Crítica: Profecia – A África de Pasolini – Mostra de SP

38ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo #3

Profezia L’Africa di Pasolini

É evidente que em um documentário de apenas 77 minutos de duração seria impossível rever com propriedade a carreira do genial Pier Paolo Pasolini, poeta, ativista político dos ideais da esquerda italiana e dos direitos dos homossexuais e diretor de filmes seminais como Accatone – Desajuste Social, O Evangelho Segundo São Mateus, Teorema e, gostem ou não, Saló ou os 120 Dias de Sodoma, facilmente um dos longas mais controversos da História do Cinema. Mas minha decepção maior ao assistir a este Profecia – A África de Pasolini foi perceber que, mesmo selecionando um recorte bastante específico da visão de mundo do cineasta (sua fascinação não apenas pelo continente africano e seu povo, mas pela “pureza” que ele via na pobreza extrema), os diretores Gianni Borgna e Enrico Menduni não conseguem focar nele e muito menos explicar suas causas com clareza.

Formado basicamente por trechos de diversos filmes de Pasolini, imagens de arquivo de vários países que o cineasta visitou em sua observação constante da desigualdade social ao redor do planeta, uma contínua narração em off que reproduz suas observações e uma ou outra entrevista do próprio documentado e de seu discípulo Bernardo Bertolucci, A África de Pasolini já tem início de maneira burocrática ao resgatar a recepção acalorada de Accatone pela crítica que cobria o Festival de Veneza de 1961 através de imagens das páginas dos jornais, letreiros com frases tiradas das críticas mais entusiasmadas e comentários em off sobre o evento no qual o filme se transformou – e a única ideia que parece promissora, a de mostrar como as locações utilizadas no set daquele longa estão nos dias de hoje, jamais contribui em nada com o tema que o projeto se propôs a desenvolver.

Este tema, aliás, apresentado de maneira superficial como o longa o apresenta, acaba criando uma imagem distorcida de Pasolini, que, intelectual engajado nas causas em que acreditava, é pintado aqui como um sujeito ingênuo e dono de ideais utópicos cuja fixação pelo conceito de um estado de pobreza libertador das correntes perversas  do capitalismo ocidental o condenou a um esquerdismo pouco prático que servia apenas como inspiração para a sua Arte. E mesmo que as imagens de uma África primitiva e em sua maior parte ainda em processo de independência que compõem parte do documentário funcionem como um importante registro histórico, no contexto deste filme elas acabam sugerindo uma visão circense acerca do negro selvagem que, não tenho dúvida, Pasolini não alimentava.

Constantemente desviando o foco do continente-título para momentos-chave da carreira de seu documentado – e mesmo assim não apresentando nada de novo ao se concentrar, por exemplo, na famosa controvérsia gerada pela recepção positiva do Vaticano em relação a O Evangelho Segundo São Mateus (que contrastava com a reprovação demonstrada pela esquerda europeia) e na suposta realização do primeiro close up da História do Cinema em Accatone (uma falácia para qualquer cinéfilo que já tenha assistido a A Paixão de Joana D’Arc, realizado mais de trinta anos antes), Profecia – A África de Pasolini é curto e traz belas imagens – o que não será, de jeito algum, suficiente para alguém que decida vê-lo para compreender um pouco mais sobre a relação entre seu documentado e a cultura que mais moldou o seu Cinema.

(Profezia L’Africa di Pasolini, Itália/Marrocos, 2013).Dirigido por Gianni Borgna e Enrico Menduni. Escrito por Gianni Borgna e Angelo Libertini.

João Marcos Flores

Crítico de Cinema associado à OFCS (Online Film Critics Society, a maior associação de críticos online do mundo, sediada nos EUA) e editor do blog Cineviews.