado a vida de um ser humano. E claro, metaforicamente, além de ter tirado a vida do menino, tirou também a sua. A cena do atropelamento é surpreendente, pois quando acontece, Tomas encontra uma criança (Christopher) caída na frente do carro, em estado de choque, mas ainda viva. Isso o alivia e ele socorre o menino dizendo “tudo vai ficar bem”. No entanto, definitivamente não iria “ficar tudo bem”, pois (SPOILER), o que ele não sabia, é que nas rodas traseiras havia outra criança, o irmão do garotinho socorrido. E esta outra criança estava morta. Um choque para Tomas, um susto para o espectador – e uma jogada genial de Wenders – . A vida segue e o escritor continua sendo perseguido pelo peso de seu ato. Assim, é possível notarmos uma onda de existencialismo na condição do personagem que sofre diariamente com uma lembrança que o aprisiona impiedosamente. Mas esse acontecimento também acaba criando um vínculo entre Tomas, a mãe do menino falecido e o irmão sobrevivente.

O tempo passa, e apesar das dores desses três personagens, o contato esporádico entre eles permanece vivo e esse é um fato que agrada o escritor. Mas após alguns anos, depois de um longo período de distanciamento entre eles, em que todos parecem estar se livrando dos traumas passados, Tomas recebe uma carta de Christopher pedindo para encontrá-lo. Inicialmente, ele nega o com medo de que seus fantasmas retornem, porém, depois acaba cedendo ao pedido. O encontro entre ambos é um dos auges do filme. Embora essas cenas não sejam longas, os diálogos são muito brilhantes e a situação, em si, é pesada, afinal, os dois havia se destruído por um ato passado que um deles original. Duas almas atormentadas e aniquiladas, frente a frente, cara a cara, num desabado de emoções e memórias infelizes. Essa conversa deixa claro que o jovem garoto não superou a morte do irmão. Aqui já estamos perto do termino do filme quando Christopher volta a procurar Tomas. Algo ainda os prende, por mais que queiram seguir o rumo de suas vidas como se nada tivesse acontecido. E assim, segue-se, simplesmente. Conforme declarei no primeiro parágrafo deste texto: “Uma hora ou outra, durante um período de problemas e turbulências, as coisas costumam melhorar. Mas os tormentos sempre retornam. A dor é, inevitavelmente, parte da existência humana e você jamais vai poder fugir de tal fato”. O final do filme, que não citar, é simples. E nessa simplicidade, é fiel à realidade de nossas vidas.

Conforme mencionado no início do texto, todo o filme, de forma geral (tanto tecnicamente quanto filosoficamente) mantém alguns traços que fizeram dele um dos diretores de cinema mais prestigiados da história (criatividade, estética, trilha sonora são exemplos). Wenders explicou que sua inspiração veio de tragédias pessoais de sua família. “A base da personagem de Jeanne Moreau em Até o Fim do Mundo foi uma tia minha que ficou cega. Creio que nada me influenciou tanto para que eu me questionasse sempre sobre o significado e a importância das imagens. O bom do roteiro de Bjorn foi que, pela primeira vez, me permitiu abordar o tema com distanciamento.” E complementou seu comentário com uma dose de crítica ao cinema atual: “Vivemos uma era de saturação, de imagens vulgares, que não dizem nada, e o cinema contribui muito para isso. A fotografia e a pintura têm me ajudado muito“.

Numa era em que a maior parte das produções cinematográficas (em especial, e diretamente falando, é claro, as hollywoodianas) são extremamente vazias, pobres e enlatadas, e que tornam o cinema um mero passatempo incapaz de agregar algo nos espectadores, graças a artistas como Wim Wenders, ainda nos deparamos com filmes potentes, que imergem-nos numa serenata artística, e nos convidam a filosofar sobre o mundo e nossa condição existencial. Wenders massacra (merecidamente) o cinema comercial com mais essa pintura com a qual nos presenteou!

Juliana Vannucchi