Crítica: X-Men 2, de Bryan Singer
Aventura Críticas de filmes

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A MEMORIA AFETIVA COSTUMA PREGAR PEÇAS NA GENTE, especialmente quando se trata de revisitar algumas obras consideradas “incríveis” na época de seus respectivos lançamentos. É frustrante quando descobrimos que tal filme só era bom naquele momento, e que hoje é uma porcaria tão imensa que você se sente envergonhado de um dia ter elogiado aquilo. Em 2000, pouco mais de 10 anos atrás, o primeiro X-Men chegava aos cinemas e começa a garantir um lugar dos heróis no mundo do cinema após Blade – O Caçador de Vampiros e tantas versões de Batman. Era parte da primeira fase da história das adaptações de quadrinhos e o cineasta Bryan Singer merece muito crédito por isso, independente de não ser lá tão interessante assim.

X-Men foi levado para as telas não apenas trazendo um grupo de personagens com poderes especiais e a missão de salvar o mundo. O roteiro inteligente incluiu críticas sociais, falando da segregação, preconceito etc. Aqueles heróis não eram santos salvadores amados por toda a população. Os mutantes eram marginais da sociedade. Perseguidos unicamente por serem diferentes, pelo medo de representarem uma ameaça para aqueles que não os compreendiam. Tudo isso inserido no meio do bom e velho plot de herói lutando contra vilão, além de um elenco muito bem representado por Patrick Stewart, Ian McKellen, Halle Berry, Famke Janssen, Anna Paquin, e um, então desconhecido, Hugh Jackman no papel de Wolverine.

Singer foi elogiado por conseguir trabalhar em cena com tantos personagens, algo que Joss Whedon conseguiu com muito mais mérito, e qualidade, em Os Vingadores. É interessante observar que os X-Men, por mais que cada integrante seja importante, não foram retratados como pessoas individuais anteriormente, como aconteceu com Capitão América, Thor, Hulk e Homem de Ferro. Wolverine é o cara do grupo e os outro são coadjuvantes de luxo. Até o vilão Magneto representa mais do que o chato almofadinhas Ciclope. Trabalhar com tantos personagens certamente não deve ser fácil, e na época era uma grande novidade ter essa coisa de um “super grupo” reunido, então Singer merece certo crédito. Mas a missão dele não foi tão complicada assim.

A sequência seria lançada em 2003, quando Hulk, de Ang Lee, e Homem-Aranha, de Sam Raimi, já tinham ganhado as telas de cinema do mundo. X2 conseguiu manter as importantes críticas levantadas no original, e ao mesmo tempo investiu ainda mais na ação e no carismático Wolverine, cujo passado é essencial para o desenvolvimento do roteiro. Talvez fosse um problema da época pré-Nolan, quando produções do gênero eram ainda consideradas como entretenimento raso para parte da crítica e os espectadores subestimados (ou talvez seja apenas mais um exemplo da incompetência de Singer em usar uma câmera com sabedoria), mas os defeitos do filme anterior persistiam: a necessidade de mostrar que Mística está no corpo do político, aqueles olhos brilhando ficaram bobos demais; assim como ser extremamente expositivo e não deixar que o próprio público tire suas próprias conclusões.

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A participação de novos mutantes, como o querido Noturno, e a continuação do drama de Jean Grey e sua transformação em Fênix Negra, num claro exemplo de planejamento de trabalhar desde o primeiro filme com o conceito de uma trilogia, são fatores positivos e que apenas acrescentam para o legado da série no cinema. O vilão William Stryker representa uma ameaça “real” e perigosa para o futuro daqueles que são diferentes, afinal foi capaz de manipular ninguém menos que o poderoso Magneto e invadiu a Mansão X sem a menor cerimônia.

Ian McKellen é um ator inquestionável. E mesmo se fosse ruim, eu não me atreveria a falar mal do Gandalf, o Cinzento por essas bandas. Prezo pelo Cinema de Buteco e minha saúde. Magneto continua sendo o que há de melhor no X-Men, assim como já tinha ocorrido no filme anterior. Percebi uma certa referência ao trabalho do igualmente genial Anthony Hopkins, em Silêncio dos Inocentes. Talvez pela classe com que o personagem anda em cena, ou por ser simplesmente um vilão impossível de ser odiado. Jackman também merece elogios por sua interpretação e se mostra mais confortável, confiante e ciente de que os fãs apreciarão qualquer coisa que ele faça.

Me recordo do êxtase em que fiquei quando vi a introdução de X2 pela primeira vez. Comentários exagerados, dignos de um adolescente punheteiro, davam conta de que aquela sequência incrível (e é mesmo sensacional até hoje) era a melhor coisa do cinema, enfim, reações eufóricas e tão comuns para gente empolgada e altamente impressionável. Singer, volto a dizer, não me convence como diretor por não possuir uma assinatura visível, e muitos críticos apontam uma certa deficiência em conduzir cenas de ação. Pelo menos durante a surra que o Noturno deu nos seguranças do Presidente norte-americano, o cineasta fez um excelente trabalho. Sem dúvida é um dos melhores momentos da franquia X-Men nos cinemas.

Outra cena de destaque é quando Bobby (Shawn Ashmore) vai visitar os seus pais e revela que é um mutante. Tudo foi feito de maneira irônica, como uma metáfora para quando um jovem decide contar para os pais que é gay. Bobby está apoiado em sua namorada, Vampira, e observado por Pyro e Wolverine, enquanto seus pais estão desconsolados. Chegam ao cúmulo de perguntar: “Mas você não pode escolher não ser mutante?”, como se fosse apenas uma questão de escolha. Logo após o constrangedor (para os personagens envolvidos, não para o espectador) diálogo, acontece um momento chave para apresentar a verdadeira natureza do inconsequente e cruel Pyro.

X2 é o maior exemplar da série até o momento, com aproximadamente 134 minutos. Por pouco não foi superado por X-Men: Primeira Classe, que na minha opinião é de longe o melhor filme dos mutantes. Ao contrário da trilogia inicial, e das duas obras baseadas no universo do Wolverine, Primeira Classe consegue ser mais adulto e mistura com maestria efeitos especiais, roteiro e performance dos atores. Claro que Matthew Vaughn é um cineasta bem mais interessante para comandar ação do que Singer, e ainda contou com um elenco inspirado, encabeçado por Michael Fassender e James McAvoy. A longa duração de X2 não chega a incomodar, afinal existem muitas coisas para serem desenvolvidas e trabalhadas, como a transformação de Jean e o resgate do Professor X.

X2 continua a série com a mesma qualidade do longa anterior. Houve um tempo, na época da empolgação eufórica, em que o considerava a continuação superior, mas hoje é fácil perceber os méritos do primeiro filme. Uma pena que o terceiro filme tenha enterrado a franquia depois de passar por diversos problemas durante sua etapa de pré-produção, como por exemplo Bryan Singer trocando os mutantes pelo Superman, personagem da editora rival da Marvel. E pensar que ainda tem gente que defende o cara por aí. Difícil entender, né?

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Nota:[tres]

Tullio Dias

Dizem que sou legal, mas eles estão mentindo só para me agradar. Gosto de Molejo, acho Era Uma Vez no Oeste uma obra-prima, prefiro baixo de quatro cordas do que os de cinco, tenho um MBA de MKT Digital e um curso de Publicidade, não tenho filhos, não tenho um coração, mas me derreto por caipirinhas.