Entrevista: Carolina Jabor, diretora de Boa Sorte

Boa Sorte filme
Carolina Jabor

Carolina Jabor

Quem ouve o nome Carolina Jabor pensa logo no jornalista/escritor/cineasta. Mas em seu novo longa-metragem, o drama Boa Sorte, a filha de Arnaldo mostra que veio com sua própria personalidade para carimbar o cinema nacional.

Com roteiro do sempre excelente Jorge Furtado (Ilha das Flores) e estrelado por Deborah Secco (Bruna Surfistinha) e o novato João Pedro Zappa, o filme narra um romance dentro de uma clínica psiquiátrica.

Em cartaz na 38º Mostra de São Paulo, o crítico João Marcos Flores entrevistou Carolina Jabor sobre o filme. Confira:

O longa-metragem se passa praticamente todo numa clínica, mas não é um “filme de clínica” como a gente está acostumado, o foco dele é completamente outro. Como você se preveniu para que ele não acabasse descambando para um filme de clínica, que também é válido mas é uma proposta completamente diferente da sua? Quais são as estratégias que você usou pra se prevenir disso?

Eu acho que primeiro, eu queria que a história de amor estivesse na frente de tudo, que o encontro dessas duas pessoas, esse encontro improvável, tomasse a frente, tomasse conta. E não tem como abrir tudo, não tem como tomar conta de tudo, passar por tudo. Então, essa foi a primeira opção que a gente teve.

Junto disso, eu acho que hoje as clínicas de reabilitação estão modificadas, a clínica hoje não é mais uma clínica de maluco, de pirado. Os antipsicóticos – que são os remédios que entraram de dez anos pra cá – mudaram esse perfil de clínica. A clínica hoje é uma clínica de reabilitação, uma clínica pra jovem, para recuperar, para conseguir largar o vício. Mas acho que isso veio muito do roteiro também, o fato de que a gente realmente queria que fosse um filme sobre a educação sentimental desse garoto.

A questão dos remédios é o segundo ponto que eu curto falar. Então a clínica está dentro desse segundo ponto, mas está ali muito na Cássia Kiss, eu acho que ela representa a instituição, o sistema. Mas eu não queria fazer um filme tipo aquele com a Angelina Jolie (Garota Interrompida), que é ótimo, mas é um filme falando sobre aquilo. Não: eu queria que o amor estivesse na frente. Então aquilo foi plano de fundo.

Quando se tem muitas pessoas trabalhando juntas, todas elas têm uma visão muito particular da sua arte – então você trabalhando com o Furtado, e a Deborah agregando. Como foi essa colaboração de vocês no processo de criação, até por ser um filme de personagem? O que tem ali de liberdade dos atores improvisarem? O que era do roteiro? O que foi adição sua na direção?

Eu acho que você tocou num ponto muito bom, muito bonito que eu acho do cinema. Eu trabalho com publicidade e televisão, faço muita televisão hoje em dia, fiz muita publicidade, e o cinema me trouxe um negócio que eu me emociono muito, que é o fato de que você parte de um roteiro, e aí você tem a sua visão daquele roteiro, que é diferente da visão do roteirista.

E a cada momento que entra uma pessoa na equipe, do ator ao diretor de arte ao fotógrafo, aquela ideia que você tem é modificada novamente. Então, no meu caso eu sou bem “CDF”, eu estudo à beça, eu trabalho antes, eu não improviso, eu estudo muito o texto em casa, penso como vou filmar, os ensaios demoraram dois meses. Mas a cada pessoa que chega, o filme vai para outro lugar. E no final, ele é a visão desse conjunto.

Se você é uma pessoa generosa – no caso eu sou, eu gosto, eu sei o que eu quero, mas eu gosto de dividir – Isso é muito prazeroso. Eu vejo um pouco de cada um ali, sabe? E é para chegar em um resultado conjunto final que eu queria, mas não era exatamente esse lugar que cheguei, sabe? Esse foi o lugar mais lindo que eu cheguei.

E os atores, que acabam sendo os últimos nesse processo todo, que também acrescentam sua própria visão do material. Como foi para atingir aquele nível de entrosamento entre os dois? A parte de direção dos atores mesmo…

Foi um trabalho de dois meses de ensaio, onde a gente conseguiu desconstruir, – principalmente o trabalho com a Deborah – foi de desconstrução da Deborah Secco, e do tipo de atuação que ela vinha fazendo, que é uma atuação maravilhosa, mas o filme não permitia e não valia. Ela tinha que ser descontruída para alimentá-la da Judite.

Junto disso o João (Pedro Zappa), que é um menino que vem do teatro e fez pouco cinema e que é um ator extraordinário. Então, a gente pegou o Chico Accioly, que é um cara que ensaia junto com a gente – não é um preparador, é um cara que a gente chama de dramaturgo dos ensaios – junto com a Daniela Visco, que é uma preparadora de corpo, e a gente fez um trabalho muito emotivo e muito técnico também

Então, a gente ensaiou bastante e tentou trazer tudo que eles poderiam trazer para aqueles personagens. E a entrega deles é muito forte, eu tenho certeza que eles se entregaram.

Poster Boa Sorte com Deborah secco

Confira também a crítica de João Marcos Flores para o filme, cuja estreia está prevista para o dia 20 de novembro.

Larissa Padron

Larissa Padron é jornalista pela UFMG e apaixonada por cinema desde pequenininha (o que ela ainda é). Nas horas vagas dança sem música na cozinha, treina o discurso para o Oscar com o shampoo e coloca uns vídeo no Youtube.