Crítica: Burroughs: O Filme, de Howard Brookner
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Crítica: Burroughs: O Filme – Mostra de SP

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38ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo #7

burroughs-mostra-de-sp-600x416 Crítica: Burroughs: O Filme - Mostra de SP

O documentário Burroughs: The Movie, dirigido em 1983 por Howard Brookner, se resume a uma série de caminhadas ao lado do lendário escritor de Naked Lunch (cuja adaptação cinematográfica é um dos grandes filmes da carreira de David Cronnenberg) e Junkie durante uma visita sua, já na terceira idade, à St Louis que marcou sua infância e juventude. É uma experiência, portanto, que pode ser extremamente entediante para o espectador que desconheça a obra do “padrinho” da geração beat, mas ao mesmo tempo deliciosa para os seus admiradores.

Tendo início com as imagens de arquivo da primeira aparição de Burroughs em um canal de televisão já nos anos 80 (e que revela um sujeito surpreendentemente carismático para sua fama de recluso ao contar uma divertida piada envolvendo uma desastrosa cirurgia de apendicite), o documentário de Brookner se beneficia imensamente da tranquilidade com que seu documentado fala acerca de assuntos que a grande maioria dos escritores – e das “celebridades” de forma geral – daria tudo para esconder, como sua relação apaixonada com as mais diversas drogas, a natureza quase que exclusivamente autobiográfica de suas obras e o provável suicídio de sua esposa de longa data, que, por muito tempo, rendeu-lhe uma longa investigação como suspeito por um suposto homicídio – e mesmo o relacionamento homossexual com seu assistente “atual” é abordado de maneira natural e livre pelo projeto, que, se não o explora como um tabloide, também não esconde suas óbvias evidências.

Fumando um cigarro atrás do outro e exibindo olhos fundos e um cacoete na boca que provavelmente resultava justamente das décadas de uso descontrolado de entorpecentes, o William H. Burroughs visto aqui é um sujeito articulado e inteligente cuja fragilidade aparente é diretamente proporcional à velocidade de seu pensamento (há inclusive uma cena em que ele conversa com um antigo vizinho e não só lembra o nome de seu filho falecido há mais de trinta anos como o descreve em detalhes) – e a julgar pelos depoimentos de nomes de peso como os de Allen Ginsberg, Brion Gysin, Herbert Huncke e Francis Bacon, entre muitos outros, Burroughs também foi um homem extremamente ligado aos amigos e devotado à família, algo que se comprova em uma cena divertida em que o autor mostra-se absolutamente à vontade ao sentar-se ao lado de seu irmão – que, por sua vez, jamais fez ideia do quê “Naked Lunch” se trata.

Acertando ao abrir mão da narração em off e de qualquer elemento visual que pudesse afastar a atenção do espectador de seu protagonista, Burroughs: O Filme é um documentário que, se não pode ser chamado de complexo ou ambicioso, ao menos apresenta uma faceta humana de uma figura habitualmente tida como desvairada.

(Burroughs: The Movie, EUA, 1983). Escrito e dirigido por Howard Brookner.

João Marcos Flores

Crítico de Cinema associado à OFCS (Online Film Critics Society, a maior associação de críticos online do mundo, sediada nos EUA) e editor do blog Cineviews.