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Um Novo Despertar

TODOS QUE ACOMPANHAM A CARREIRA DE JODIE FOSTER sabem de sua tendência para o lado “dark” da força. De Iris à Érica Bain suas personagens sempre foram conturbadas, traumatizadas e extremamente problemáticas. Essa parceria entre Judie e os distúrbios do comportamento humano já vem de tempos, e creio que ela não podia ter escolhido tema melhor nessa sua escalada como grande diretora.

The Beaver (título original da obra) conta a história de Walter Black, típico americano atingido pela selvageria do mundo capitalista que vivemos hoje. “Knocked down” pelas adversidades da vida Walter entra em um longo processo de depressão. Já não interage mais com sua família, é um “loser” no trabalho e age praticamente como um autista em relação a todos que o cercam. Frente a isso sua mulher Meredith o expulsa de casa, consequentemente o forçando à uma situação de Xeque, é quando Walter encontra sua salvação… O Castor.

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A primeira obra de Kyle Killen é conduzida com muita sensibilidade por Jodie. A abordagem da depressão de meia idade, problema extremamente comum hoje em dia; o olhar sério e sensível para a alma do personagem, seus distúrbios e emoções, não só do personagem principal, porém de todos os outros do longa. Judie dá um show de continuidade e fluxo em uma história que poderia muito bem ficar com cara de travada (lembram-se de Reencontrando a Felicidade e a prisão de ventre de Nicole Kidman, pois é, não há superstar que salve uma história sem andamento).

Após achar seu amigo “The Beaver” Walter passa a interagir com as pessoas através do fantoche, e convenhamos que qualquer progresso em uma pessoa de personalidade quase que totalmente apática já é comemorável. Seu relacionamento com o filho mais novo e com sua esposa melhora, porém apenas seu filho mais velho Potter (vivido pelo novo queridinho dos undergrounds Anton Yelchin de Like Crazy) parece enxergar o real dano que absorção de um álter ego fará ao seu pai.

Potter não aceita de jeito nenhum a loucura de seu pai, até quem em determinado momento do filme todos chegam à mesma conclusão: o que era fofo e bonitinho se torna mórbido. Walter não consegue mais se livrar de sua nova personalidade que acaba deteriorando novamente seus relacionamentos e sua personalidade até leva-lo novamente ao fundo do poço.

Mas é aí que creio que esteja o erro magistral de Jodie: o filme é óbvio! Nada subentendido, nenhum suspense, nenhum “twist”… E toda vez que temos alguma dúvida sobre a personalidade de Walter, lá está o castor didático para nos elucidar. Aliás o castor disputa pau-a-pau a telona com Mel Gibson, começando como fofo, tornando-se pedante e depois extremamente psicopata. E o que realmente salva o filme da total simplicidade é a atuação de Gibson, é incrível como ele consegue reproduzir no fantoche todos os movimentos que faz com o rosto ou com a cabeça, chega a ser bizarro… Isso que é atuar!

No fim das contas Um Novo Despertar cumpre sua tarefa de levar um grande problemas as telas e esclarece-lo. Também conta com um elenco afiadíssimo e uma continuidade de dar inveja à muitos dramas lentos que vemos por aí… Mas o sentimento que fica é de realmente poderia ter sido bem melhor e muito mais incisivo.


The Beaver, 2011
Direção: Jodie Foster
Roteiro: Kyle Killen
Elenco: Mel Gibson, Jodie Foster, Anton Yelchin e Jennifer Lawrence

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