O louco sistema de eleição do Oscar de Melhor Filme | Cinema de Buteco
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O louco sistema de eleição do Oscar de Melhor Filme

Saiba como é que o Oscar de Melhor Filme é escolhido:

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O ano de 2016 vai apresentar uma das disputas mais acirradas na corrida pelo Oscar de melhor filme em muito tempo. “O Regresso”, “A Grande Aposta” e “Spotlight” dividiram os principais prêmios da temporada, e chegam com forças parecidas para a premiação. Se já não tão comum que na noite da festa não haja um favorito absoluto, é extremamente raro que mais de dois candidatos cheguem com possibilidades reais de levar o prêmio.

Os principais termômetros do Oscar, os prêmios dos sindicatos, se dividiram. O sindicato dos atores (SGA) escolheu “Spotlight”, o dos diretores (DGA) “O Regresso”, e o dos produtores (PGA) “A Grande Aposta”. O SGA é o que conta com o maior número de membros na Academia, por outro lado, historicamente o DGA é o prêmio mais confiável, contudo, desde que a Academia ampliou a categoria principal para até dez candidatos, o PGA se tornou, de longe, a referência principal. Para bagunçar ainda mais, o sindicato dos roteiristas (WGA) premiou tanto “Spotlight” (roteiro original), quanto “A Grande Aposta” (roteiro adaptado). “O Regresso”, assim como no Oscar, não teve seu roteiro indicado, entretanto, o filme de Alejandro González Iñárritu é o que está no melhor momento, tendo acumulado na reta final o prêmio do sindicato dos fotógrafos (ASC) e o BAFTA.

Sabemos então que teremos uma noite interessante no domingo, que pode se tornar ainda mais imprevisível graças ao confuso sistema de votação imposto pela Academia para a escolha do Oscar de Melhor Filme.

Voto Preferencial

Ao contrário do que muitos pensam, a Academia tem regras específicas para as várias categorias do Oscar no que concerne a elegibilidade e voto. Por exemplo, só podem votar em Filme em Língua Estrangeira os membros que provarem ter assistido a todos os cinco indicados (em exibições organizadas pela própria Academia). Nas outras categorias, a organização pede, mas não exige, que os membros que não tenham visto a todos indicados se abstenham de votar.
No entanto, nenhuma categoria se afasta tanto das demais como a de Melhor Filme. Para as todas as outras é fácil: o votante marca na cédula somente o candidato favorito, e aquele que acumular o maior número de votos recebe o prêmio. Simples. Já para a principal categoria da noite é bem mais complicado, já que a Academia utiliza o voto preferencial. O sistema é realmente confuso, mas o Cinema de Buteco te explica passo-a-passo abaixo:

Na cédula para a escolha de Melhor Filme, o votante faz uma lista da ordem de preferência dos seus filmes (nesse ano de 1 a 8);

As cédulas são então empilhadas baseando-se na escolha do filme favorito dos membros (isto é, aquele em que o votante colocou o número 1);

Se um filme obtiver mais de 50% dos votos¸ ele é declarado o vencedor*;

Se nenhuma obra conseguir a maioria absoluta, o filme com o menor número de votos é então eliminado da disputa, e suas cédulas são redistribuídas. Para isso, considera-se o segundo favorito da cédula, que se tornou, agora, o favorito entre os elegíveis;

Recontam-se as pilhas, e, se um filme obtiver mais de 50% dos votos¸ ele é declarado o vencedor;

Se novamente nenhuma obra atingir a maioria absoluta dos votos, o processo se repete: o filme com a menor pilha é eliminado da disputa, e suas cédulas são redistribuídas, considerando agora o próximo favorito;

Isso é feito até que alguma pilha tenha mais de 50% de cédulas.

* Embora ninguém saiba com certeza (já que a premiação é secreta) acredita-se que é praticamente impossível um filme vencer nessa primeira “rodada”. A Academia conta, atualmente, com 6.261 membros votantes, então o número para se atingir a vitória, se todos votarem (algo extremamente improvável) seria de 3.131.

Exemplificando. Vamos supor que um membro tenha ranqueado “A Ponte dos Espiões” como o número 1, “Brooklyn” como o número 2 e “Perdido em Marte” como número 3. Se ao fim da primeira rodada não houver nenhum longa com mais de 50% dos votos, a menor pilha será redistribuída. Se no caso for a do filme “A Ponte dos Espiões”, a cédula citada irá automaticamente para a pilha do filme “Brooklyn”. Se na segunda rodada, novamente não houver maioria absoluta, e a menor pilha for a do filme “Brooklyn”, as cédulas serão redistribuídas novamente, entre elas a cédula de nosso membro imaginário, que dessa vez irá parar na pilha de “Perdido em Marte”. E assim por diante.

A Academia utiliza o voto preferencial por acreditar que a categoria principal deve refletir o sentimento geral dos votantes, não escolhas pontuais. Apesar de não incentivar zebras, afinal o favorito geralmente leva mesmo o prêmio, em um ano tão atípico e de disputa tão acirrada, esse sistema pode ser decisivo para a escolha do vencedor. Um filme que obtenha reações apaixonadas de aprovação e rejeição na mesma medida, pode se sair bem na primeira “rodada” e ir perdendo terreno nas “rodadas” seguintes. Esse louco e confuso modo de se escolher o vencedor é mais um ingrediente nessa disputa, que se estabelece desde já como uma das mais interessantes dos últimos anos.

Théo Collin