Connect with us

Filmografia comentada

Biografia: Stanley Kubrick

O GAROTO STANLEY FOI GENTE COMO A GENTE ATÉ DESCOBRIR O XADREZ E A CÂMERA FOTOGRÁFICA;

Published

on

O CINEMA DE BUTECO APRESENTA A BIOGRAFIA DE STANLEY KUBRICK, UM DOS MAIORES NOMES DA HISTÓRIA DA SÉTIMA ARTE:

stanley kubrick

O GAROTO STANLEY FOI GENTE COMO A GENTE ATÉ DESCOBRIR O XADREZ E A CÂMERA FOTOGRÁFICA; daí virou Stanley Kubrick. Nasceu no bairro do Bronx em Nova Iorque, 26 de julho de 1928. Apesar do nome judeu, cresceu num ambiente não-religioso. Se dava mal na escola e não tinha muitos interesses, porém era muito inteligente. Em 1941, seu pai Jack apresentou-o ao jogo de xadrez na tentativa de fazê-lo se interessar por alguma coisa. O garoto se apaixonou instantaneamente e tornou-se um exímio jogador. A lógica e estética do xadrez foram usadas por ele durante toda a vida como importantes ferramentas de raciocínio para planejar e criar seus filmes, além de ajudar a lidar com atores difíceis nos sets. O pai, numa outra tentativa bem-sucedida, presenteou-o com uma câmera fotográfica. Stanley Kubrick se tornou um excelente fotógrafo e acabou conseguindo o emprego de fotógrafo aprendiz na prestigiada revista Look, o que mais tarde lhe foi bem útil para adentrar o mundo do cinema.

stanley-kubrick-5

Era viciado em cinema e queria assistir “tudo de todos os cineastas do mundo” e mais tarde, já como diretor, assistia a todos os lançamentos do cinema em sua sala de projeção, para estudar os novos trabalhos cinematográficos. Sua carreira foi diretamente influenciada pelos filmes de Max Ophüls, Elia Kazan, Orson Welles, G. W. Pabst, David Lynch, Sergei Eisenstein, Vsevolod Pudovkin e também pelo método de direção de Constantin Stanislavski (o homem que criou o método de atuação americano, adepto de muitos atores, dentre eles Robert De Niro e Daniel Day-Lewis). Ao longo dos anos, tornou-se um aspirante a diretor e começou a fazer documentários como Day Of The Flight, Flying Padre e The Seafarers. Reuniu investidores e colegas adversários de xadrez e conseguiu financiar seu primeiro filme, Medo e Desejo. Em seguida fez A Morte Passou Perto e O Grande Golpe, até que atraiu atenção e conseguiu filmar em 1957 um dos grandes clássicos do cinema, Glória Feita de Sangue, estrelado por Kirk Douglas. A pedido do próprio, tomou as rédeas de Spartacus e transformou em clássico.

stanley_kubrick

Após filmar na Inglaterra Lolita e Dr. Fantástico, acabou tomando o país como seu lar; muito disso devido à sua decisão de se isolar do sistema hollywoodiano (o que resultou em pouquíssima divulgação de sua vida particular). Em 1987, parou de tirar fotos de si mesmo e o último registro em vídeo dele é o dos bastidores de O Iluminado, em 1982. Não gostava de dar entrevistas, e a mídia tinha tanta dificuldade em conseguir qualquer informação sobre sua vida que até um impostor chamado Alan Conway enganou famosos e jornalistas e se passou por ele em várias situações (Kubrick ficou fascinado ao saber disso, é claro). Essa mesma mídia rejeitada por Kubrick chegou a fabricar a mirabolante teoria conspiratória (que até hoje tem adeptos) de que ele teria filmado a falsa chegada do homem à Lua num estúdio a pedido da NASA.

stanley-kubrick-dirige-2001
Conhecido por seu perfeccionismo exagerado, chegava a fazer oitenta tomadas de uma mesma cena (método também utilizado por David Fincher) e tinha tendência a querer fazer o trabalho de todos os profissionais sob seu mando. Apesar disso, todos que trabalhavam com ele tinham total liberdade para criar, opinar e contribuir diretamente nos filmes. Ele nunca se repetia: mudava radicalmente o tom e o humor a cada novo filme que fazia e por isso teve uma carreira tão versátil e diversificada. Nesse aspecto, sua maior aliada era a edição, que para ele era a fase mais interessante e importante da pós-produção, e podia ficar horas a fio numa salinha editando seus filmes. Com o passar dos anos, seu processo de pós-produção se tornou cada vez mais lento, tamanho era seu detalhismo e cuidado. Apaixonado por tecnologia, tinha um conhecimento vasto sobre câmeras. Mandava fazer lentes customizadas, usava câmeras inovadoras (como em Barry Lyndon, quando quis filmar cenas apenas à luz de velas, mandou criar câmeras de alta fotossensibilidade para tornar o trabalho possível ou como em O Iluminado, um dos primeiros filmes a usar o Steadicam – sistema de captação de imagem de câmera à mão com estabilidade semelhante a de tripés) – muitas das quais chegou a operar em várias cenas – e efeitos especiais de ponta (vide 2001 – Uma Odisseia no Espaço, referência até hoje para profissionais do ramo e deleite para os olhos de quem assiste e não acredita que esse filme foi lançado em 1968). Por sua natureza fotógrafa, preocupava-se mais com imagens a falas. Cenas com diálogos, para ele, não tinham o mesmo efeito que uma boa fotografia regada a boa música, mas apesar disso, seus filmes muitas vezes são lembrados por suas frases fortes e icônicas. Seu legado na história do cinema é marcado pela inovação narrativa e estética, plasticidade e visionarismo tecnológico.
S023P048.jpg
Pessoalmente, era apaixonado por jazz e muitos diziam que ele mais parecia um beatnik: liberalista, sarcástico, com um jeito largado de se vestir e tinha certo descaso com dinheiro, que para ele nada mais era que a fonte de sua independência. Não pendia para nenhum lado político, mas tinha suas opiniões decididas e muitas vezes contrárias à política americana (muitas delas expressadas em Glória Feita de Sangue, Dr. Fantástico, Laranja Mecânica Nascido Para Matar).

kubrickfmjset

Dinâmico, desenvolvia múltiplos projetos ao mesmo tempo – prática que ao passar dos anos se tornou frustrante já que muitos deles não se concluíam, como a épica cinebiografia de Napoleão Bonaparte, uma adaptação do livro Wartime Lies de Louis Begley (que foi cancelada porque Steven Spielberg anunciou que iria dirigir A Lista de Schindler, que tinha tema parecido), Rhapsody (thriller psico-sexual), uma versão de O Hobbit estrelando Os Beatles e Blue Moon (sobre o primeiro filme pornô americano) além de seu famigerado último projeto A.I. – Inteligência Artificial (mais tarde finalizado por Spielberg), que levou anos para se desenrolar porque Kubrick não achava que os efeitos visuais da época eram bons o suficiente para representar a história.

stanley-kubrick-self-portrait-with-his-daughter-jack-nicholson-and-the-crew

Grandes diretores contemporâneos como Steven Spielberg, James Cameron, David Fincher, Martin Scorsese, Woody Allen, Terry Gilliam, Ethan e Joel Coen, Ridley Scott, George A. Romero, Richard Linklater, Sam Mendes, Quentin Tarantino, Darren Aronofsky, Christopher Nolan, Guillermo Del Toro, David Lynch, Lars Von Trier, Michael Mann, Gaspar Noé, Tim Burton, Paul Thomas Anderson, Todd Field, Michael Moore, Frank Darabont e Nicholas Winding Refn foram altamente influenciados por sua obra e o citam como um de seus cineastas favoritos. Apesar de ser considerado um dos maiores diretores da história do cinema, ganhou somente um Oscar por Efeitos Especiais por 2001: Uma Odisseia no Espaço. Em compensação, ganhou o Prêmio D. W. Griffith por conjunto da obra e que para muitos diretores é considerada a maior de todas as honras. Ironicamente, foi indicado ao Framboesa de Ouro como Pior Diretor por O Iluminado.

Stanley-Kubrick-shooting-A-Clockwork-Orange

No fim dos anos 90, os efeitos especiais haviam evoluído muito. Kubrick voltou a trabalhar em A. I. – Inteligência Artificial, mas sofreu um ataque fulminante durante o sono e faleceu sem poder sequer iniciar as filmagens, em 1999. Morreu sem saber da fria recepção da crítica a seu último filme, De Olhos Bem Fechados, hoje tido como um clássico cult. Dia 7 de março foi o 14º aniversário de morte de um dos maiores artistas que o mundo já conheceu, gênio criativo que vivia rodeado pela família e por seus bichos, adorador de ficção científica, prodígio curioso e modesto e profissional extremamente generoso.

MV5BMTIwMzAwMzg1MV5BMl5BanBnXkFtZTYwMjc4ODQ2._V1._SX214_CR0,0,214,314_

Filmografia:

Medo e Desejo (1953)
A Morte Passou Perto (1955)
O Grande Golpe (1956)
Glória Feita de Sangue (1957)
Spartacus (1960)
Lolita (1962)
Dr. Fantástico (1964)
2001 – Uma Odisseia no Espaço (1968)
Laranja Mecânica (1971)
Barry Lyndon (1975)
O Iluminado (1980)
Nascido Para Matar (1987)
De Olhos Bem Fechados (1999)

Continue Reading
10 Comments

10 Comments

  1. Carlos Oliveira

    16 de março de 2013 at 15:36

    Ótimo texto, está entre meus três cineastas preferidos e foi injustiçado pela mídia, crítica e público de sua época. O Grande Golpe e 2001 são obras-primas da sétima arte.

  2. Danilo Kovacs

    26 de março de 2013 at 16:38

    Para mim, o melhor diretor da história.

  3. Moacir Lopes Costa

    26 de março de 2013 at 16:47

    Olhei os extras do Laranja Mecânica e a esposa do Kubrick e Spielberg falaram que ele tinha o projeto de A.I pronto mas estava filmando De olhos bem fechados, então entregou o projeto para o Spielberg, por que não conseguiria tocar os dois!

    • Fernanda Minucci

      27 de março de 2013 at 14:38

      Moacir, vários fatores levaram a que Kubrick desistisse do projeto. Spielberg continuou com o projeto porque, sim, Kubrick não conseguiu conciliar A.I. cm DE OLHOS BEM FECHADOS, mas também porque, após inúmeras conversas com Kubrick por telefone (os dois eram muito amigos) sobre A.I., Kubrick decidiu que ele não era a pessoa indicada a realizar o filme. Ele achou que tinha mais a ver com o Spielberg. Eu, particularmente, adoro o filme. Mas morro de vontade de ver a possível versão do Kubrick. Acho que seria bem mais sombria! Um abraço!

    • Moacir Lopes Costa

      28 de março de 2013 at 12:58

      Fernanda, o que diz na matéria é que Kubrick faleceu sem sequer iniciar as filmagens de A.I, o que sabemos que não é verdade, já que ele entregou o projeto para o Spielberg!

    • Vagner Oliveira

      26 de abril de 2013 at 12:37

      Fernanda Minucci também acho.

  4. Su Obara

    26 de março de 2013 at 16:48

    simplesmente fantástico

  5. Elcio Ribeiro

    26 de março de 2013 at 17:20

    O Stanley agora achei uma boa definição pra seu nome kkkkkkkkkkkkkkkkk

  6. Beto Gomes

    26 de março de 2013 at 17:51

    sem dúvida O Iluminado eh o maior filme de Stanley, isso pq até hj intriga muito quem o assiste, o que todo bom filme deveria fazer!

  7. Fábinho Novelli

    26 de março de 2013 at 18:25

    Quando leio sobre caras incríveis como esse minha paixão pelo cinema aumenta sem duvidas.

Leave a Reply

O seu endereço de e-mail não será publicado.

Destaques

Guia de Consumo: O Cinema de Lenny Abrahamson

O crítico Alex Gonçalves, do Cine Resenhas, apresenta o cineasta Lenny Abrahamson e sua obra para quem ainda não conhecia. Confira:

Published

on

Filmografia comentada: Conheça um pouco mais da obra do cineasta Lenny Abrahamson, indicado ao Oscar 2016 por O Quarto de Jack. Texto por Alex Gonçalves, do Cine Resenhas.

14/12/2015 Director Lenny Abrahamson who has directed a new film called 'The Room'. Photo: Clodagh Kilcoyne

Ao sair a lista de indicados ao Oscar 2016, muitos já tinham sido arrebatados por “O Quarto do Jack”. Entretanto, a presença de Lenny Abrahamson entre os finalistas a Melhor Diretor pegou praticamente todos desprevenidos. Embora os fãs de “Carol” e “Perdido em Marte” o acusem de ter ocupado uma vaga que as previsões apontaram ser ocupada por Todd Haynes ou Ridley Scott, é justo dizer que realizou um trabalho tão bom (quanto George Miller e Tom McCarthy) ou melhor (que Adam McKay e Alejandro González Iñárritu) em comparação com os colegas finalistas.

O que poucos cinéfilos sabem é que “O Quarto de Jack” é o alcance de uma excelência que teve uma carreira não composta previamente apenas por “Frank”, dramédia musical com Michael Fassbender que fez sucesso no circuito alternativo. Outros três longas compõem a filmografia de Abrahamson, todos inéditos no Brasil.

Nascido em Dublin em 1966, Lenny, que antes de “O Quarto de Jack” assinava como Leonard, estudou física e psicologia, mas manteve uma trajetória paralela como diretor de curtas e comerciais. Rodado em 1991, “3 Joes” é o primeiro registro de sua filmografia, tendo inclusive no elenco o hoje famoso Dominic West. Inclinado ao mundo da publicidade, voltou a se interessar por cinema 13 anos depois, debutando no longa-metragem com “Adam & Paul”. Posteriormente, assinou “Garage” (2007) e “What Richard Did” (2012), representando um período de altos e baixos, natural para um diretor que hoje experimenta o sabor da consagração.

Adam & Paul

Adam & Paul - Lenny Abrahamson

Aos 38 anos, Lenny Abrahamson estreou na direção com o pé direito em “Adam & Paul”. Usa a sua Dublin natal como o cenário em que transitam os personagens-título, dois jovens viciados em drogas com os pés na reta que separa o convívio social da marginalidade, revendo figuras então constantes em seus cotidianos ao mesmo tempo em que driblam adversidades como a falta de dinheiro e a de um teto para dormirem. O uso de humor de algum modo colabora para tornar ainda mais mordaz o registro e Mark O’Halloran (que também assina o roteiro) e Tom Murphy (morto em 2007 após uma batalha contra um câncer) são tão autênticos como Adam e Paul que chegaram até mesmo a ser confundidos como moradores de rua durante as filmagens.


Garage

Garage - Lenny Abrahamson

Ainda que tenha recebido bons elogios da crítica irlandesa especializada e chamado a atenção no Festival de Cannes (onde venceu um prêmio especial da Confédération Internationale des Cinémas d’Art et Essai), sente-se que Garage não passa de um drama de observação sobre o cotidiano banal de um protagonista atolado em uma existência inexpressiva. Em nova parceria com o roteirista Mark O’Halloran, acompanhamos Josie (Pat Shortt), um quarentão que trabalha em um posto de gasolina. Durante o verão rural, decide contratar um rapaz de 15 anos como ajudante, vindo assim uma relação que permitirá aflorar um pouco da intimidade desse sujeito solitário. Um conflito preparado para o clímax não colabora para o filme alçar voos mais altos.


What Richard Did

What Richard Did - Lenny Abrahamson

Quando um diretor começa bem e segue com um trabalho inexpressivo – ou vice-versa -, fala-se muito sobre a “crise do terceiro filme”, aquela que poderá definir os rumos que uma carreira tomará. Em retrospecto, nada muito otimista seria dito sobre Lenny Abrahamson, pois What Richard Did é o seu pior trabalho. Qualquer tentativa em construir um conto moral relevante é imediatamente arruinada pelo desenho nada convidativo de Richard Karlsen, personagem central interpretado por Jack Reynor. Se a primeira metade da narrativa trata apenas de acompanhar a vida aborrecida de um mauricinho desinteressante, a segunda frustra ainda mais ao tentar criar um elo de empatia com o público diante de um ato inconsequente que se converte em tragédia. Superprotegido, Richard recebe até mesmo de seu pai as chaves de sua casa na praia, um refúgio para lamúrias que só nos fazem ter ainda mais desprezo por sua figura e, consequentemente, pelo filme.


Frank

Michael Fassbender as Frank

Com a carreira estabelecida em Hollywood, Michael Fassbender foi ousado ao se propor a viver Frank, líder de uma banda de rock que passa todo o tempo com uma cabeça gigante para ocultar a sua verdadeira face. No mínimo esquisita, essa dramédia musical confirma pela primeira vez as pretensões Lenny Abrahamson em expandir o seu cinema para além da Irlanda. Também trazendo a bordo o irlandês em ascensão Domhnall Gleeson e Maggie Gyllenhaal, Frank acompanha com graça o percurso do sucesso artístico ao inserir as excentricidades à altura de conjunto underground fictício. O filme só parece atingir um limite em sua reta final, expondo um drama sobre traumas que não harmoniza adequadamente com o todo.


O Quarto de Jack

file_611874_room-picture

Mesmo que as principais virtudes de seus trabalhos prévios sejam reconhecidas de algum modo, Lenny Abrahamson renasce em O Quarto de Jack. Não à toa, é o primeiro trabalho como diretor em que não assina como o habitual Leonard Abrahamson. A partir do roteiro assinado por Emma Donoghue, por sua vez adaptado de seu próprio romance, acompanha-se o cárcere angustiante de Ma (Brie Larson) e seu filho Jack (Jacob Tremblay), que completa cinco anos sem ter visto uma vez sequer o mundo fora da “prisão” de poucos metros quadrados em que são mantidos por razões que desconhece. Há dois momentos em O Quarto de Jack: a imaginação e o amor maternal em um espaço restritivo e a readaptação e a desproteção de uma realidade externa e ampla. Por situar tão bem os seus personagens em ambos, inclusive com soluções visuais, a escolha de Lenny Abrahamson entre os finalistas ao Oscar de Melhor Diretor é uma surpresa que celebra o ápice de sua carreira e gera expectativas para o seu próximo projeto em desenvolvimento, A Man’s World.

Continue Reading

Destaques

Guia de Consumo: O Cinema de George Miller

Filmografia comentada: Conheça um pouco mais da obra do cineasta George Miller, indicado ao Oscar 2016 por Mad Max: Estrada da Fúria. Texto por Alex Gonçalves, do Cine Resenhas.

Published

on

Filmografia comentada: Conheça um pouco mais da obra do cineasta George Miller, indicado ao Oscar 2016 por Mad Max: Estrada da Fúria. Texto por Alex Gonçalves, do Cine Resenhas.

George Miller

Entre as décadas de 1970 e 1990, o cinema australiano passou a ser movido com a potência de novas vozes, resultando em produções que ultrapassaram as barreiras da terra dos cangurus para invadir Hollywood e o mundo. Não somente alguns intérpretes como Nicole Kidman, Russel Crowe, Hugo Weaving, Guy Pearce, Toni Collette e Paul Hogan se transformaram em astros, como também muitos diretores migraram para conduzir grandes produções em outros países.

Bem como Peter Weir, Jane Campion, Baz Luhrmann, P.J. Hogan, Phillip Noyce e tantos outros, George Miller começou a carreira com um filme independente cujos ecos foram notados por públicos de todos os cantos do mundo, transformando a cinematografia australiana em uma arte com um diálogo universal. Porém, somente Miller tem hoje uma saga a qual continua revisitando para as novas gerações: Mad Max.

É com ela que o cineasta de 70 anos atinge um novo ápice em sua carreira, sendo o vice-campeão em indicações ao Oscar 2016, incluindo menções nas categorias de Melhor Filme e Melhor Diretor. Porém, não é só a ação pós-apocalíptica que pulsa a filmografia de George Miller, que o traz em curiosas expedições ao cinema infantil, dramático e cômico.

Mad Max

O fascínio de George Miller pelo conceito de um futuro apocalíptico o persegue desde o início da carreira, com Mad Max marcando o seu debut como diretor em um período que o cinema australiano se preparava para ganhar o mundo com uma safra de obras originais como a de nenhuma outra cinematografia. Nesta primeira aventura do personagem-título imortalizado por Mel Gibson, Miller supera o orçamento limitado com escolhas muito criativas, como a montagem ágil da dupla Cliff Hayes e Tony Paterson, e ainda deixa o terreno preparado para o que viria a ser uma franquia bem-sucedida.

Mad Max 1


Mad Max 2: A Caçada Continua

Dois anos depois de Mad Max, George Miller conseguiu um valor quatro vezes superior para viabilizar Mad Max 2: A Caçada Continua e fez uma estratégia que viria a repetir com Estrada da Fúria: ater-se somente aos elementos primordiais do argumento original para priorizar a ação e garfar um público ainda mais amplo. O resultado foi extremamente positivo e, 35 anos após o lançamento, as perseguições nas estradas desertas da Austrália seguem impressionantes. Também cerca de interesse a transformação a qual Max é submetido, de um policial em busca de vingança pela morte de sua família para um guerreiro sem a distinção da autoridade em luta pela sobrevivência.

Mad Max 2


Mad Max: Além da Cúpula do Trovão

Com propostas tentadoras para migrar para Hollywood, George Miller resistiu para fechar o ciclo de Mad Max com um terceiro episódio, Além da Cúpula do Trovão, partilhando a direção com George Ogilvie. Para os não aficionados por cinema, era o único Mad Max com existência conhecida devido às inúmeras reprises na tevê aberta e à Tina Turner como a líder de um grupo de crianças órfãs – a cantora é quem também interpreta a maravilhosa canção “We Don’t Need Another Hero”. A realização foi duramente criticada por suavizar a ação, que fez despencar a classificação indicativa para o lançamento nos cinemas. Ainda assim, uma revisão pode colaborar para um julgamento mais brando, pois Além da Cúpula do Trovão é um bom filme.

Mad Max Alem da Cupula do Trovao


As Bruxas de Eastwick

Livre, leve e solto das responsabilidades de sua saga Mad Max, As Bruxas de Eastwick veio como a melhor alternativa visualizada por George Miller para ingressar em Hollywood, sendo uma comédia descompromissada com um elenco central contando com as maiores estrelas à época. No entanto, falta um toque especial na adaptação do romance de John Updike, pois a guerra dos sexos que se estabelece entre Jack Nicholson e Cher, Susan Sarandon e Michelle Pfeiffer solta apenas faíscas. Na premissa, as três atrizes vivem amigas solteiras seduzidas pelo mesmo homem (interpretado por Nicholson), um ricaço egocêntrico e sedutor, o que irá gerar consequências nefastas. Alguns diálogos bem escritos e defendidos, como se vê em uma clássica troca de farpas entre Cher e Nicholson, potencializam o humor.

As Bruxas de Eastwick


O Óleo de Lorenzo

Aos seis anos de idade, o menino prodígio Lorenzo Odone foi diagnosticado com uma doença raríssima chamada adrenoleucodistrofia, que prejudica progressivamente a funcionalidade da visão, da audição e da fala. Sensibilizado com a luta dos pais de Lorenzo em buscar uma cura para prolongar a vida de Lorenzo (os médicos revelaram que ele não passaria dos oito anos), George Miller se uniu ao roteirista Nick Enright para levar a história aos cinemas, encarregando-se também da direção. Infelizmente, não se conteve ao seguir os protocolos dos filmes “quero Oscar”, dramatizando em excesso o retrato real suficientemente doloroso de uma família. Incomoda principalmente o modo como Nick Nolte é orientado a compor o seu personagem, sem nenhuma sutileza. Mesmo emocionando parte do público, O Óleo de Lorenzo foi um fracasso comercial e obteve somente duas indicações ao Oscar, uma de roteiro original e outra de atriz para Susan Sarandon, que interpreta a mãe de Lorenzo.

O Oleo de Lorenzo


Babe – O Porquinho Atrapalhado na Cidade

Quando um filme destinado ao público infantil faz um tremendo sucesso, mas tem um argumento que não permite a criação de novos episódios, a tendência é providenciar uma sequência caça-níquel e de qualidade inferior somente para engordar os cofres de um estúdio. Esse definitivamente não é o caso de Babe – O Porquinho Atrapalhado na Cidade, um filme tão doce quanto o original dirigido por Chris Noonan. No entanto, George Miller, que se voluntariou a dirigir a continuação, se viu diante de críticas infundadas sobre a inadequação de seu material para as crianças e de estratégias equivocadas para o lançamento, o que provocou a Babe – O Porquinho Atrapalhado na Cidade o embate direto com as animações Vida de Inseto e Os Rugrats e a demissão de Casey Silver, o então chefão da Universal. A obra injustiçada da filmografia do australiano.

Babe o porquinho atrapalhado na cidade


Happy Feet: O Pinguim

George Miller levou nada menos que oito anos para se recuperar do fracasso comercial monumental de Babe – O Porquinho Atrapalhado na Cidade assumindo novamente o risco de liderar um projeto voltado aos pequenos: a animação Happy Feet: O Pinguim. A Warner Bros. vendeu bem o peixe e, além do êxito nas bilheterias, Happy Feet rendeu o primeiro e (até o momento) único Oscar para Miller ao vencer a categoria de Melhor Animação em 2007. Mais do que um filme para toda a família,Happy Feet é um musical encantador, trazendo hinos românticos contagiantes como “Somebody To Love”, “Kiss”, “Heartbreak Hotel” e “My Way” nas vozes de Elijah Wood, Brittany Murphy, Robin Williams, Nicole Kidman e Hugh Jackman. Os passos de dança dos pinguins, obtidos com o uso de sensores em dançarinos profissionais, confere um caráter realista à técnica animada.

Happy Feet 1


Happy Feet 2: O Pinguim

Nos nove longas que compõem a filmografia de George Miller, há cinco sequências. O dado curioso é uma comprovação de que a ausência de um argumento original pode acarretar em falta de inspiração. Ao contrário de Babe – O Porquinho Atrapalhado na Cidade, Miller não apresenta em nenhum momento de Happy Feet 2: O Pinguim alguma justificativa para a sua existência. Ao contrário: o ritmo é claudicante, os números musicais desapontam, o pano de fundo familiar não emociona e a inserção de novos personagens, como os crustáceos dublados por Brad Pitt e Matt Damon, não cumprem qualquer função relevante para a narrativa. É o pior filme de sua carreira.

Happy Feet 2


Mad Max: Estrada da Fúria

Absolutamente tudo conspirava para o fracasso de Mad Max: Estrada da Fúria: a substituição do grande Mel Gibson pelo pouco carismático Tom Hardy, as constantes mudanças de cronograma para as filmagens e os adiamentos no lançamento nos cinemas, um indício de que há muitos problemas a serem revertidos na ilha de edição. Felizmente, as estimativas pouco favoráveis não condizem com o resultado final, no qual George Miller outra vez revê a saga que o levou a fama ao capturar temas pertinentes ao nosso contexto, como o esgotamento de recursos naturais e o empoderamento feminino, como combustíveis de uma ação insana e em movimento contínuo.

Votos Individuais Mad Max

Continue Reading

Destaques

Guia de Consumo: O Cinema de Adam McKay

O Cinema de Buteco convidou o crítico e jornalista Marcelo Seabra, do blog O Pipoqueiro, para falar sobre a carreira de Adam McKay, um dos indicados ao Oscar de Melhor Direção em 2016.

Published

on

O Cinema de Buteco convidou o crítico e jornalista Marcelo Seabra, do blog O Pipoqueiro, para falar sobre a carreira de Adam McKay, um dos indicados ao Oscar de Melhor Direção em 2016. Confira:

FILE - This Dec. 6, 2013 file photo shows director Adam McKay from the film "Anchorman 2: The Legend Continues" in New York. McKay will write and direct an adaptation of Michael Lewis’ financial crisis best-seller “The Big Short: The Doomsday Machine.” Paramount Pictures announced Monday, March 24, 2014, it will produce “The Big Short” along with Plan B, Brad Pitt’s production company. (Photo by Victoria Will/Invision/AP)

Depois de ser recusado como ator no tradicional programa humorístico Saturday Night Live, Adam McKay submeteu quatro roteiros e foi aprovado. Escreveu e dirigiu vários quadros e curtas e se sentiu pronto para partir para o Cinema.

McKay assinou o cultuado O Âncora: A Lenda de Ron Burgundy e estabeleceu uma duradoura parceria com o amigo Will Ferrell. No ano passado, ele assumiu a adaptação de um livro sobre a crise financeira de 2008 e conseguiu sua primeira indicação ao Oscar, entre vários outros prêmios. Conheça os acertos e as tropeçadas do diretor.

O Âncora: A Lenda de Ron Burgundy (2004)

O Ancora - Filmografia Adam McKay

Com um personagem tapado, convencido e carismático, McKay e Will Ferrell fizeram história. Burgundy se junta a uma trupe de jornalistas tão incompetentes quanto ele próprio, com atores tão bons quanto Ferrell vivendo-os, e resta ao público encostar e rir sem parar. Steve Carrell faz um dos personagens mais estúpidos do Cinema e é responsável por alguns dos momentos mais engraçados. Até o cachorrinho consegue ser hilário.

Ricky Bobby – A Toda Velocidade (2006)

Ricky Bobby - filmografia Adam McKay

Seguindo Ron Burgundy, Ricky Bobby é outro bom produto da parceria McKay-Ferrell e é mais um personagem que consegue ser bem sucedido mesmo sendo tão brilhante quanto uma porta. Ricky é o melhor piloto da NASCAR e precisa vencer a competição de um adversário francês, mas seus piores inimigos são seus traumas. A história bobinha é uma desculpa para uma sucessão de gags e piadas das mais variadas, das mais inteligentes às de gosto duvidoso, e o elenco é reforçado pelos nomes costumeiros, como David Koechner e John C. Reilly, além de novidades como Amy Adams e Michael Clarke Duncan.

Quase Irmãos (2008)

Quase Irmaos - Filmografia Adam McKay 2

Primeira derrapada de McKay como diretor, colocando Ferrell e C. Reilly como duas crianças crescidas que precisarão se acertar devido ao casamento dos pais. Os dois atores exageram na caracterização dos adultos imaturos e dá a sensação de que Ferrell ganhou muita liberdade, dando asas a seu humor peculiar – para não dizer exagerado e sem graça. Os veteranos Richard Jenkins e Mary Steenburgen parecem constrangidos com a bobagem que os cercam.

Os Outros Caras (2010)

Os Outros Caras - filmografia Adam McKay

Graças à química entre Ferrell e Mark Wahlberg, o longa consegue sair um pouco do lugar-comum das comédias policiais. A dupla é tirada de trás da mesa e jogada na ação quando os astros da delegacia são mortos. Teremos pela frente uma série de trapalhadas de policiais tentando fazer o serviço. Claro que já sabemos como as coisas vão andar, mas o caminho consegue divertir e algumas tiradas são bem espirituosas.

Tudo Por um Furo (2013)

Tudo por um furo - Filmografia Adam McKay

Anos de espera por mais uma aventura da trupe de Ron Burgundy e é isso que recebemos: em resumo, um filme sem graça que potencializa o que não funcionava no original. O jornalista reúne seus colegas, que haviam debandado, para trabalhar no primeiro canal de notícias no ar 24 horas por dia. O filme coloca Burgundy praticamente como criador dos programas “mundo cão” que temos hoje, tirando toda a dramaticidade possível de uma perseguição em alta velocidade. Will Ferrell se repete, a rusga entre ele e James Marsden não gera interesse algum e até Steve Carell consegue sair por baixo, já que seu Brick Tamland deixa de ser engraçado e se concentra em ser estúpido. Nem a tão falada sequência final salva, sendo apenas um ponto nonsense que requenta o longa anterior e tenta chamar a atenção com participações especiais.

A Grande Aposta (2015)

Seria A Grande Aposta o novo favorito ao Oscar de melhor filme
Um dos destaques da atual temporada de premiações, A Grande Aposta reúne um elenco muito bem escolhido e entrosado para enfiar o dedo em uma ferida recente que atingiu os Estados Unidos e, na sequência, o mundo: a crise financeira de 2007/2008. Misturando humor e drama de forma equilibrada, o longa diverte, informa e indica que tudo pode estar perto de se repetir. Com uma montagem ágil, McKay mistura imagens da época para situar o público no que estava acontecendo, preocupando-se em ser didático sem ser cansativo. De fato, merece a atenção que vem recebendo.

Continue Reading

Bombando!