Cinema por quem entende mais de mesa de bar

Um Beijo Roubado

(My Blueberry Nights). de Wong Kar-wai. Com Norah Jones, Jude Law, David Strathairn, Natalia Portman, Rachel Weisz.

Em meu post de Amor à Flor da Pele, já anunciava minha expectativa para o novo trabalho de Wong Kar-Wai. O que poderíamos esperar de um filme de um diretor com uma sensibilidade muito particular, e com um grande elenco em mãos? A resposta é Um Beijo Roubado, um bom trabalho de Kar-Wai, embalado por uma fotografia e trilha sonora belíssimas (marca registrada do diretor), e ainda com pequenas grandes histórias sobre solidão e despedida; e é claro, sobre o amor, mas que não impressiona tanto quanto Amor… ou 2046.Após uma bela abertura ao som de Norah Jones, somos apresentados a Jeremy (Jude Law), dono de um bar que tem a estranha mania de caracterizar seus clientes pelos pratos que comem. Recentemente abandonado por sua namorada, esconde uma certa solidão embora sempre rodeado de pessoas, e sente uma melancolia ao rever as fitas da camêra de segurança do local, e perceber o quanto de sua vida passa por seus olhos sem que perceba (ele desistiu do sonho de dar a volta ao mundo registrando tudo em um diário, pra viver um amor, e agora faz das camêras esse registro).Certo dia entra em seu bar Elizabeth (Norah Jones), ou Lizzy para os íntimos, que também está sofrendo por ter sido deixada, e como toda pessoa que sofre por amor, sente uma estranha necessidade de falar a respeito. Ela acaba criando uma ligação com Jeremy, quando começam a se ver todas as noites, enquanto Lizzy come as tortas de blueberry (“pra que se mantenha sóbria”, segundo as palavras da moça), e falam sobre a vida. Quando Jeremy diz que de nada adianta ficar parado, esperando pela pessoa da sua vida, Lizzy parte para uma viagem através dos Estados Unidos, sem um destino certo, mas com um objetivo: encontrar a si mesma. O que ela não sabe, é que Jeremy está apaixonado por ela.No momento em que Lizzy deixa o restaurante, ouvimos uma música da trilha de Amor à Flor da Pele. Em comum com aquele filme, os tons fortes sempre retratados em planos feitos através de espelhos, vitrines e luzes de neon. Também os personagens que falam frases quase poéticas com a facilidade de uma conversa corriqueira. A resposta que Jeremy dá a Lizzy sobre por que ele não jogas as chaves dos clientes fora, por exemplo, e o reecontro com sua ex-namorada, numa bela participação de Cat Power (que tem sua linda The Greatest na trilha).Os personagens que Lizzy vai encontrando no caminho, mesmo representados por grande atores, pode-se dizer, não são bem desenvolvidos. A história de Arnie (David Strathairn) e de Sue-Lynne (Rachel Weisz) , como um casal que não sabe o que fazer com o grande amor que sentem um pelo outro, e que se dá conta desse sentimento tarde demais; e de Leslie (Natalie Portman), como uma viciada em jogos, que tem problemas com seu pai, nunca emocionam de verdade, embora tenham seus momentos (a conversa de Lizzy e Sue-Lynne, e a cena de Natalie chorando, são muito bonitas). Sem falar na beleza de suas intérpretes. Mas ainda sim temos a impressão de que estas histórias só serviram para que a personagem de Norah se reconhecesse, e visse que (nas palavras da personagem) o reflexo de si mesma que encontrou as outras pessoas, realmente é o que buscava.Mas o ponto forte do filme, é mesmo a interação de Norah e Jude Law. A sintonia dos dois é perfeita, e a cena final (com uma pequena insinuação sexual, representada pela imagem da torta) é de tirar o fôlego. E, é claro, a direção de Wong Kar-Wai, mostrando em cenas lindamente concebidas, que um silêncio, e um olhar, valem realmente mais que mil palavras.

 

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