Crítica: Zoom (2016)

NÃO HÁ OUTRA SAÍDA SENÃO LAMENTAR pelo intelecto daqueles que insistem na falácia de que “Cinema nacional não presta”. Já tentamos, das mais diversas formas, apresentar a abundância de obras cinematográficas produzidas em solo tupiniquim, cobrindo os mais variados gêneros, abordagens narrativas e momentos históricos, mas estes sujeitos obviamente não estão dispostos a abrir suas pequenas mentes. Assim sendo, que a insistência não persista: não gastarei mais tempo ou palavras tentando reforçar uma ideia acessível e estabelecida. Ao menos, nós conscientes desta realidade ficamos com a exclusividade de títulos como Zoom, possivelmente a grande “denúncia” desta verdade – e o fato de ser uma coprodução canadense está muito longe de invalidar este discurso: uma transição entre linguagens, técnicas e estéticas tão distintas num mesmo filme só depõe a favor do fato de que no Brasil há, sim, um Cinema extremamente frutuoso – e que não se discuta mais isso.

Partindo de uma premissa que até o próprio diretor Pedro Morelli assumiu ter tido dificuldades para sintetizar, o roteiro do próprio em conjunto com Matt Hansen toma forma real no momento em que decide justamente subvertê-la: o ciclo infindável formado entre as histórias de Emma (Alison Pill), Edward (Gael García Bernal) e Michelle (Mariana Ximenes) despe-se de qualquer linearidade ou emprego de uma ligação tradicional entre as subtramas – afinal, a ligação parte dos próprios, envolvidos diretamente com a história traçada para o outro, e não é possível “desconscientizá-la”. Certamente soará como algo maluco – e que bom que o seja, neste caso.

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“O que importa não é sobre o que é um filme, mas como ele é sobre aquilo.” afirmava Roger Ebert, grande crítico estadunidense falecido em 2013; a aplicação da máxima rebate perfeitamente aqueles que podem detratar Zoom em decorrência da falta de objetividade ou mesmo sentido lógico de sua trama – afinal, trata-se de ficção-em-ficção, e uma história mentalmente desenvolvida, como um sonho, não obedece convenções existentes na realidade -, uma vez que o desenvolvimento da forma e da linguagem na obra, aliados ao conteúdo ideológico da mesma, são suficientes para sustentá-la na maneira como esta é construída. Dentro deste segundo aspecto, observe o entrelaçamento entre as três subtramas para a realização de uma crítica à sociedade de aparências, pautada por uma doutrinação machista e primordialmente capitalista – mais explicitamente, a simpática Emma chega a fazer uma cirurgia plástica para tornar-se mais “atraente”, depois sofrendo com olhares agressivos e assédios verbais; suas bonecas adequam-se assustadoramente a estes padrões, e a relação carnal dos homens com estas diz muito a respeito da objetificação da mulher; paralelamente, Michelle é completamente descreditada intelectualmente por um determinismo material que a obriga a apropriar-se de seus “dotes visuais” profissionalmente; e na camada mais sutil, partindo de uma reflexão sugerida após a exibição pelo próprio Morelli, observe como mesmo Edward sofre com esta objetificação, sendo o estereótipo do homem-objeto, viril e autoconfiante, “como um homem deve ser”. É admirável como o projeto de fato se debruça sobre esta crítica – desenvolvendo-a sob óticas distintas, de modo a aprofundá-la devidamente.

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No entanto, a grande virtude da execução de Zoom se dá mesmo em sua ousadia e habilidade em experimentações de estética, forma e linguagem. O caráter propositalmente cartunesco – “progressão do look da animação como a progressão das etapas do trabalho de um cartunista”, afirma o diretor – contamina não apenas a trama do cineasta, como toda a narrativa – afinal, todas contam com um tom imaginativo, partindo sempre de uma criação ficcional de histórias, assumindo a função de realizar a relação visual entre os segmentos, enquanto as estéticas particulares de cada terço da produção progridem de maneira colapsante, através do uso dos 12 frames por segundo e da intensificação da paleta de cores na medida em que a catarse de consciência dos protagonistas se aproxima. Destaca-se sobretudo a tomada de risco de imergir profundamente na proposta da ficção-na-ficção, exposta especialmente na câmera exageradamente inquieta da subtrama de Michelle, característica marcante de diretores inexperientes que, buscando se provar artisticamente e encontrar uma assinatura, encontram na movimentação incômoda da câmera a melhor maneira de fazê-lo – e não, de forma alguma estou falando de Pedro Morelli, mas do próprio Edward; afinal, naquele momento, o diretor também passava a atuar: assumia o papel do cineasta que ele mesmo havia criado.

O risco tomado e o estranhamento provocado por este comprovam que Pedro Morelli tinha absoluta noção do significado de sua obra: histórias que crescem além de seus próprios autores, transcendem suas próprias linguagens.

Estreia nacionalmente em 31 de março.

Zoom-Poster

Leonardo Lopes

Eu já sabia que ia terminar assim. Estudante de Jornalismo (FAAP-SP). Tenho o Cinema e a comunicação como grandes (únicas?) paixões. Marxista e pessimista. Saudosista e louco.
Colunista do Cinema de Buteco e membro da Sociedade Brasileira de Blogueiros Cinéfilos.