Festival do Rio: Manglehorn

QUANDO SE PENSA NA CARREIRA RECENTE DE AL PACINO, logo vem à mente Cada um tem a gêmea que merece, filme em que se apaixona pela irmã de Adam Sandler, interpretada pelo próprio Sandler. Pacino é ele mesmo e faz um comercial para uma loja de donuts em que canta e dança para divulgar o café da casa, o Dunkaccino. Pois é.

Antes sinônimo de Michael Corleone, Frank Serpico e Tony Montana, é bem verdade que o ator errou a mão na hora de escolher seus projetos nos últimos 10 (ou 20) anos, e o resultado foi se unir à turma de setentões que agora mais trabalham pelo contracheque do que pelo roteiro. As Duas Faces da Lei é talvez o melhor exemplo disso: não só traz Pacino, mas também Robert De Niro, e é um dos policiais mais sofríveis dos últimos anos.

Ainda assim, nem as indicações ao Framboesa de Ouro (uma por Contato de Risco, outra pelo filme com Sandler) conseguiram tirar o mérito de suas boas atuações nos últimos anos. Sim, elas existiram, apesar de estarem em muitos filmes medianos. Pacino viveu um incrível Shylock em O mercador de Veneza, adaptação de Shakespeare; deu vida a Roy Cohn na minissérie Angels in America, que lhe rendeu um Emmy e um Globo de Ouro; e interpretou Jack Kevorkian, o Dr. Morte, no filme da HBO Você não conhece Jack, novamente levando um Emmy e um Globo de Ouro pra casa. Ainda no ano passado, lançou um novo filme para a TV em que fazia Phil Spector, o produtor musical que cumpre pena de prisão perpétua por um assassinato. Com direito a perucas e tudo mais.

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David Gordon Green sabia do potencial que Pacino ainda tem, mas é difícil imaginar o motivo que levou o diretor a ver A. J. Manglehorn nele. Dono de alguns dos mais marcantes gritos, discursos e xingamentos que o cinema já viu – entre eles “Attica! Attica!” em Um dia de cão; “Esse tribunal está fora de ordem!”, em Justiça para todos; “Você pode ganhar ou perder como um homem?” em Um domingo qualquer; e “Diga olá para o meu amiguinho”, em Scarface – Al interpreta aqui a carcaça do que um dia foi um homem. Sendo o personagem-título, Manglehorn está presente em todas as cenas, até mesmo quando não aparece na tela. É ao ouvir histórias de outros personagens sobre ele que o espectador fica sabendo o que ele já foi um dia, seja como pai, seja como treinador da liga infantil de baseball da cidade do Texas onde mora há 40 anos.

Mas foi antes disso que Manglehorn se perdeu. Ele ficou preso no passado, em seu amor por Clara, uma namorada que o deixou. Ele casou, tive filho, virou chaveiro e, quando ficou sozinho, arrumou uma gatinha. Mas nunca deixou de enviar cartas a Clara, que voltam todas intocadas para a sua caixa de correio, devolvidas, recusadas. Com sua voz grave e rouca, Pacino murmura arrependimentos, declarações de amor e conta da vida para uma pessoa que jamais lerá seus lamentos narrados em voice-over.

É com essa calma que Green volta a um formato que ajudou a consagrá-lo nos festivais de cinema. Manglehorn estreou por aqui no Festival do Rio após a boa recepção em Veneza e Toronto, tanto pelo impacto causado pela atuação de Pacino, quanto pelo tom que o diretor escolheu dar ao filme. Deixando de lado as comédias que vinha dirigindo desde o bem sucedido Segurando as Pontas, David Gordon Green voltou à crueza de dramas como Contra Corrente e principalmente Anjos da Neve, um dos queridinhos de Sundance em 2007. Mas dessa vez, ele foi um pouco mais longe. Green é um grande contador de histórias, especialmente quando lida com dramas de personagens masculinos colocados à prova, mas em Manglehorn ele mergulha a fundo na psique de um homem quase em frangalhos. Por isso, o longa é simples, duro, direto ao ponto em muitos momentos. Mas em outros, entra no experimentalismo, nas múltiplas vozes falando ao mesmo tempo, em camadas de cenas que se sobrepõem e em um simbolismo nas visões do próprio personagem que acabam não cumprindo seu papel.

Manglehorn

Mas quando isso acontece, há boas chances de o espectador já estar fisgado pelo quebra-cabeças que é A. J. Manglehorn. Al Pacino entrega uma de suas melhores performances nos últimos anos, justamente porque consegue impressionar mesmo na simplicidade das cenas e diálogos, sem recorrer aos excessos que o tornaram tão famoso. A predominância do protagonista é tão grande que os coadjuvantes não chegam a desenvolver todo o potencial de seus personagens – culpa do roteiro, já que Chris Messina se confirma como um dos jovens atores mais interessantes dos últimos anos e Holly Hunter é sempre uma presença marcante.

Por outro lado, Green dá a Angelo Manglehorn todo o espaço para crescer e se desenvolver. A câmera parece estar ali meramente para abrir as portas de um personagem cheio de complicações, manias e contradições. Se sua profissão é também uma metáfora para os segredos do personagem e, mais literalmente, para o que fica atrás da porta que ele insiste em trancar (apesar de morar só com a gatinha, Fanny), o diretor recompensa o espectador revelando aos poucos, e apenas o suficiente, sobre aquele homem e como ele se tornou o que é hoje.

Apesar da estranheza proposital do filme – seja no falatório de Gary (Harmony Korine), seja num momento musical que acontece em pleno banco, seja no non-sense de uma cena que envolve um acidente de carro e melancias, muitas melancias -, Manglehorn é um curioso estudo de personagem, um passo ousado para David Gordon Green e um atestado que Pacino ainda tem muito a dizer. Mesmo que agora ele fale bem baixinho.

Manglehorn

Nathália Pandeló

Jornalista, diretora de conteúdo na Build Up Media e amante de música, cinema, literatura e TV.