Crítica: Winter Sleep, de Nuri Bilge Ceylan - Mostra de SP
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Crítica: Winter Sleep – Mostra de SP

Crítica Winter Sleep Mostra de SP

38ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo #18

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Ao final da primeira cena de Winter Sleep, novo longa escrito e dirigido pelo cineasta turco Nuri Bilge Ceylan (3 Macacos, Era uma Vez na Anatólia) e que venceu a Palma de Ouro no Festival de Cannes deste ano, há um plano em que a câmera faz um travelling em direção à cabeça do protagonista Aydin (Bilginer) como se buscasse entrar em sua mente – e durante os longos 196 minutos que se seguirão, Ceylan buscará justamente mergulhar no dia-a-dia daquele personagem que, se não desperta a simpatia do espectador com facilidade, ao menos iniciou uma importante fase de auto-avaliação ao perceber que não é exatamente o homem brilhante que sempre acreditou ser.

Rodado mais uma vez na Anatólia, região montanhosa, árida e muito fria no interior da Turquia, o longa concentra-se em uma temporada de inverno inicialmente corriqueira em que Aydin, sua esposa Nihal (Sözen) e sua irmã Necla (Akbag) transformam seu hotel rústico em um abrigo para viajantes, revelando-se uma grande sessão de terapia a partir do momento em que Necla passa a desabafar acerca do fim de seu casamento e Nihal a revelar uma série de rugas em sua relação aparentemente estável com Aydin – e o estopim dos conflitos que se sucederão se dá quando o protagonista tem o vidro de seu carro quebrado pelo filho de um hóspede inadimplente (Isler) e, ao visitá-lo para exigir uma retratação, se envolve em um conflito com o violento Hamdi (Kiliç).

Já iniciando a projeção com um discurso eloqUente e elegante em que cada palavra parece ter sido escolhida a dedo não só por sua funcionalidade morfológica e sintática, mas também por sua fonética e pela elegância que representa quando combinada com suas vizinhas, o protagonista de Winter Sleep foi um jovem prodígio que, ao crescer, acabou transformando-se em um playboy demagogo e patético em seus delírios de intelectualidade que ganha dinheiro com o hotel e usa seu dom para a escrita e sua paixão pelos estudos apenas para escrever artigos e ensaios auto-congratulatórios para um jornal de pequena circulação, mantendo sua postura de superioridade mesmo depois de tornar-se um pária até mesmo aos olhos de sua própria família.

Apesar de estarem inseridos em um contexto religioso que incita o egoísmo (há uma cena em que o protagonista é aconselhado por seu mentor Hidayet (Pekcan) e este atribui o fato de haver tantos pobres passando fome ao redor do mundo à predeterminação divina) e a culpa (as decisões tomadas por Nihal ao longo da narrativa resultam muito mais de uma necessidade desesperada de aliviar a consciência que de uma visão humanista muito definida) e de não ser os seres humanos mais louváveis (especialmente o arrogante Aydin), os personagens de Winter Sleep são amantes do pensamento e da reflexão que, quando conversam (e as quase três horas e meia de projeção se resumem basicamente a um longo diálogo atrás de outro longo diálogo), buscam sempre alternativas racionais para seus dilemas – e ouvi-los conversar é sempre um prazer por podermos observar o talento de Ceylan na escrita de diálogos inteligentes e elegantes.

Remetendo à literatura e ao Cinema russos não apenas por priorizar a dinâmica interna de seus personagens em detrimento à história em si, mas também pela maneira com que parte de situações simples para discutir temas essencialmente morais (a decisão de Hamdi diante de um maço de dinheiro oferecido por Nihal parece diretamente inspirado em uma situação bastante parecida que ocorre em “Os Irmãos Karamazov”, de Dostoiévski), Winter Sleep é um filme que demanda paciência e disposição para nos adaptarmos à sensibilidade específica de seu diretor e de uma cultura bastante diferente da nossa, oferecendo como recompensa uma reflexão aberta e sem máscaras da frustração humana diante de expectativas gradativamente frustradas ao longo de uma vida inteira.

Em uma diegese em que cada palavra de cada frase de cada diálogo é valiosa (perceba que, no momento em que Nihal diz a Aydin que perguntou a ele se poderia convidar determinado personagem para uma reunião em sua casa, o sujeito imediatamente questiona: “Quando você me perguntou isso?”, como se mesmo um detalhe como esse não pudesse ser deixado de lado), o novo projeto de Nuri Bilge Ceylan funciona como uma ode ao amor pela oratória e a retórica – e se para alguns o roteiro do longa soou requintado ou rebuscado demais, para mim isso só revela a confiança que o Ceylan tem em seu cada vez mais cativo público.

Confira também o comentário de Larissa Padron sobre o filme durante o Festival de Cannes

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Winter Sleep (Idem, Turquia/França/Alemanha, 2014). Escrito e dirigido por Nuri Bilge Ceylan. Com Haluk Bilginer, Melisa Sözen, Demet Akbag, Ayberk Pekcan, Serhat Mustafa Kiliç, Nejat Isler, Tamer Levent, Nadir Saribacak, Emirhan Dorukutan, Ekrem Ilhan, Rabia Özel e Fatma Deniz Yildiz.

João Marcos Flores

Crítico de Cinema associado à OFCS (Online Film Critics Society, a maior associação de críticos online do mundo, sediada nos EUA) e editor do blog Cineviews.