Crítica: Aprendi a Jogar com Você – Mostra de SP

Aprendi a Jogar com você

38ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo #38

O DJ Duda descoberto por Murilo Salles é mais um dos milhares de brasileiros que, vítimas de um berço pouco ou nada privilegiado, privado de perspectivas de uma carreira “tradicional” financeiramente estável e carregando um sonho de sucesso debaixo do braço, decidiu jogar-se de cabeça na vida dura da informalidade, correndo de segunda a segunda atrás de cada pequeno detalhe que envolve a administração de seu negócio, apertando daqui e dali para conseguir pagar todas as contas e oferecer uma vida minimamente confortável à mulher e aos filhos e, com uma lábia típica de comerciante – e de brasileiro -, investindo o dinheiro que sobra na divulgação de seu trabalho – ou, como ele prefere dizer, na “agregação de valor ao produto”.

Como você pode perceber ao ler o parágrafo acima, o documentário Aprendi a Jogar com Você não é só sobre a batalha de um cantor pop-brega para conquistar a independência financeira, mas sobre todo um “jeitinho brasileiro” de driblar as portas fechadas pela desigualdade de nossa sociedade através da criatividade e, claro, daquela “trambicagem do bem”.

Extremamente comunicativo e persuasivo apesar do linguajar humilde, Duda é daquelas pessoas que têm coragem para “meter as caras” e que, se tivessem um pouco mais de organização e planejamento, poderiam alcançar resultados muito maiores que os atuais – e é sempre divertido perceber como, ao centralizar um milhão de tarefas (ele negocia com bares e pequenas casas de shows, assina contratos com prefeitos e empresários, escolhe e contrata músicos e dançarinas, ensaia, canta, produz os CDs, os distribui, faz a contabilidade, etc), o sujeito nunca consegue evitar que as mais importantes sejam deixadas para a última hora, como podemos concluir no momento em que ele pede a um músico recém-contratado que “tire” 60  músicas (!) nos três dias que os separam do primeiro ensaio para o Carnaval.

Morador de uma casa humilde e extremamente simpático com todos, o protagonista de Aprendi a Jogar com Você revela-se também um homem determinado a manter todos os envolvidos em seu negócio na palma de suas mãos, mesmo que precise utilizar métodos não muito admiráveis para isso. É extremamente honesto da parte de Salles, aliás, revelar as manipulações e “picaretagens” do sujeito, que em um momento pede para que o cineasta invente um final feliz para o filme caso sua próxima turnê não seja bem sucedida e em outro revela sua estratégia para jogar a culpa em um guitarrista caso um importante show que ainda não está fechado (algo que só ele sabe) não se concretize, criando uma briga durante os ensaios e atribuindo a ela a quebra do contrato.

Ao revelar as fraquezas de Duda (que ainda mostra-se extremamente estúpido e arrogante em uma discussão com a esposa) e deixar que seu documentário decida seus próprios rumos ao invés de ditá-los a priori (uma lição que todo documentarista já deveria ter aprendido), Salles humaniza aquele homem e transforma seu longa em um eficiente estudo de personagem, indiretamente retratando uma figura muito comum em nosso país, a do cara simples e arrojado que compensa sua deficiência educacional e cultural “colocando a mão na massa” sem vergonha de se jogar no mundo.

Com uma montagem dinâmica que salta de maneira orgânica de um momento ao outro não permitindo sequer que sintamos suas grandes elipses, Aprendi a Jogar com Você é um doc simples e eficiente em seu humanismo bem brasileiro.

Confira também a entrevista exclusiva do Cinema de Buteco com Murilo Salles.

Aprendi a Jogar com Você (Idem, Brasil, 2013). Escrito e dirigido por Murilo Salles.

João Marcos Flores

Crítico de Cinema associado à OFCS (Online Film Critics Society, a maior associação de críticos online do mundo, sediada nos EUA) e editor do blog Cineviews.