Vem dançar comigo

Stricly Ballroom, de 1992.

Cinema australiano é muito interessante. Lembra um pouco a intensidade do Almodóvar, com suas cores fortes e aquele exagero kitsch. Vem dançar comigo fez sucesso quando foi lançado, em especial pela trilha sonora e pelo sensual Paul Mercurio, intérprete de Scott Hastings, o bailarino rebelde. O filme é dirigido por Baz Luhrmann, que depois dirigiu Romeo + Juliet (1996) com Leonardo DiCaprio, Moulin Rouge (2001) e o criticado Australia (2008).

Nesta estreia, Baz mostra a rebeldia de um dançarino contra as regras rígidas da federação. Na Austrália, a dança é considerada um esporte e a rebeldia de Scott é apresentada como um grande ponto de tensão. A montagem contrapõe o depoimento de seus familiares com os passos proibidos que o dançarino introduz em uma apresentação, dando um toque de documentário às lamúrias de sua mãe, uma ex-dançarina exagerada e nariguda – um nariz que lembra do que Nicole Kidman usou em As Horas. Os personagens são todos exagerados, seja na atuação, no figurino, nos cabelos e na maquiagem. Normal mesmo, gente como a gente, parece só ser Fran, uma garota que estuda dança há dois anos, ainda sem ter um par, admira Scott de longe, por trás dos óculos. Ela é feiosa, desajeitada e desprezada, criada por uma família que, mesmo rígida, não é caricaturada com exageros.

Scott, por sua rebeldia, é abandonado pela parceira e precisa escolher, em 3 semanas, sua nova partner. Fran, num ato de extrema coragem, pede para treinar com ele. Secretamente, os dois dançam, sempre no escuro. Até que Scott acha que Fran está no caminho certo e pergunta se ela pode dançar sem óculos. A partir daí, todas as cenas de dança do casal são iluminadas – a primeira vez por um enorme painel luminoso da Coca-cola. A proposta dos dois é dançar na competição mais importante, o Pan-pacific de dança latina, e apresentar os passos que a federação proibe.

O treino dos dois, com ou sem luz, é ao som de Time after time, de Cindy Lauper. Os toques espanhóis, que vêm do contato com a família de Fran, pontuam a mudança de Scott. A avó espanhola de Fran é o mago que vai fazer o dançarino sentir a música com o coração. Como uma epifania, Scott finalmente descobre o sentido da dança e caminha para o final, que é lindo e romântico (ai, ai…), ao som de Love is in the air.

O melhor do filme não são as danças ou as músicas, ou o final previsível, mas os figurinos, o cabelo e a maquiagem absolutamente over, que nós todos pudemos ver outra vez em Priscilla, a rainha do deserto, lançado dois anos depois. O exagero da produção é tão absurdo que enche os olhos com o glamour paraguaio.

O filme recebeu o prêmio da juventude na categoria de filme estrangeiro em Cannes, em 1992 e foi indicado ao Globo de Ouro de melhor comédia ou musical em 1994. Está no livro 1001 filmes para ver antes de morrer.

Ah, não veja acompanhado por pessoas que não gostam de musical nem de dança! Faz mal à saúde.

Aline Monteiro

Sou da ala mineira do CdB. Aliás, da ala mineira do interior. Sou de Ouro Preto, cidade com um único e solitário cinema, sem programação comercial, mas com um festival anual que traz sempre filmes novinhos em folha. Aqui, raramente vou falar de lançamentos. Só de filmes que já foram, mas que ainda fazem a gente suspirar.