Vizinhos

Vizinhos

O NOVO BESTEIROL AMERICANO diz respeito à todas as produções que destinam-se ao público adolescente e jovem por abordarem, especialmente, os cenários com os quais estes se identificam ou dos quais eles desejam vir a participar – ou seja, normalmente abordando o contexto temporal universitário, regado a festas, sexo, drogas e com muitas coisas dando errado. Títulos como American Pie – e suas continuações -, Madrugada Muito Louca e Superbad, por exemplo, são seus principais expoentes – uma modernização do besteirol americano oitentista, marcado por seus bailes de formatura e fugas da escola. Vizinhos marca uma interessante mudança neste novo besteirol, amadurecendo seus protagonistas e conflitando-os com a geração que vive esta fase.

Protagonizado por Mac (Seth Rogen, responsável pelo divertidíssimo É O Fim) e Kelly Radner (Rose Byrne, de Os Estagiários), um casal – adorável, por sinal – que acaba de ter uma filha, Stella, e se vê na difícil fase de transição entre o passado recente, época de faculdade, quando eram solteiros e farreavam – um termo que me fez sentir idoso ao empregá-lo – ao máximo até algumas estações atrás, e o presente, quando percebem-se entrando na rotina aborrecida de um casal em meia idade, embora ainda não tenham idade para isto. A conflituosa transição é atenuada pela chegada de uma república universitária que passa a morar na casa vizinha, trazendo consigo todos os elementos citados no primeiro parágrafo, que caracterizam a retratação desta fase no gênero. Inicialmente convivendo harmonicamente, logo surgem os conflitos entre o casal e os jovens, que ganham proporções cada vez maiores – e embora possam ser cessados por algumas oportunidades, nota-se que os dois grupos acabam dependendo disso, pois enquanto o casal observa aquilo como seu passado, os estudantes enxergam nos Radner o seu possível futuro.

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Por mais que a estrutura do longa seja até esquemática, no sentido de ser previsível que, no segundo ato, surgirá uma série de “pegadinhas” pregadas por ambos os lados para prejudicar seu oponente, é interessante como se estabelece um choque interessante, também, de personalidade, entre seus protagonistas. Enquanto Teddy Sanders (Zac Efron, de Namoro ou Liberdade), o líder do grupo, exibe a invulnerabilidade habitual às pessoas que seu personagem representa, é perceptível que, por dentro, ele teme o vindouro futuro, sobretudo ao observar um sujeito claramente vulnerável como Mac, e que, provavelmente, caracterizou este comportamento na fase de juventude. Já Pete (Dave Franco, de Truque de Mestre) demonstra mais expositivamente sua preocupação e, assim, é mais maduro do que seu melhor amigo, embora jamais deixe de aproveitar; um receio que Kelly demonstra ter vivido no passado, por, provavelmente, ter preocupado-se demais quando ainda não deveria.

Claro que, em nome do humor, o roteiro de Andrew J.Cohen e Brendan O’Brien (de O Virgem de 40 Anos) precisou sacrificar alguns elementos da narrativa. Esqueça da lógica, por exemplo, no momento em que Mac, após afirmar que haviam quatro airbags no carro – e todos os quatro já estouraram em diferentes lugares -, continua à procura de mais um airbag em algum lugar, apenas para a continuidade da sequência, ou mesmo, quem explica como os estudantes invadiram o escritório onde o sujeito trabalha para instalar um dos airbags em sua cadeira? Pois é, acho duvidoso que alguém consiga. Esqueça também certas consequências, como o fato de o tal equipamento poder ter ferido mortalmente a pequena Stella, ou mesmo a polícia jamais tomar qualquer atitude em relação às reclamações do casal.

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Vizinhos também invade certas questões morais perigosas, como ao sugerir que há a necessidade de apropriar-se de boas quantidades de conservadorismo para dizer-se “maduro” – o que os Radner tentam evitar de qualquer maneira, é verdade -, e, sobretudo, ainda sugerindo que, para ser visto como um adulto bem-sucedido, existe a necessidade de se possuir um diploma universitário na parede – isto, por sua vez, é algo que Teddy tenta subverter.

Felizmente, a produção, que poderia ferir-se ainda mais pela falta de lógica e sugestão de certas morais duvidosas, entrega-se integralmente em nome do humor e consegue ser bastante bem-sucedida em seu propósito. Enquanto Seth Rogen e Zac Efron entregam-se completamente ao exagero da oposição entre seus personagens, Rose Byrne rouba a cena por algumas vezes com a falta de pudor e subversão ao estereótipo da “mãe de família tradicional” provocados por sua personagem. As referências pop – habituais aos projetos de Rogen e companhia – pipocam aqui e ali, algumas de maneira eficiente, em meio à uma comédia que não incomoda-se com a classificação indicativa, brincando com temas adultos e, assim, conseguindo ser também surpreendente madura e absolutamente divertida, sem chegar a ser ofensiva ou preconceituosa – a não ser para o casal presente na minha sessão que decidiu levar a filha, lá por seus dez anos, para ver o filme, e decidiu abandonar a sala de projeção após Mac Radner ordenhar os seios de sua esposa.

É, a família Radner deveria ganhar um título, por deixar os estereótipos conservadores de lado e decidir aproveitar a vida como qualquer pessoa tem direito, tendo filhos ou não. Ganhou uma comédia bem divertida. E por isso mesmo, provavelmente ofensiva às famílias que decidem seguir o tal estereótipo.

P.S.: Dave Franco ainda teve a oportunidade, durante a projeção, de provar-se um potencial grande imitador de Robert De Niro, durante uma das sequências mais engraçadas do longa.

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Leonardo Lopes

Eu já sabia que ia terminar assim. Estudante de Jornalismo (FAAP-SP). Tenho o Cinema e a comunicação como grandes (únicas?) paixões. Marxista e pessimista. Saudosista e louco.
Colunista do Cinema de Buteco e membro da Sociedade Brasileira de Blogueiros Cinéfilos.