Crítica: Força Maior – Mostra de SP

38ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo #6

CannesTourist

O primeiro estabilishing shot de Força Maior, pré-selecionado da Suécia para o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro de 2015, mostra um pequeno conjunto de pousadas que, situadas em uma estação de esqui, parecem prestes a ser engolidas pelos opressivos alpes franceses que ameaçam desabar sobre elas por todos os lados. Em um daqueles quartos está hospedada a família que, formada pelo casal Tomas (Kuhnke) e Ebba (Kongsli) e seus filhos Vera e Harry (Clara e Vincent Wettergren), pousava para as lentes de um fotógrafo que precisava insistir para que eles se aproximassem mais e demonstrassem o mínimo de afeto um para com o outro em um prólogo segundos antes. Não é preciso mais nada para entendermos que o longa tratará de um casal em crise que decidirá o destino de sua família naquelas férias de inverno, não é mesmo?

Escrito e dirigido por Ruben Östlund, o longa não apenas apresenta sua premissa com rapidez e inteligência, como planta seu primeiro “ponto de virada” em uma sequência cuja tensão crescente culmina em uma demonstração de covardia extrema por parte de Tomas, fazendo sua imagem desmoronar de vez aos olhos de sua já ressentida esposa: enquanto almoçam em um restaurante localizado na sacada do hotel, os hóspedes percebem uma avalanche se aproximar. Inicialmente seguros de que o que estão vendo não passa de um desmoronamento menor e de que tudo está sob controle, eles passam gradativamente a perceber a gravidade da situação; até que, com medo de serem totalmente soterrados, todos entram em pânico – até Tomas, que, ao invés de pensar nos filhos, sai correndo e deixa a família para trás.

Além dessa, há outra cena absolutamente espetacular que ajuda a garantir a recomendação do longa: não conseguindo mais conter ou disfarçar o profundo desprezo que passou a nutrir pelo marido após o incidente (uma repulsa já encubada através de anos de amortecimento da paixão inicial, evidentemente) e já um pouco embriagada após algumas taças de vinho, Ebba humilha o marido em um jantar com um casal de hóspedes amigos, passando a olhá-lo com frustração cada vez maior à medida em que ele nega o ocorrido e recusa-se a se desculpar – e as atuações de Johannes Kuhnke e Lisa Loven Kongsli são essenciais para que sintamos que aquelas pessoas se conhecem o suficiente para mirar nos pontos fracos uma da outra sem a menor piedade.

turist

É uma pena, portanto, que depois de já ter conquistado o espectador, Östlund acabe o decepcionando um pouco ao tornar a trama repetitiva e progressivamente sem foco – e não é só a repetição dos ataques de Ebba a Tomas, que voltam a ocorrer de maneira muito semelhante durante outro jantar com um novo casal de conhecidos, que mostra que o diretor e roteirista não sabia ao certo o rumo que queria dar à narrativa, mas o próprio terceiro ato tolo e artrificial em que – e aqui eu sugiro que só quem já viu o filme continue lendo este parágrafo – todos os problemas do casal parecem ser resolvidos através de um trote em que Ebba finge ter se perdido em meio à neve durante uma caminhada apenas para que o “banana” do seu marido pudesse resgatá-la e recuperar assim sua virilidade perdida.

Encerrando a projeção com uma longa e desnecessária sequência envolvendo um péssimo motorista que faz os personagens abandonarem o ônibus e continuarem a descida dos alpes a pé, Força Maior funciona, ao menos em sua metade inicial, como um drama de relacionamento sobre como nós, homens, conseguimos ser patéticos (a cena em que Tomas finge chorar e é logo desmascarado por sua cética esposa é constrangedora) na maneira como lidamos com os sentimentos das mulheres de nossas vidas, que não raro nos dão centenas de milhares de chances de redenção antes de cogitarem que a vida pode ser melhor sem nossa irreversível imaturidade.

(Force Majeure, Suécia/Dinamarca/Noruega, 2014). Escrito e Dirigido por Ruben Östlund. Com Johannes Kuhnke, Lisa LovenKongsli, Clara Wettergren, Vincent Wettergren, Brady Corbet, Jakob Granqvist, Kristofer Hivju e Fanni Metelius.

João Marcos Flores

Crítico de Cinema associado à OFCS (Online Film Critics Society, a maior associação de críticos online do mundo, sediada nos EUA) e editor do blog Cineviews.