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Crítica: As Bruxas de Zugarramurdi – Mostra de SP

38ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo #13

As Bruxas de Zugarramurdi

Se este crítico que vos escreve quisesse ser 100% prático ao escrever sobre, diria apenas que discuti-lo por um prisma analítico representa um grande desperdício de tempo (ainda mais em meio à correria da Mostra), uma vez que este é um filme de nicho: enquanto o espectador que não costuma apreciar as extravagâncias banhadas a sangue lançadas pelo diretor espanhol Álex de la Iglesia dificilmente mudará de ideia sobre o cineasta ao final da projeção, os fãs do sujeito certamente se divertirão com o show de gore, fetichismo e bizarrices que atravessa a tela ao longo da projeção, enxergando metáforas, referências e humor negro em cada nova gag criada por ele; já quem não viu sequer Balada do Amor e do Ódio, seu longa mais popular fora de seu país, dificilmente sentirá o menor interesse em ler o que quer que seja a seu respeito, tornando este texto automaticamente irrelevante.

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Como não é difícil perceber pelo parágrafo anterior, o crítico em questão faz parte do primeiro grupo; julgando por Balada do Amor e do Ódio e As Bruxas de Zugarramurdi, ele vê Iglesia como um diretor fascinado pelo universo trash que não consegue nem assustar nem criar tensão nem extrair humor de seus universos repletos de violência gráfica, acreditando que B que se assume B torna-se automaticamente digno de nota, o que está bem longe de ser verdade.

Escrito por Iglesia ao lado de Jorge Guerricaechevarría, As Bruxas de Zugarramurdi tem início com uma sequência extremamente inusitada em que um assalto a uma loja de compra e venda de ouro é executado por “estátuas vivas” de um soldado e de Jesus Cristo, um homem fantasiado de Bob Esponja e uma criança em que seu diretor já deixa bem claro um dos maiores problemas de seu trabalho: razoavelmente divertida por seu nonsense extremo, a sequência peca simplesmente por não fazer o menor sentido do ponto de vista da motivação dos personagens, que explicam sua decisão de criar as fantasias dizendo justamente porque não queriam chamar a atenção. Ou seja, dane-se a contradição, já que o que realmente importa é o efeito cômico criado pela imagem de personagens associados ao universo infantil empunhando armas, falando palavrão e espancando quem cruzar seu caminho, não é mesmo?

Ao longo de seus 112 minutos de projeção, aliás, o filme conta uma história absurda que desperdiça ideias até interessantes com sua execução capenga e sem graça: após fugir da polícia que os perseguia por seu assalto, a gangue formada por José (Silva), Antonio (Casas), Calvo (Nieto), o pequeno Sergio (Delgado) e o taxista Manuel (Ordóñez) vai parar em uma cidadela que logo se revela infestada de bruxas. Lá, a bela sanguessuga Eva (Bang) – sim, porque elas se comportam como vampiras – começa a flertar com José e os rapazes descobrem que o plano daquelas mulheres é devorá-los no jantar.

As Bruxas de Zugarramurdi

Voltando a associar mulheres voluptuosas, seminuas e em insinuações sexuais – especialmente sua musa, a maravilhosa Carolina Bang – a violência gráfica, como se o prazer oferecido pela observação de ambas se equivalesse (a cena em que Eva se banha no sangue de um sapo vestindo apenas uma apertada lingerie de couro parece saída de um soft porn barato dos anos 90), Iglesia cria um filme extremamente sexista que ainda consegue usar a bruxaria como uma metáfora da histeria feminina, chegando ao ponto de fazer com que Eva faça um escândalo e queira “discutir a relação” com José em plena cena clímax da projeção, agindo como uma bipolar psicopata que ratifica o argumento desenvolvido o tempo todo de que as mulheres são a ruína de todos os homens.

Repleto de diálogos de doer os ouvidos e com uma estética over que abusa da câmera na mão e na montagem picotada da forma mais deselegante que existe, As Bruxas de Zugarramurdi não funciona como terror, não funciona como suspense e não funciona como comédia do absurdo, servindo apenas para a satisfação do fetiche de seu diretor de misturar Emmanuelle e as “Noites do Terror” do PlayCenter.

As Bruxas de Zugarramurdi (Las Brujas de Zugarramurdi, Espanha, 2014). Dirigido por Álex de la Iglesia. Escrito por Álex de la Iglesia e Jorge Guerricaechevarría. Com Hugo Silva, Mario Casas, Pepón Nieto, Carolina Bang, Terele Pávez, Jaime Ordóñez, Gabriel Ángel Delgado, Santiago Segura e Macarena Gómez.

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