#ButecoInRio 2017 – 05: Más Influências, Last Flag Flying, A Vilã e A Montanha Entre Nós

Entre projetos de diretores cultuados, potenciais candidatos ao Oscar e surpresas aclamadas dentro do próprio festival, é importante reservar, dentro da montagem do cronograma, algum espaço para sessões “no escuro”, títulos sobre os quais não sabemos quase nada e dos quais dificilmente ouviremos falar após o final do evento. Isto pode reservar belas experiências, a exemplo do melhor título conferido neste quinto dia de #ButecoInRio 2017.

11) Más Influências ★★½

(Mala Junta, Chile, 2016. De Claudia Huaiquimilla)

Local: Kinoplex São Luiz, no Catete

 

É preciso certa coragem para observar mais compreensiva e humanamente figuras que, historicamente, a produção audiovisual relegou à marginalização ou ao elo dicotômico do antagonismo. Tano (Andrew Bargsted), ainda que não seja propriamente um bully, adota comportamentos marcados pela rispidez, agressividade e uma certa rejeição à moralidade do mundo – trata-se do arquétipo de um jovem estigmatizado. Más Influências, no entanto, tem a virtuosidade de caminhar além do arquétipo, da superfície, objetivando uma compreensão mais humana de uma figura que, na formação de seu enrijecimento, tem a ausência da afetividade de seus pais – enquanto o patriarca, um pouco duro, sempre esteve ausente, a mãe não hesita em rejeitá-lo assim que um problema surge. Algumas doses de atenção e diálogo, afinal, podem remodelar as perspectivas de quem parece fadado ao trágico.

Cheo (Eliseo Fernández), por sua vez, enfrenta a mesma ausência paternal – que, evidentemente, seria tão problemática quanto a materna -, mas encontra-se do lado que sofre com o bullying e a rejeição de seus colegas. Enquanto isso, ambos parecem representar, metaforicamente, o que seria um povo – os Mapuches – marginalizado pela falta de reconhecimento de sua cidadania e o desamparo das instituições que representam a nação – órfão, portanto -, conforme o embate sociopolítico apresentado no terceiro ato da produção chilena revela. Nos entreveros de realidades paralelas e simbolicamente congruentes, porém, Más Influências acaba encontrando-se com alguns problemas de foco e indefinição quanto ao conflito no qual deseja se concentrar, diante da força dos dramas de Tano, Cheo e da região à qual pertencem – o que, embora fragilize sua narrativa, não invalida de modo algum o valor de sua proposta.

12) Last Flag Flying ★★★½

(idem, EUA, 2017. De Richard Linklater)

Local: Kinoplex São Luiz, no Catete

 

A memória de um passado traumático foi o que preservou os elos entre Larry ‘Doc’ Shepherd (Steve Carell), Sal (Bryan Cranston) e o pastor Richard Mueller (Laurence Fishburne), que dividem, no pesar de suas consciências, a responsabilidade por um episódio enigmático ocorrido durante a Guerra do Vietnã – uma culpa que o tempo não foi capaz de apagar. As três décadas decorridas desde então foram empregadas, pelos três, na criação de válvulas de escape para seus traumas e angústias, sejam elas a formação de uma família, a esbórnia alcoólica ou um compromisso religioso – e, quando um deles perde a referência construída no período, desmorona-se a barreira de força do escape, trazendo à superfície a vulnerabilidade das sombras do que, enfim, não ficou para trás.

Richard Linklater é um artista que, independentemente da qualidade alcançada por seus projetos, emprega uma camada admirável de verdade em cada uma das personagens que cria e, consequentemente, em suas histórias. A experiência de “luto permanente”, tão subjetiva, é experimentada de uma maneira completamente distinta por cada um daqueles protagonistas, ainda que sua faixa etária, herança prévia e condição social possa ser semelhante, e isto é algo que Linklater sensivelmente procura retratar, da inocência de Doc ao tino quase conformado de Mueller, passando pela descontração cínica de Sal. A partir disto, o diretor oferece ao seu talentosíssimo trio protagonista uma perceptível e acertada liberdade, o que confere naturalidade às relações desenvolvidas e, sobretudo, arquiteta um estudo leve, bem-humorado e autêntico da dor de uma perda.

A legitimidade que diverte e atinge seu ápice na sequência passada num trem não deixa de lado a sensibilidade melancólica que a temática, vez ou outra, requer; sempre que deixa de lado a insistente dinâmica de pregação x negação – entre Sal e Mueller -, o texto de Last Flag Flying amadurece e consegue alcançar momentos de comoção no desenvolvimento de suas relações, amargadas pela passagem dos anos e, ainda assim, absolutamente significativas no contexto de suas personagens. Zeloso, ainda, ao observar sutilmente o peso da passagem do tempo na alteração das relações afetivas – a exemplo da chegada de um telefone móvel à vida de Sal -, o longa-metragem prova, mais uma vez, que não é preciso adotar um tom soturnamente dramático para abordar sensível e humanamente um drama tão estafante.

13) A Vilã ★★★★½

(Ak-Nyeo, Coreia do Sul, 2017. De Jung Byung-Gil)

Local: Cine Roxy, em Copacabana

A partir das lentes do cinema sul-coreano, somos capazes de observar a população local com uma perspectiva de certa automatização de seus comportamentos; são retratados indivíduos de postura instrumentalizada, apropriados por instituições e corporações interessadas em suas aprimoradas habilidades técnicas e, a partir disto, submissos, robotizados, facilmente manipulados à violência e à ilegalidade em nome do que os domina. O absoluto “Oldboy” é um exemplo óbvio disto. Realizar afirmações generalistas de caráter biológico é sempre perigoso, mas seria um equívoco subestimar a capacidade perceptiva que o cinema de um país tem sobre seu próprio povo.

E, no caso da produção cinematográfica sul-coreana, isto é o que assegura uma atmosfera tão singular de tensão e urgência: a complexidade e a imprevisibilidade que marca cada ato destas figuras, capazes de qualquer coisa em nome do cumprimento de seus deveres. A Vilã, de Byung-gil Jung, compartilha desta virtude, e mostra a que veio desde sua visceral sequência inicial, acertadamente filmada em primeira pessoa.

Sook-hee (Ok-bin Kim, excepcional) é uma protagonista que, embora seja responsável por nos guiar na trama, jamais desperta a possibilidade de confiança irrestrita do público – a estranheza de seus compromissos e a violência que carrega em seus atos logo nos fazem compreender as razões do título do longa. A personagem, por sua vez, carrega a mesma desconfiança quanto a tudo e todos que a cercam, fruto de um passado violentamente traumático que, além de tê-la endurecido, não a permite entregar-se emocionalmente a alguém. Até que Hyun-soo (Jun Sung) surge, determinado a conquistá-la.

Hyun-soo, entretanto, envolve-se com a protagonista a partir de uma determinação que o foi passada; e é isto o que confere complexidade ao romance: filmado de maneira notadamente sensível – surpreendente, considerando a brutalidade da trama até então -, nos coloca entre a doçura e a verdade que carrega a relação entre os dois, e a ciência de que, evidentemente, as consequências da mentira que o sustenta dificilmente serão boas. E Byung-Gil nos conduz ao incômodo com maestria, realizando uma subversão de gênero que exige, também, grande habilidade da montagem de Sun-mi Heo, capaz de sustentar o ritmo da narrativa mesmo quando ela transita entre a calmaria do devaneio amoroso e a selvageria de seus desencadeamentos. Trata-se de um casamento perfeito, do ponto de vista narrativo, entre a sensibilidade no desenvolvimento do afeto, e a ação brutal e vigorosamente filmada.

A Vilã é admiravelmente fiel àquela que é a história de sua protagonista, tomando para si a inevitável máxima que persegue sua existência, na qual a eterna promessa de uma “vida normal” fatalmente seria frustrada: de uma infância traumática – e, diga-se, acertadamente exposta de maneira não-linear, levando-nos a experimentar parte da perturbação que as desordenadas recordações brutais provocam na personagem – a um presente desolador de esperanças, a violência é a única que jamais abandonou Sook-hee; ela esteve intrínseca e insistentemente acompanhando cada passo de sua existência, além de sua vontade. E só a morte poderia separá-las.

 

Spoilers a seguir: Ferida, provocada e furiosa, nossa heroína caminha, perseverante, rumo aos últimos esforços de sua tão desejada vingança. Um atropelamento não foi capaz de pará-la, e romper os vidros de um ônibus insurge como o único caminho. A partir deste ponto, uma sequência impagável de travellings espetaculares acompanham a veloz movimentação de Sook-he em confronto com Joong-sang, sem jamais nos perder na brutalidade de seus atos, no olhar atento para a protagonista e no sangue que jorra insaciavelmente nas lentes da câmera de Jung Byung-Gil, que não poupam sequer o motorista. Numa catarse estética que só o cinema pode provocar, sobem ao altar, em movimento, os noivos deste brutal matrimônio entre o amor e a violência; entre a intensidade do afeto e a implacabilidade da vingança que o segue. Brutal.

14) Depois Daquela Montanha ★★

(The Mountain Between Us, EUA, 2017. De Hany Abu-Assad)

Local: Cine Roxy, em Copacabana

 

Uma produção hollywoodiana sobre uma queda de avião, num território inóspito, isolado e completamente coberto por neve, cujos únicos remanescentes vivos são um casal – o cirurgião Ben (Idris Elba) e a fotojornalista Alex (Kate Winslet) – e um cachorro que lutam, sem recursos de sobrevivência, para ser resgatado, não nos permite exigir o famigerado “realismo”. Aliás, há um erro de julgamento quase sempre que se critica uma narrativa de ficção por seu “surrealismo”: deve-se cobrar, na verdade, verossimilhança.

Há um autêntico teste à inteligência do espectador, no entanto, presente em Depois Daquela Montanha. Trata-se de uma obra pioneira, inaugural de um conceito que, humildemente, intitulei “Cão ex-machina”. Um recurso inovador de roteiro, no qual o animal, cujo nome não nos é apresentado, é o recurso utilizado pelo roteiro para encaminhar, de maneira destinada, os protagonistas em direção a todas as resoluções para os percalços por eles enfrentados na dura e instintiva batalha para manterem-se vivos. Desde quando sobrevive ao ataque de um puma, o canino aparentemente adquire habilidades sobrenaturais para “farejar” soluções surpreendentes, sejam uma caverna para que seus humanos não congelem ou uma casa em localidade improvável – sempre nos momentos em que estas são dramaticamente necessárias.

Ainda assim, a falta de explicações lógicas imperava no texto antes mesmo da aparição do animal na trama, conforme evidencia a solução quase misticamente encontrada pela protagonista para sanar a urgência da perda do voo para Baltimore – justamente a situação que a une com seu futuro companheiro de sobrevivência. Mas, em algum momento, os seres humanos certamente falhariam na tentativa de encontrar novas maneiras de manterem-se vivos; por sorte, enquanto o cachorro ocupa-se de mantê-los vivos, Alex e Ben podem se concentrar no estreitamento de sua relação – que, previsivelmente, evolui até transformar-se num romance.

Leonardo Lopes

Eu já sabia que ia terminar assim. Estudante de Jornalismo (FAAP-SP). Tenho o Cinema e a comunicação como grandes (únicas?) paixões. Marxista e pessimista. Saudosista e louco.
Colunista do Cinema de Buteco e membro da Sociedade Brasileira de Blogueiros Cinéfilos.